Um mundo de plástico (e como estamos sendo dominados por ele)

Por Letícia Maria Klein •
16 novembro 2017
O plástico está em todo lugar: da escova de dente à geladeira, do carro ao avião, das nossas roupas sintéticas ao oceano, do plâncton a nós mesmos. Sim, é verdade. O plástico já conseguiu entrar nos nossos corpos. Pesquisas recentes encontraram micropartículas de plástico nos peixes, no sal marinho, na água da torneira, na cerveja, no mel e no açúcar. Nos rios e mares, o lixo plástico vai se desintegrando e as partículas minúsculas vão sendo ingeridas pelos animais, do plâncton à baleia. Cientistas da Universidade de Ghent, na Bélgica, calcularam que as pessoas que comem frutos do mar ingerem até 11 mil micropartículas de plástico por ano!

Ainda não se sabe o efeito disso no corpo humano. Nos oceanos, por outro lado, os efeitos são visíveis, contabilizáveis e catastróficos. Até 12,7 milhões de toneladas de plástico todos os anos, o equivalente a um caminhão de lixo por minuto de acordo com as Nações Unidas, somando-se as 150 milhões de toneladas que atualmente circulam nos ambientes marinhos. Incluem-se aí sacolas, escovas de dente, embalagens, garrafas, copos, canudos e muitos outros itens de plástico que compõem 90% do lixo presente lá. Se esse cenário persistir, estima-se que em 2050 haja mais plástico do que peixe nos oceanos, de acordo com pesquisa da Fundação Ellen MacArthur. Isso pode representar a morte dos oceanos e, consequentemente, de pessoas. Um dos motivos seria a deficiência de oxigênio, pois as cianobactérias (também conhecidas como algas azuis) produzem de 60% a 80% do oxigênio que nós respiramos. Nós e outros milhares de espécies.


Microplástico dentro de um plâncton. Fonte: Corin Liddle/OrbMedia

Futuro assustador, não? A realidade já é bastante assustadora, principalmente se vamos aos números da poluição por plástico. Desde o início de sua produção industrial em 1950 até 2015, já foram produzidas 8,3 bilhões de toneladas de plástico, das quais 80% estão em aterros sanitários ou espalhadas pelo mundo, poluindo ambientes naturais e construídos. A quantidade produzida desde 2000 se equipara ao total das cinco décadas anteriores. Todo ano a produção aumenta quase 300 milhões de toneladas, sendo que 40% são usados apenas uma vez e descartados e 9% são reciclados. As garrafas plásticas representam uma grande parte desse montante. As pessoas compram um milhão delas por minuto ao redor do mundo, chegando ao total de 480 bilhões de garrafas vendidas em 2016. Se empilhadas, passariam da metade da distância até o sol. A previsão é que esse número aumente 20% até 2021, totalizando 583,3 bilhões por ano, e quadruplique até 2050!

A maioria das garrafas plásticas é usada para consumo de água e as maiores marcas de bebidas respondem por números astronômicos. A Coca-Cola produz mais de um bilhão por ano, o que dá 3.400 por segundo, conforme uma análise feita pelo Greenpeace. Um dos grandes problemas é que quase tudo provém de material virgem. As seis maiores empresas do ramo usam em média apenas 6.6% de plástico PET reciclado em seus produtos, sem metas de aumento dessa porcentagem. De acordo com a Federação Britânica de Plásticos, a produção de garrafas com 100% de material reciclado economiza 75% de energia comparada à fabricação de garrafas com matéria-prima virgem.


Praia com lixo plástico em Gana. Fonte: Christian Thompson/EPA/The Guardian

Na natureza, especialmente nos oceanos onde vai parar a maior parte, a garrafa plástica pode levar até 450 anos para se decompor, sendo que sua decomposição significa que ela vai se desintegrar em milhões de micropartículas de plástico. Essas partículas já foram encontradas em sal marinho no Reino Unido, França, Espanha, China e Estados Unidos, onde a Universidade do Estado de Nova York em Fredonia e a Universidade de Minnesota realizaram uma pesquisa, liderada pela professora Sherri Ann Mason. Foram analisados 12 tipos de sal, incluindo 10 marinhos, comprados em lojas estadunidenses ao redor do mundo. Ela descobriu que cidadãos dos EUA poderiam estar ingerindo cerca de 660 partículas de plástico por ano, se consumidas as 2.3g de sal recomendadas por dia. Níveis detectáveis de bisfenol-A, um composto do policarbonato, foram encontrados na urina de 95% dos adultos daquele país.

