Cuidado com receitas caseiras

Por Letícia Maria Klein •
18 abril 2018
Digo por experiência própria. Quando eu conheci o lixo zero e suas tantas possibilidades, me apaixonei pelas receitas de produtos de higiene, limpeza e cosméticos que podemos fazer em casa. As vantagens incluem um produto mais natural, sem químicos prejudiciais e menos embalagens, além de te permitir saber tudo que vai na composição.


Mas existem algumas ressalvas na hora de fazer e usar produtos caseiros. É muito importante atentar para os ingredientes utilizados, a função de cada um na receita e como seu corpo responde ao produto feito em casa.

A Cristal Muniz já falou sobre os principais erros na hora de fazer seu cosmético em casa, como, por exemplo, não entender o papel de cada ingrediente. Além da produção, acrescento que é fundamental acompanhar como seu corpo reage aos produtos de higiene e beleza que você faz, pois existem várias receitas na internet, mas você é único. Cada corpo é um corpo e é preciso prestar atenção às particularidades do seu. 

No meu caso, percebi os efeitos há algum tempo, mas acabei demorando mais do que devia para mudar de atitude. Fiz e usei por mais de dois anos uma pasta de dente caseira feita com bicarbonato de sódio, óleo de coco e óleo essencial. É uma receita muito divulgada nos blogs sobre lixo zero e muitas pessoas usam e adoram. Funciona, mas não deu certo para mim. Eu tenho problema de retração e a pasta acabou intensificando o caso. Variei na quantidade de bicarbonato e óleo essencial e fui intercalando com outras pastas, mas o efeito continuou.

Conversa com o dentista

Esta semana fui ao dentista e conversei com ele sobre minhas tentativas. Ele me explicou algumas coisas e me alertou que o problema de retração piorou e que só tem um creme dental que contém o ativo necessário para a minha situação. Assim, vou precisar aposentar a pasta caseira e as outras que tentei nesse tempo para que eu possa recuperar e manter minha saúde bucal.

Falei para o meu dentista que uma das minhas motivações ao começar a usar a pasta de dente caseira tinha sido a questão ambiental, visto que a embalagem da pasta não tem muito mercado para reciclagem (pelo menos aqui onde eu moro o material não é coletado).

Ele se mostrou preocupado e ficou de entrar em contato com o fabricante da marca recomendada, além de procurar se informar e participar do programa de reciclagem da TerraCycle para escovas de dente e embalagens de produtos de higiene bucal. Se der certo, será um grande passo e terei aonde levar os tubos das pastas que usar.

Às vezes, perde-se um pouco num lado para ganhar mais de outro. A luta pela conservação do nosso planeta precisa ser feita com respeito, amor, equilíbrio, cuidado e responsabilidade, a começar por nós mesmos. Se o nosso meio e nossas relações são reflexos do estado interior, é preciso estar bem consigo mesmo em primeiro lugar. Bem de corpo, mente e espírito.

Além disso, vale lembrar que cada passo dado é uma conquista e que a natureza não dá passos largos. Mais vale mudanças pequenas solidificadas ao longo do tempo do que uma grande modificação que se desfaz no primeiro obstáculo. 

Vou continuar fazendo produtos caseiros e incentivo você a fazer os seus. É importante e libertador. Só que eu vou precisar abdicar da pasta de dente porque não me fez bem. Tentei, motivada pela causa e pelo que eu acredito, mas precisei reconhecer quando não deu certo e passou a me fazer mal.

Se for o caso de você tentar e também lhe prejudicar de alguma forma, pesquise mais, converse com outras pessoas, procure especialistas (afinal, eles entendem mais do assunto), tente outras alternativas, suspenda o uso. Dê tempo ao tempo e a você mesmo. Não se culpe se algo não sair conforme o planejado ou esperado. Acredite, a culpa é um peso desnecessário e só retarda nosso aprendizado. 

