O que fazer com roupas velhas ou que não servem? Use a Caixa Solidária!

Por Letícia Maria Klein •
03 setembro 2019
Mateus Rossi decidiu resolver um problema social e ambiental ao mesmo tempo. Em viagem à Itália há mais de seis anos, ele se deparou com um equipamento, numa esquina, onde as pessoas podiam depositar roupas para doação e reciclagem. Ele ficou interessado e foi pesquisar mais sobre o assunto. Aquela caixa era uma iniciativa da Caritas Itália, onde ele acabou indo trabalhar como voluntário para entender o processo de coleta, triagem e destinação das doações. Depois de viajar para outros países e conhecer outros projetos parecidos, em 2015 ele trouxe a ideia para o Brasil, começando na cidade dele, Criciúma.

Hoje, a Caixa Solidária está em 22 cidades catarinenses com 72 equipamentos. Dois deles estão em Blumenau até a metade de setembro. É um teste para avaliar a futura construção de uma central aqui na cidade (Joinville, Itajaí, São José e Florianópolis também receberam caixas para teste). Conversei com o Mateus sobre o projeto e ele disse que o teste está sendo positivo aqui em Blumenau; as pessoas aderiram mesmo e o volume de doações é grande. 

Além de roupas e calçados, também podem ser doados cobertores, brinquedos, fraldas, produtos de higiene pessoal e alimentos não perecíveis. Agora... sabe aquelas roupas velhas, rasgadas, que nem para pano de chão dá mais? Pode colocar também! Cerca de 50% dos itens doados não têm condições de reutilização, então são encaminhados para indústrias de reciclagem de fibras têxteis naturais e sintéticas em São Paulo. 

Caixa Solidária no Giassi
Caixa Solidária no Giassi
Depois de passar pela triagem, as roupas em bom estado são enviadas a instituições assistenciais, à defesa civil e a famílias cadastradas no sistema social do município, conforme a necessidade. Uma parte das roupas é revendida no bazar solidário, e o valor adquirido é enviado às instituições beneficiadas para que possam comprar o que precisam, sejam materiais escolares, de manutenção e construção, alimentos etc. 

Para a região sul do estado, onde o projeto nasceu, a meta é colocar mais 70 caixas até outubro e outras 70 até dezembro. Para 2020, estão previstas 280 caixas na região de Florianópolis. A última etapa é chegar ao norte do estado em 2021, totalizando mil caixas em Santa Catarina. A não ser que haja investimentos e parcerias da indústria privada antes disso. (Alguém da indústria têxtil lendo isso aqui? Olha a oportunidade!)

Hoje, o negócio social coleta 20 toneladas de roupas por mês no sul de SC, mas tem capacidade para atender todos os 45 municípios daquela região, que geram muito mais resíduos têxteis do que isso. Só em Criciúma, são 280 toneladas de roupas descartadas todos os meses, o que responde por 6,7% do lixo gerado na cidade. Em Florianópolis, são 700 toneladas por mês, pouco menos de 5%. Aliás, essa é a média brasileira: 5% dos resíduos sólidos produzidos por uma pessoa são peças de vestuário.

Os resíduos têxteis viajam pela cidade, como diz Mateus, e o descarte acaba sendo maior nas periferias. Devido a campanhas de agasalho, algumas cidades recebem um excedente de donativos, o que aumenta o descarte. Na serra catarinense, tem cidades em que as roupas representam 17% do lixo!

Campanha da Caixa Solidária
Campanha da Caixa Solidária. É só depositar a sacola de roupas no
espaço indicado e levantar a alavanca, que é o quadrado vermelho.
Para conseguir atender toda a população, Mateus prevê que haja uma Caixa Solidária para cada cinco mil pessoas no estado. Esse é um número bom. Em Roma, há 1.800 equipamentos, sendo um para cada 1.200 pessoas! Os projetos Planet Aid e USAgain tem 19 mil e 14 mil caixas espalhadas pelos Estados Unidos, respectivamente (lá, a indústria da reciclagem têxtil é bem desenvolvida, pois as fibras são reutilizadas como isolamento térmico em paredes). Para que todos tenham acesso ao projeto, os equipamentos ficam em supermercados ou locais públicos (mediante autorização da prefeitura). 

De dezembro de 2015, quando a ideia foi implantada, até o fim de 2018, mais de 50 mil pessoas foram beneficiadas diretamente com mais de 100 toneladas de donativos. O bazar vendeu mais de 40 mil itens, e cerca de 35 toneladas de tecidos foram encaminhadas para reciclagem têxtil. Além disso, a reutilização e a reciclagem significaram uma redução na emissão de 360 toneladas de gás carbônico, economia de 600 milhões de litros de água e a não utilização de 30 toneladas de fertilizantes e 20 toneladas de pesticidas. 

Mateus quer que todos os estados brasileiros tenham Caixas Solidárias. Cidades no RS, PR, SP, além de Salvador e Brasília já entraram em contato. “A demanda existe. Agora estamos montando uma forma de investimento para financiar a implantação do projeto”. Para buscar mais conhecimento e tecnologia, Mateus viajará para Portugal ainda neste ano para conhecer uma empresa que opera no país inteiro, com mais de três mil caixas, em um processo industrial. Só de triagem, são 35 toneladas por dia. 

Além de expandir gradativamente o alcance da Caixa Solidária, a Eco Group, que é a empresa do Mateus responsável pela gestão dos equipamentos, já tem um segundo projeto engatilhado: a Eco Box, uma caixa específica para resíduos sólidos, que deve ser disponibilizada para condomínios. Os estudos já começaram. 

Campanha da Caixa Solidária
Campanha da Caixa Solidária. Mateus disse que as doações aumentaram 50% depois da campanha
Se você não tem acesso a esse projeto, pode tentar contatar empresas de reciclagem têxtil, iniciativas de reutilização de roupas para confecção de peças novas ou mesmo reutilizar as suas peças em casa. Algumas ideias são usar camisetas velhas como panos de chão ou transformá-las em sacolas; estofar almofadas com roupas de baixo e meias rasgadas ou customizar peças. 

Eventualmente, porém, você precisará descartar tecidos. Vá guardando numa caixinha na sua casa até conseguir contato com alguma empresa de reciclagem para enviar a remessa ou esperar que a Caixa Solidária ou outro projeto semelhante chegue até a sua região. Ou você pode abrir o seu próprio negócio de upcycle ou reciclagem de roupas. De qualquer forma, o ideal é garantir que as peças sejam reutilizadas, doadas e recicladas, assim a gente fecha o ciclo da indústria têxtil e nenhum item vai parar no aterro sanitário nem no lixão nem no rio nem em qualquer outro lugar onde não deveria. 

Aiai, fiquei até emocionada... Tem um lencinho? De pano, né, o negócio aqui é lixo zero. 

Um ecobeijo e até breve. 

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