Em um estudo espanhol, os pesquisadores encontraram plástico em todas as 21 amostras de sal de cozinha testadas. O tipo mais comum de plástico identificado foi o PET (polietileno tereftalato). Outro grupo de cientistas da França, Reino Unido e Malásia encontrou micropartículas de plástico em 16 de 17 amostras de sal de oito países e a maioria era de polietileno e polipropileno. A primeira dessas pesquisas foi realizada na China, em 2015, e encontrou microplásticos provenientes de esfoliantes, cosméticos e garrafas em 15 amostras de sal vendido no país. Mason disse que espera que essas pesquisas não façam as pessoas simplesmente trocarem a marca do sal que usam:

"As pessoas querem se desconectar e dizer: ‘Está tudo bem se eu for ao Starbucks todos os dias e pegar uma xícara de café descartável’. Nós temos que nos concentrar no fluxo de plástico e na onipresença dos plásticos em nossa sociedade e encontrar outros materiais para usar em vez dele."

A ubiquidade dos plásticos nos atinge num aspecto extremamente sensível e diário: o consumo de águaUma pesquisa exclusiva feita pela Orb Media em parceria com a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Minnesota revelou a presença de fibras de plástico em 83% das amostras de água da torneira coletadas nos cinco continentes, de Nova York a Nova Déli. A maior taxa de contaminação foi nos Estados Unidos, onde encontraram fibras plásticas em 94% das 33 amostras coletadas em lugares como os prédios do congresso, da Agência de Proteção Ambiental e na Trump Tower. No Líbano, foram 16 amostras, com a mesma porcentagem de contaminação. Em seguida vem a Índia, com 82% das 17 amostraram contaminadas e Uganda, com 81% das 26 coletas. Na Indonésia, 76% das 21 amostras tinham microplásticos e no Equador, 75% de 24. Por fim ficou a Europa, com 72% das 18 amostras contaminadas. O número médio de fibras encontradas em cada uma das amostras de 500 ml variou de 1.9 na Europa a 4.8 nos EUA. A Folha de S. Paulo participou deste levantamento e enviou ao laboratório da faculdade 10 amostras coletadas em São Paulo, em uma torneira de cozinha na região oeste, torneiras de banheiro do Parque Ibirapuera e do MASP. Nove apresentaram fibras.


Fibras de plástico na água em Nova Déli, Índia. Fonte: OrbMedia.

Da água para a cerveja é um pulinho. Um estudo alemão encontrou fibras e fragmentos plásticos em todas as 24 amostras de marcas de cerveja testadas. Ainda na Alemanha, e também na França, Itália, Espanha e México, todas as 19 amostras de mel analisadas tinham fibras e fragmentos plásticos. Esta mesma pesquisa também coletou amostras de cinco marcas de açúcar refinado e (adivinha!) todas tinham plástico. Outra fonte de microplásticos é o ar que respiramos. Pesquisadores franceses descobriram, em 2015, que Paris é recoberta com de três a 10 toneladas de fibras plásticas todos os anos, que vão parar, inclusive, dentro de casa. O mesmo estudo também identificou a presença de plástico no esgoto e em água doce, como a do Rio Sena.

Uma das fontes da emissão de fibras plásticas no ar é o desgaste de pneus e marcações rodoviárias. Outra fonte muito significativa são as roupas sintéticas, que liberam até 700 mil fibras por lavagem na tubulação. Elas vão parar nos rios e oceanos quando não são retidas na estação de tratamento de água. Nos Estados Unidos, 29 toneladas, cerca de metade do que sai dos encanamentos, vai parar nas vias fluviais todo santo dia. Quando secadas na máquina, as fibras também são liberadas, indo parar geralmente no ar.

Um dos perigos do plástico é que ele tem afinidade química com contaminantes presentes no ambiente, como pesticidas e metais, explica Felipe Gusmão, oceanógrafo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Santos. Assim, quando ingeridos por seres vivos os microplásticos liberam as toxinas no organismo. Um estudo da universidade comprovou que os contaminantes liberados pelos microplásticos são tóxicos para larvas de mexilhões. Richard Thompson, professor na Universidade de Plymouth, disse que “ficou claro desde cedo que o plástico liberaria esses produtos químicos e que, de fato, as condições do intestino facilitariam uma liberação bem rápida”. Na sua pesquisa, ele encontrou plástico em um terço dos peixes no Reino Unido, entre eles bacalhau, arinca e cavalinha, além de mariscos.