Nessa trajetória de aperfeiçoamento, faça tudo que fizer com responsabilidade. Afinal, é você quem responde por sua própria vida. Por experiência própria, aprendi que anular a si mesmo não leva ninguém a lugar algum, muito menos a melhorar o mundo.
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Os tons de azul do Morro Azul

Por Letícia Maria Klein •
10 abril 2018
Um lugar perfeito para um passeio rápido no fim de semana. Foi minha primeira vez no Morro Azul e quando cheguei lá em cima, entendi por que o chamam assim.

As hortênsias lindamente floridas fazem jus ao apelido carinhoso do Parque Natural Municipal Freymund Germer, localizado a cerca de 20 minutos do centro de Timbó. No topo do morro, com seus 758 metros de altitude, é possível ver as cidades de Indaial, Pomerode e Blumenau, da esquerda para direita. Com luneta, dá para ver até o litoral! Além da vista, o local também atrai apaixonados por voos livres de parapente e de asa delta.

Vista do Morro Azul
Indaial, Pomerode e Blumenau (da esquerda para direita)

É possível subir até o topo a pé ou de carro (que foi nossa escolha). A subida é bem íngreme, então fica a dica para quem não pode fazer muito esforço físico (ou tiver preguiça mesmo). Àqueles que topam o desafio da caminhada sinuosa e um pouco pesada (assim parecia pelas expressões dos caminhantes), a vista compensa depois do exercício. Pode até levar um lanchinho para fazer um piquenique lá em cima, a área de descanso é bem extensa.

O parque foi criado no dia 11 de março de 1993 pela Lei Municipal n° 1.463. Por estar enquadrado na categoria de Unidade de Conservação de Proteção Integral, de acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC, é permitida a realização de pesquisas científicas, atividades de educação e interpretação ambiental, recreação em contato com a natureza e turismo ecológico.

Hortênsias ao longo do caminho e no topo do Morro Azul

É um passeio muito gostoso para fazer em companhia da família ou dos amigos, desfrutando do ar puro, da tranquilidade e do contato renovador com a natureza.

Serviço

Endereço: Parque Ecológico Freymund Germer, Rua Geral do bairro Mulde Alta, a 18 km do centro de Timbó, CEP 88717-000. O acesso ao parque se dá pela BR 470 e pela SC 416, através da Rua Pomeranos.
Horário de funcionamento: portões abertos das 8h às 18h.
Ingresso: entrada gratuita. Para acampar, o ingresso custa R$ 5,00 por final de semana.
Infraestrutura: camping para barracas e motorhomes, área de convivência, banheiros, chuveiros, churrasqueiras, rampa para a modalidade de voo livre (parapente e asa delta), trilhas ecológicas sinalizadas, sala de educação ambiental e parque de recreação para crianças.
E-mail: institutoaracua@yahoo.com.br.
Site: https://www.facebook.com/parquemunicipalfreymundgermer/.
Telefone: (47) 9603-4948.



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Muito suor na rota das cachoeiras

Por Letícia Maria Klein •
16 fevereiro 2018
São 2.950m de trilha morro acima para conhecer as 14 cachoeiras, numa subida de tirar o fôlego (literalmente!) e surpreender com sua exuberância natural. A rota das cachoeiras, como é conhecida, fica na RPPN Emílio Fiorentino Battistella, em Corupá, Santa Catarina. A  Reserva Particular do Patrimônio Natural é um remanescente de Floresta Atlântica e está em nome da empresa Mobasa Reflorestamento S.A. Fui lá a trabalho pela Fundação do Meio Ambiente, como convidada da Câmara Técnica de Educação Ambiental do Conselho Estadual do Meio Ambiente, na qual minha colega é titular.

Foto: Juliana Budag.

Começamos a subida às 14h (de manhã foi a reunião). O tempo estava ótimo, nublado a maior parte do tempo, com aberturas de sol, e não estava quente. Mas isso não nos impediu de suar bicas. A subida cansa mesmo! Especialmente entre as terceira e quarta cachoeiras, onde tem muitos degraus. A trilha está passando por melhorias desde que a Mobasa assumiu a administração e quase todo o trecho está assentado com pedras, retiradas da reserva mesmo, das margens do Rio Novo.

Eu e minha colega Juliana numa pausa entre as terceira e quarta cachoeiras.
Foto: Vanderlei Balduzzi.

O engenheiro florestal Marmon Nadolny, funcionário da Mobasa que trabalha na reserva e que palestrou sobre o local, disse que a colocação das pedras na trilha evita que os decks ao longo do caminho fiquem sujos de terra e escorregadios, proporcionando mais segurança aos visitantes. Também foram colocados corrimãos ao longo do trajeto, quase até o final. As obras ainda estão em andamento, mas falta pouco para serem concluídas.


Chão com pedras e corrimão na maior parte da trilha.
Foto: Letícia Klein.

É permitido entrar com mochila, comida e bebida e há mesas e churrasqueiras na entrada. Ao longo da trilha tem os decks com bancos para descansar, que são muito bem-vindos! Os banhos nas cachoeiras costumavam ser permitidos, mas desde um acidente fatal em 2014, é proibido mergulhar. Porém, isso não afeta em nada o passeio. A natureza é tão magnífica e nos surpreende ao longo do caminho. Espécies endêmicas de fauna e flora, que só existem naquela região, uma biodiversidade riquíssima, paisagens deslumbrantes e cachoeiras lindas, cada uma diferente da outra.


Bálsamo-de-duas-cores (nome científico: Aphelandra liboniana).
Foto: Juliana Budag.

É importante ir com roupas leves, tênis ou botina de caminhada confortáveis, com solado de boa aderência. Lembrar também de levar água, suco e um lanche, além de uma muda de roupa extra, pois algumas cachoeiras respigam água e não tem como não suar. Tem chuveiros na área de alimentação para poder tomar um banho no retorno da trilha. Por ser um passeio de conexão com a natureza, nada mais coerente do que viver o momento de maneira holística, cuidando de você, do outro e do meio. Por isso, alimente-se de forma saudável, evite embalagens, guarde os resíduos que produzir para descartar corretamente depois; fale baixo para não perturbar os animais e deixe a natureza como a encontrar, sem retirar nada.

Numa próxima vez, quero ir de manhã, fazer a trilha e almoçar no topo, admirando a 14ª cachoeira, que tem 125m de queda e parece um véu de noiva. Espetacular! Como tivemos pouco tempo, acabamos fazendo o percurso num passo rápido, em duas horas de subida e uma de descida. Mas aconselho ir devagar, parando em cada cachoeira no trajeto de ida, ficar um tempo lá em cima para repor as energias e voltar direto (até porque você fica tão cansado que só quer ir embora mesmo).

14ª cachoeira. Foto: Juliana Budag.

Já tinha ouvido falar muito na rota das cachoeiras e fiquei encantada com o lugar. Estar na natureza traz uma paz, uma sensação gostosa de acolhimento e aconchego e nos ajuda a colocar a vida em perspectiva. Uma experiência sensorial holística de conexão não só com a natureza, mas com a gente mesmo. É um daqueles momentos que nos fazem refletir e nos incentivam a adotar hábitos melhores, mais saudáveis e sustentáveis. Vale a pena cada segundo, cada passo e cada gota de transpiração.

Serviço

Horário de funcionamento: todos os dias a partir das 7h30, com entrada para percorrer a trilha até as 14h (de abril a outubro) e até as 15h (de novembro a março). O percurso completo (subida e retorno) leva cerca de quatro horas para ser realizado com calma e segurança.
Ingresso: R$ 20,00 (a partir de 5 anos de idade), adquirido no trajeto para a Rota das Cachoeiras no Mercado Fossile e Camping e Restaurante Rio Novo. Há sinalização e não há venda de ingresso na portaria. A partir de 2018 também serão vendidos ingressos pela internet.
Infra-estrutura: de estacionamento, banheiros com chuveiro e churrasqueiras.
E-mail: rotadascachoeiras92@gmail.com
Site: rotadascachoeirascorupa.blogspot.com.br
Telefone: (47) 3375-2232
Endereço: Rua Rio Novo Alto, s/nº

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Ideias para um Natal sustentável

Por Letícia Maria Klein •
05 dezembro 2017
Já ficou batido dizer que o ano passou voando, mas ele pode terminar de forma linda e sustentável (e sem correria). O Natal é uma data que nos fala sobre celebração da vida, renovação, amor e união, mas acabou se tornando extremamente comercial e legitimadora do consumismo. Por isso separei algumas dicas e sugestões para deixar seu Natal sustentável, repleto de significado e sem lixo.