Essas pesquisas evidenciam não só problemas ambientais, mas sociais e econômicos. O lixo é uma invenção nossa. A espécie humana é a única que produz materiais que não podem ser aproveitados por outros seres e nem compostados na natureza. Essa situação provoca doenças, poluição, degradação de ecossistemas, esgotamento de bens naturais, morte de milhões de animais e perdas de bilhões de reais por ano. Essa situação reflete a desconexão das pessoas com a natureza; evidencia os efeitos dos modos de produção e consumo lineares, de estilos de vida e de padrões de sociedades pautados no imediatismo, no individualismo, na ganância e na ilusão de felicidade e bem-estar a distância de um cartão de crédito.


Fonte: UniPlanet

A problemática dos resíduos sólidos está no mesmo patamar de gravidade das mudanças climáticas, segundo ativistas. Num planeta vivo, constituído por uma teia de vidas, todos os problemas socioambientais estão interligados e se afetam mutuamente, criando uma crise global e profunda. “Mas não é possível que vivamos para perpetuar os problemas no mundo, tem que haver mais do que viver para ganhar uns trocados.” Economia e ecologia estão intrinsecamente ligadas, porque as duas são sobre casa (eco, do grego oikos, significa casa). Nossa grande casa comum. Economia quer dizer administrar a casa, cuidar de tudo que aqui existe para que continue existindo. Vamos combinar que, de forma geral, não é isso que estamos fazendo. Como disse Margaret Atwood neste artigo, precisamos de uma absoluta Reforma dos Plásticos.

Ele sugere a utilização de substitutos orgânicos e biodegradáveis para realizar as tarefas hoje feitas por plásticos, inventar métodos para filtrar e retirar os plásticos dos rios e mares e recolhê-los antes de chegarem aos oceanos. Mas, antes disso, precisamos mudar a maneira como enxergamos e nos relacionamos com o material. Na teoria, todos os tipos de plástico podem ser reciclados, mas alguns são mais difíceis e, portanto, não tem viabilidade econômica. A questão financeira é importante, visto que é uma das bases da maioria das sociedades. Cerca de 400 garrafas plásticas são vendidas por segundo no Reino Unido e metade é reciclada. Na Alemanha, onde as pessoas são reembolsadas ao devolver as garrafas, o índice de reciclagem vai a 98%.

Ao mesmo tempo em que veneramos o plástico por sua versatilidade e durabilidade, tratamos o material com descaso quando o taxamos de descartável e o utilizamos dessa forma. Qual é a lógica de retirar petróleo do subsolo, gastar bilhões de reais em processos e mão-de-obra, investir tempo, usar e poluir bens naturais para produzir coisas que vão ser subaproveitadas e enterradas (quando não largadas por aí), onde ficarão centenas de anos poluindo? É da nossa casa que estamos falando. É o planeta onde vivemos que estamos destruindo. Mas não precisa ser assim. Ou melhor, não pode ser assim. Que saibamos usar nossa racionalidade, consciência, habilidades e bons sentimentos para a prosperidade de todos e compreender o que de fato significa viver no planeta Terra.


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Como você escolhe mudar o mundo?

Por Letícia Maria Klein •
09 novembro 2017
Esta pergunta estava na apresentação da Larissa Kroeff no IV Encontro Internacional Juventude Lixo Zero, que aconteceu de 20 a 22 de outubro. Neste último post sobre o evento (aqui estão o primeiro e o segundo), vou transmitir as mensagens inspiradoras de algumas pessoas igualmente inspiradoras que palestraram no encontro. Para começar, como você escolhe mudar o mundo?

Thaianna Cardoso começou cedo no movimento jovem a se engajar em causas socioambientais. Hoje ela é engenheira sanitarista e ambiental e acredita que a sustentabilidade precisa ser amorosa e praticada coletivamente, pois não se faz quase nada sozinho. “Vivemos em coletividade, mas não conseguimos ser cidadãos.” Por isso é fundamental refletirmos e agirmos em prol do bem de todos os que habitam o planeta Terra.



Quem compartilha dessa ideia é Tia Kansara, que aplica o conceito Replenish Earth (reabastecer a Terra) no seu trabalho de consultoria para governos, empresas e indivíduos que querem beneficiar o mundo. O site de Tia informa que “reabastecer é a medida do serviço do ecossistema de um indivíduo para a natureza. Uma pesquisa sobre reabastecer fornecerá uma medida per capita para mudar radicalmente nossa percepção de uso de recursos, impactando positivamente o meio ambiente à medida que os cidadãos tomam passos pequenos e gerenciáveis para reduzir seu impacto negativo na Terra”.