Momentos com a família

Como o Natal é uma data bem familiar, nada melhor do que reunir seus parentes para desfrutar de momentos juntos. Vocês podem se reunir para preparar a ceia natalina, fazer biscoitos confeitados, bolo de frutas cristalizadas, pão doce. Prefira ingredientes orgânicos e a granel, que fazem bem para o seu corpo e o ambiente. Como não vamos conseguir todos os ingredientes sem embalagens, escolha as que podem ser reutilizadas ou que são recicláveis (e recicladas na sua cidade). Os momentos culinários podem ser embalados (com o perdão do trocadilho) por músicas típicas desta época, que harmonizam o momento e deixam tudo mais mágico.


A partir desta semana muitas pessoas começam a enfeitar suas casas, instalar luzinhas, montar árvores de Natal. Que tal usar a criatividade, restos de tecidos, roupas bem velhas e embalagens reutilizáveis para criar enfeites natalinos, como guirlandas, penduricalhos para a árvore e objetos de decoração? É uma forma de aproveitar o que seria descartado e ter um momento divertido em família, com conversas e descontração. Essa criação coletiva e sustentável também vai ajudar na poupança, pois vocês não vão precisar comprar enfeites novos.

Presentes lixo zero

Para aqueles que gostam de presentear, é muita linda a ideia de dar alguma coisa feita por você e embrulhada numa embalagem sustentável e até reaproveitada, como cestas, panos (com a técnica japonesa de furoshiki), potes de vidro ou caixas decoradas. Pensando em quem você quer agradar com um presentinho, você pode fazer comida (bolo, biscoitos, panetone), cosméticos naturais (creme, sabonete, tônico), roupas e outros objetos a partir de retalhos de tecidos ou outra coisa que seja a carinha da pessoa.

Você também pode dar uma cesta de produtos naturais comprados granel, em vidrinhos, um vaso com temperos plantados, um kit lixo zero ou mesmo algo seu que a pessoa já deu a dica que gostaria de ter, como um livro ou uma peça de roupa. Não é porque é usado que não é presente. Ao contrário, presentes com história podem ser mais significativos e tocantes. Outra dica de mimo sem embalagem e “abstrato” é um que eu costumo dar para aniversariantes: experiências. Uma massagem, um vale-cinema, ingresso para algum parque ou evento, enfim, algo diferente, que ninguém espera, mas que vai ficar na lembrança de quem recebe.

Natal solidário

Além de amor e união, o Natal também inspira boas ações, generosidade e doação de si em prol do outro. Entrando nessa sintonia (que pode te acompanhar o ano inteiro), você pode reverter o dinheiro de presentes físicos para causas que aquecem o seu coração e daqueles que recebem o seu carinho e sua boa intenção. Você pode ajudar uma ONG, um projeto de financiamento coletivo, instituições carentes. A doação não precisa ser só em forma de dinheiro. Você pode doar alimentos, roupas que não usa mais, brinquedos que seu filho deixou de lado. Você e sua família podem inclusive fazer uma limpa na casa juntos, assim você ensina a criança a desapegar e ser solidária. Vocês podem também doar seu tempo. Passar um dia em família em alguma instituição, fazendo voluntariado, é aquele tipo de presente que você dá e recebe ao mesmo tempo, que não tem preço, mas tem um valor inestimável.