Apesar de sermos natureza, diz Tia, achamos difícil traduzir isso para as nossas vidas [por causa da visão fragmentada de mundo ditada pela ciência ocidental por séculos]. Você pode esperar pela mudança ou pode ser a mudança. Precisamos agir como um ecossistema, com consciência de que somos integrantes da teia da vida e de que tudo o que fazemos tem consequências. Nós somos e existimos sempre em relação com o meio e com os outros. Ninguém é nem existe por si próprio, como um fim em si mesmo, mas como fruto das relações e dos contextos que vive a cada dia.



Disse Tia: pense de forma diferente. O que você sabe e conhece te serve ou não? O que você faz ou pretende fazer com isso? Qual é o momento da sua vida em que é você que escolhe? Os valores fundamentais são um manifesto pessoal que te guia, são a base do seu trabalho. Se você vive de acordo com seus valores, você é feliz. Não é sobre fazer as coisas da forma certa, mas fazer a coisa certa. O que pode te ajudar nisso é o questionamento criativo. Já ouviu falar dele?

Tia disse que se você tiver o hábito de se fazer perguntas complexas, durante cinco minutos do seu dia, você estimula a consciência reflexiva e a criatividade [além de ser uma forma bem interessante de autoconhecimento e aprimoramento]. Ela também passou outro exercício para ser feito todos os dias, por no mínimo duas semanas. É composto de seis passos e muito bom (experimentamos na palestra e já fiz algumas vezes em casa). Anote aí:

  1. Respire em três partes (abdômen, peito e garganta). A inspiração começa no abdômen, depois enche o peito e sobe para a garganta; a expiração vai seguir o caminho reverso. Você pode sentar no chão com as pernas cruzadas (em posição de meditação) e apoiar as mãos nos joelhos. Na primeira respiração, una a ponta do polegar com a ponta do indicador, formando um O. Na segunda respiração, você une o polegar ao dedo médio. Assim sucessivamente até ter feito oito respirações (duas vezes os quatro dedos).

  2. Expire com um “hum”. Faça as oito respirações novamente, unindo os dedos como antes, mas na hora de expirar você vai fazer o som de “hum” até o ar acabar.

  3. Expire com um “aham”, que significa “eu estou aqui”. Repita as oito respirações, unindo os dedos como antes, mas na hora de expirar você vai falar “aham”.

  4. Aos extremos da sua respiração. Agora faça as respirações como no item 1, prestando atenção ao momento de transição do inspirar para o expirar e vice-versa.

  5. Manifeste hoje. Visualize o que você quer que aconteça na sua vida (pode ser desde algo simples do dia a dia até um sonho para o futuro) e sinta todas as emoções e sentimentos que você vai sentir quando conseguir realizar o que quer.

  6. Envolva-se em proteção. Visualize-se envolto em proteção e sinta-se protegido.

A apresentação de Guto de Lima foi, no mínimo, inesperada. Até dançamos! Ele é daquelas pessoas que você quer abraçar e que te faz sentir bem, sabe? Ele começou seu momento tocando um instrumento musical e seguiu dizendo que precisamos ver a Terra como nossa mãe e cuidarmos dela como cuidamos da nossa mãe biológica. Precisamos dar de volta para a Terra, retribuir. Para estarmos prontos para isso, primeiro precisamos dar a nós mesmos. Com isso ele quis dizer que precisamos começar em casa, agradecendo diariamente aos nossos pais ou outros familiares com quem moramos, manter nossa casa limpa e bem cuidada, cuidar de nós mesmos. Além disso, é fundamental ter coerência entre suas atitudes e seus valores. “Não precisamos de drama, precisamos de amor, amar a nós mesmos como estamos hoje e aos outros como estão”. Na hora das perguntas, um amigo meu perguntou como foi que Guto chegou até este momento com o seu jeito tão alto astral e do bem. Guto respondeu dizendo que se o meu amigo sentia isso, é porque ele tinha nele mesmo também. Reconhecer, ele disse, é um jogo de espelho: admiramos no outro o que admiramos em nós mesmos e só reconhecemos no outro o que temos em nós mesmos. Por fim, uma pergunta bem interessante que ele fez como comentário a outra indagação da plateia: quando o agora passa?

Já passou?



Na verdade, o agora não passa nunca, pois sempre vivemos o agora.

Por falar em agora, seguem as dicas de Marcus Nakagawa, que falou sobre empreendedorismo social e como começar o seu negócio que vai melhorar o mundo. Para saber qual é, você precisa se perguntar: qual problema do mundo você quer resolver?
“Podemos fazer mais do que o “eu”, do que apenas trabalhar para pagar contas. Não é possível que gastemos nosso tempo para perpetuar os problemas do mundo. Tem uma coisa muito maior do que simplesmente ganhar uns trocados.” Além da motivação social, é preciso gerar valor agregado e financeiro, pois na vida real, como ele disse, “sem dinheiro não funciona, não dá para conversar”.

Um negócio social é movido por uma missão de impacto social, oferecendo serviços e produtos e tendo um retorno em lucro. Hoje, no Brasil, uma empresa social precisa ter CNPJ de empresa ou de associação. Ainda não existe CNPJ próprio de empresa social, mas a questão está em tramitação. Para quem quer começar, Marcus indicou algumas instituições que auxiliam negócios sociais: Ashoka Brasil, ABRAPS, Yunus, ICE, Artemisia, NESsT, VOX, Brasil27 e Pipe Social.

Partindo para a prática, aqui estão os passos para começar uma empresa social:

  1. Pesquise, busque informações, veja se já existe algum negócio similar.

  2. Veja o modelo que melhor se aplica ao que você quer (empresa, associação etc) e estude como vai prestar o serviço/produto.

  3. Conheça os personagens dos seus sonhos trabalhando numa empresa social ou organização não governamental por um tempo.

  4. Faça um bom planejamento de ações e um planejamento financeiro.

  5. Vá fazendo e testando, não espere ter tudo pronto para começar.

  6. Tenha suas contas pagas. Para isso estabeleça o mínimo que precisa por mês e comece a partir disso. Você pode vender coisas que possui para investir em você mesmo e te manter enquanto monta seu negócio.

  7. Tenha foco.



Para terminar, uma das conclusões a que cheguei depois de participar do encontro é que falar de lixo zero é falar da raiz dos problemas socioambientais, pois os resíduos refletem os modos de produção, de consumo e os estilos de vida vigentes no mundo todo e afetam milhares de espécies, interferindo em toda a teia da vida do planeta. O lixo é um problema global gerado pela humanidade, estranho à natureza, e ignorá-lo não vai fazer com que seja resolvido. Bem pelo contrário, vai agravá-lo até os danos serem irreversíveis. Por isso precisamos agir pra ontem e fazer absolutamente tudo que estiver ao nosso alcance em prol da vida no planeta. Então, como você escolhe mudar o mundo?
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Como as pessoas estão mudando o mundo com o lixo zero

Por Letícia Maria Klein •
02 novembro 2017
Neste segundo post sobre o que rolou no IV Encontro Internacional Juventude Lixo Zero, de 20 a 22 de outubro, você vai conhecer pessoas que foram ao evento para compartilhar seus estilos de vida e trabalho em prol de um mundo sem desperdício (no primeiro, vimos o panorama dos resíduos no mundo). Sem delongas, deixe-se inspirar por estes exemplos!

Já pensou entrar em um supermercado e pegar tudo o que precisa, mas pagar somente se puder? Este mercado existe, fica na Austrália e foi idealizado por Ronni Khan depois de mais de uma década trabalhando para evitar o desperdício de comida. Ronni é empreendedora social da OzHarvest, presente hoje em 15 cidades do mundo, cuja missão é resgatar comida boa que seria desperdiçada para alimentar pessoas com fome. A iniciativa surgiu quando Ronni, que tinha uma empresa de eventos, percebeu a quantidade de comida que não era consumida. Na Austrália, o desperdício de comida equivale à perda de 20 bilhões de dólares por ano.



Ela começou a distribuir as sobras dos seus eventos para pessoas necessitadas e desde então o negócio só cresceu, resgatando alimentos em perfeitas condições que estabelecimentos e restaurantes iriam descartar. Depois de 13 anos de atividade, a OzHarvest possui 50 veículos que entregam comida que iria para aterros sanitários a mais de mil instituições. A quantidade de comida resgatada é tão grande que Ronni investiu no OzHarvest Market, em que as pessoas pegam o que precisam, mas pagam se puderem e o quanto quiserem. Cada dólar doado é revertido em duas refeições para pessoas necessitadas. Além de resgatar comida, a empresa investe em educação, engajamento e inovação, ensinando pessoas em situação vulnerável e trabalhando pela redução do desperdício. Outra realização da empresa é o evento Pense. Coma. Poupe., que acontece em várias cidades do mundo todos os anos e reúne pessoas para um almoço grátis a partir de alimentos resgatados. Lindo, né?!