Desejo-lhe um Natal com muito amor, tranquilidade, respeito e renovação!
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Um mundo de plástico (e como estamos sendo dominados por ele)

Por Letícia Maria Klein •
16 novembro 2017
O plástico está em todo lugar: da escova de dente à geladeira, do carro ao avião, das nossas roupas sintéticas ao oceano, do plâncton a nós mesmos. Sim, é verdade. O plástico já conseguiu entrar nos nossos corpos. Pesquisas recentes encontraram micropartículas de plástico nos peixes, no sal marinho, na água da torneira, na cerveja, no mel e no açúcar. Nos rios e mares, o lixo plástico vai se desintegrando e as partículas minúsculas vão sendo ingeridas pelos animais, do plâncton à baleia. Cientistas da Universidade de Ghent, na Bélgica, calcularam que as pessoas que comem frutos do mar ingerem até 11 mil micropartículas de plástico por ano!

Ainda não se sabe o efeito disso no corpo humano. Nos oceanos, por outro lado, os efeitos são visíveis, contabilizáveis e catastróficos. Até 12,7 milhões de toneladas de plástico vão parar nos oceanos todos os anos, o equivalente a um caminhão de lixo por minuto de acordo com as Nações Unidas, somando-se as 150 milhões de toneladas que atualmente circulam nos ambientes marinhos. Incluem-se aí sacolas, escovas de dente, embalagens, garrafas, copos, canudos e muitos outros itens de plástico que compõem 90% do lixo presente lá. Se esse cenário persistir, estima-se que em 2050 haja mais plástico do que peixe nos oceanos, de acordo com pesquisa da Fundação Ellen MacArthur. Isso pode representar a morte dos oceanos e, consequentemente, de pessoas. Um dos motivos seria a deficiência de oxigênio, pois as cianobactérias (também conhecidas como algas azuis) produzem de 60% a 80% do oxigênio que nós respiramos. Nós e outros milhares de espécies.


Microplástico dentro de um plâncton. Fonte: Corin Liddle/OrbMedia

Futuro assustador, não? A realidade já é bastante assustadora, principalmente se vamos aos números. Desde o início de sua produção industrial em 1950 até 2015, já foram produzidas 8,3 bilhões de toneladas de plástico, das quais 80% estão em aterros sanitários ou espalhadas pelo mundo, poluindo ambientes naturais e construídos. A quantidade produzida desde 2000 se equipara ao total das cinco décadas anteriores. Todo ano a produção aumenta quase 300 milhões de toneladas, sendo que 40% são usados apenas uma vez e descartados e 9% são reciclados. As garrafas plásticas representam uma grande parte desse montante. As pessoas compram um milhão delas por minuto ao redor do mundo, chegando ao total de 480 bilhões de garrafas vendidas em 2016. Se empilhadas, passariam da metade da distância até o sol. A previsão é que esse número aumente 20% até 2021, totalizando 583,3 bilhões por ano, e quadruplique até 2050!

A maioria das garrafas plásticas é usada para consumo de água e as maiores marcas de bebidas respondem por números astronômicos. A Coca-Cola produz mais de um bilhão por ano, o que dá 3.400 por segundo, conforme uma análise feita pelo Greenpeace. Um dos grandes problemas é que quase tudo provém de material virgem. As seis maiores empresas do ramo usam em média apenas 6.6% de plástico PET reciclado em seus produtos, sem metas de aumento dessa porcentagem. De acordo com a Federação Britânica de Plásticos, a produção de garrafas com 100% de material reciclado economiza 75% de energia comparada à fabricação de garrafas com matéria-prima virgem.


Praia com lixo plástico em Gana. Fonte: Christian Thompson/EPA/The Guardian

Na natureza, especialmente nos oceanos onde vai parar a maior parte, a garrafa plástica pode levar até 450 anos para se decompor, sendo que sua decomposição significa que ela vai se desintegrar em milhões de micropartículas de plástico. Essas partículas já foram encontradas em sal marinho no Reino Unido, França, Espanha, China e Estados Unidos, onde a Universidade do Estado de Nova York em Fredonia e a Universidade de Minnesota realizaram uma pesquisa, liderada pela professora Sherri Ann Mason. Foram analisados 12 tipos de sal, incluindo 10 marinhos, comprados em lojas estadunidenses ao redor do mundo. Ela descobriu que cidadãos dos EUA poderiam estar ingerindo cerca de 660 partículas de plástico por ano, se consumidas as 2.3g de sal recomendadas por dia. Níveis detectáveis de bisfenol-A, um composto do policarbonato, foram encontrados na urina de 95% dos adultos daquele país.

Em um estudo espanhol, os pesquisadores encontraram plástico em todas as 21 amostras de sal de cozinha testadas. O tipo mais comum de plástico identificado foi o PET (polietileno tereftalato). Outro grupo de cientistas da França, Reino Unido e Malásia encontrou micropartículas de plástico em 16 de 17 amostras de sal de oito países e a maioria era de polietileno e polipropileno. A primeira dessas pesquisas foi realizada na China, em 2015, e encontrou microplásticos provenientes de esfoliantes, cosméticos e garrafas em 15 amostras de sal vendido no país. Mason disse que espera que essas pesquisas não façam as pessoas simplesmente trocarem a marca do sal que usam:

"As pessoas querem se desconectar e dizer: ‘Está tudo bem se eu for ao Starbucks todos os dias e pegar uma xícara de café descartável’. Nós temos que nos concentrar no fluxo de plástico e na onipresença dos plásticos em nossa sociedade e encontrar outros materiais para usar em vez dele."

A ubiquidade dos plásticos nos atinge num aspecto extremamente sensível e diário: o consumo de água. Uma pesquisa exclusiva feita pela Orb Media em parceria com a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Minnesota revelou a presença de fibras de plástico em 83% das amostras de água da torneira coletadas nos cinco continentes, de Nova York a Nova Déli. A maior taxa de contaminação foi nos Estados Unidos, onde encontraram fibras plásticas em 94% das 33 amostras coletadas em lugares como os prédios do congresso, da Agência de Proteção Ambiental e na Trump Tower. No Líbano, foram 16 amostras, com a mesma porcentagem de contaminação. Em seguida vem a Índia, com 82% das 17 amostraram contaminadas e Uganda, com 81% das 26 coletas. Na Indonésia, 76% das 21 amostras tinham microplásticos e no Equador, 75% de 24. Por fim ficou a Europa, com 72% das 18 amostras contaminadas. O número médio de fibras encontradas em cada uma das amostras de 500 ml variou de 1.9 na Europa a 4.8 nos EUA. A Folha participou deste levantamento e enviou ao laboratório da faculdade 10 amostras coletadas em São Paulo, em uma torneira de cozinha na região oeste, torneiras de banheiro do Parque Ibirapuera e do MASP. Nove apresentaram fibras.


Fibras de plástico na água em Nova Déli, Índia. Fonte: OrbMedia.

Da água para a cerveja é um pulinho. Um estudo alemão encontrou fibras e fragmentos plásticos em todas as 24 amostras de marcas de cerveja testadas. Ainda na Alemanha, e também na França, Itália, Espanha e México, todas as 19 amostras de mel analisadas tinham fibras e fragmentos plásticos. Esta mesma pesquisa também coletou amostras de cinco marcas de açúcar refinado e (adivinha!) todas tinham plástico. Outra fonte de microplásticos é o ar que respiramos. Pesquisadores franceses descobriram, em 2015, que Paris é recoberta com de três a 10 toneladas de fibras todos os anos, que vão parar, inclusive, dentro de casa. O mesmo estudo também identificou a presença de plástico no esgoto e em água doce, como a do Rio Sena.

Uma das fontes da emissão de fibras plásticas no ar é o desgaste de pneus e marcações rodoviárias. Outra fonte muito significativa são as roupas sintéticas, que liberam até 700 mil fibras por lavagem na tubulação. Elas vão parar nos rios e oceanos quando não são retidas na estação de tratamento de água. Nos Estados Unidos, 29 toneladas, cerca de metade do que sai dos encanamentos, vai parar nas vias fluviais todo santo dia. Quando secadas na máquina, as fibras também são liberadas, indo parar geralmente no ar.

Um dos perigos do plástico é que ele tem afinidade química com contaminantes presentes no ambiente, como pesticidas e metais, explica Felipe Gusmão, oceanógrafo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Santos. Assim, quando ingeridos por seres vivos os microplásticos liberam as toxinas no organismo. Um estudo da universidade comprovou que os contaminantes liberados pelos microplásticos são tóxicos para larvas de mexilhões. Richard Thompson, professor na Universidade de Plymouth, disse que “ficou claro desde cedo que o plástico liberaria esses produtos químicos e que, de fato, as condições do intestino facilitariam uma liberação bem rápida”. Na sua pesquisa, ele encontrou plástico em um terço dos peixes no Reino Unido, entre eles bacalhau, arinca e cavalinha, além de mariscos.

Essas pesquisas evidenciam não só problemas ambientais, mas sociais e econômicos. O lixo é uma invenção nossa. A espécie humana é a única que produz materiais que não podem ser aproveitados por outros seres e nem compostados na natureza. Essa situação provoca doenças, poluição, degradação de ecossistemas, esgotamento de bens naturais, morte de milhões de animais e perdas de bilhões de reais por ano. Essa situação reflete a desconexão das pessoas com a natureza; evidencia os efeitos dos modos de produção e consumo lineares, de estilos de vida e de padrões de sociedades pautados no imediatismo, no individualismo, na ganância e na ilusão de felicidade e bem-estar a distância de um cartão de crédito.


Fonte: UniPlanet

A problemática dos resíduos sólidos está no mesmo patamar de gravidade das mudanças climáticas, segundo ativistas. Num planeta vivo, constituído por uma teia de vidas, todos os problemas socioambientais estão interligados e se afetam mutuamente, criando uma crise global e profunda. “Mas não é possível que vivamos para perpetuar os problemas no mundo, tem que haver mais do que viver para ganhar uns trocados.” Economia e ecologia estão intrinsecamente ligadas, porque as duas são sobre casa (eco, do grego oikos, significa casa). Nossa grande casa comum. Economia quer dizer administrar a casa, cuidar de tudo que aqui existe para que continue existindo. Vamos combinar que, de forma geral, não é isso que estamos fazendo. Como disse Margaret Atwood neste artigo, precisamos de uma absoluta Reforma dos Plásticos.

Ele sugere a utilização de substitutos orgânicos e biodegradáveis para realizar as tarefas hoje feitas por plásticos, inventar métodos para filtrar e retirar os plásticos dos rios e mares e recolhê-los antes de chegarem aos oceanos. Mas, antes disso, precisamos mudar a maneira como enxergamos e nos relacionamos com o material. Na teoria, todos os tipos de plástico podem ser reciclados, mas alguns são mais difíceis e, portanto, não tem viabilidade econômica. A questão financeira é importante, visto que é uma das bases da maioria das sociedades. Cerca de 400 garrafas plásticas são vendidas por segundo no Reino Unido e metade é reciclada. Na Alemanha, onde as pessoas são reembolsadas ao devolver as garrafas, o índice de reciclagem vai a 98%.

Ao mesmo tempo em que veneramos o plástico por sua versatilidade e durabilidade, tratamos o material com descaso quando o taxamos de descartável e o utilizamos dessa forma. Qual é a lógica de retirar petróleo do subsolo, gastar bilhões de reais em processos e mão-de-obra, investir tempo, usar e poluir bens naturais para produzir coisas que vão ser subaproveitadas e enterradas (quando não largadas por aí), onde ficarão centenas de anos poluindo? É da nossa casa que estamos falando. É o planeta onde vivemos que estamos destruindo. Mas não precisa ser assim. Ou melhor, não pode ser assim. Que saibamos usar nossa racionalidade, consciência, habilidades e bons sentimentos para a prosperidade de todos e compreender o que de fato significa viver no planeta Terra.


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