"O desperdício de meio hambúrguer equivale
à água utilizada num banho de 60 minutos"
Outro empreendimento relacionado à alimentação é a Maria Granel, primeira loja de produtos orgânicos a granel e lixo zero de Portugal, em Lisboa. A idealizadora e proprietária Eunice Maia pesquisou e estudou durante dois anos para buscar fornecedores de produtos orgânicos, sempre privilegiando a qualidade. Quando começou sua pesquisa, os dados de 2013 mostraram que cada habitante português produziu 440 kg de resíduos naquele ano, dos quais 13% foram reciclados ou compostados, 24% foram incinerados e 50% foram aterrados. Para combater tanto desperdício e prestar uma homenagem às suas origens de ter sido criada em fazenda, ela abriu a loja, onde uma boa equipe multidisciplinar vende apenas produtos sem embalagens e cultivados sem agrotóxicos e outros químicos e tem muitas opções vegetarianas e veganas. Assim, desde a sua abertura em novembro de 2015, a Maria Granel trabalha com o conceito BOYC (bring your own container): traga seu próprio recipiente. As pessoas levam seus próprios sacos ou potes e levam apenas o que precisam, o que estimula o consumo consciente de alimentos e não gera desperdício de embalagens. Para os que não levam os seus próprios, a loja disponibiliza sacos de pano, de papel e frascos de vidro.



Também são vendidos produtos ecológicos (como copo de bambu orgânico) e são feitas campanhas de épocas festivas baseadas no lixo zero (como os Miminhos de Natal). Para aplicar o conceito lixo zero de uma ponta a outra da cadeia, Eunice combinou com os fornecedores a entrega dos produtos em sacos de 25 kg, que são reutilizados para outras coisas, indo parar até em brincadeira de corrida com saco em escolas, onde a Maria Granel está presente com projetos de educação ambiental e sensibilização. Outras práticas incluem a nota fiscal digital, o programa Z(h)ero (brincadeira com hero e zero), consultoria e nutricionista presente na loja para atender gratuitamente. Todas as quintas acontecem as Quintas da Maria, dia em que a loja é reconfigurada e recebe uma grande mesa para ofertar oficinas, workshops, aulas culinárias, degustações, conversas, apresentações e lançamento de livros sobre sustentabilidade e alimentação saudável, conceitos são fundamentais neste local que é muito mais do que uma loja, é um ideal de vida. Muito, mas muito amor!



De volta ao Brasil, onde as lojas de produtos a granel estão crescendo, encontramos outra linha de produtos sustentáveis. Pensando nos 720 milhões de copos descartáveis que são (adivinha!) descartados todos os dias no Brasil, sendo que apenas 16% são reciclados, Larissa Kroeff resgatou a prática dos copos reutilizáveis para eventos. Esta ideia existe na Alemanha há quase 30 anos. Ela fundou a empresa Meu Copo Eco, que vende ou empresta em sistema consignado copos reutilizáveis, produzidos em plástico PP (polipropileno), que podem ser personalizados para cada evento. A ideia é disponibilizar os copos para as pessoas participantes por meio do conceito calção: a pessoa paga R$ 5,00 pelo copo, utiliza durante todo o evento e se não quiser levar para casa, devolve o copo e pega o dinheiro de volta. A iniciativa é louvável pelo fato de fazer as pessoas pensarem sobre o desperdício e o impacto negativo dos descartáveis ao mesmo tempo em que ajuda um evento a reduzir a quantidade de resíduos. Mas tem um lado ruim, que é o uso do plástico como matéria-prima, um bem natural não renovável e com uma pegada ecológica imensa. Então, mantenha sempre por perto seu copo retrátil, garrafa durável ou canequinha para usar quando quiser e precisar.



Ações como essa fazem parte do dia a dia de Nicole Berndt, florianopolitana que compartilha sua rotina lixo zero no blog Casa Sem Lixo. Ela, o marido e os dois filhos foram matéria numa emissora de TV local, que mostrou Nicole levando seus potes e sacos ecológicos para as compras a granel e fazendo sua própria pasta de dente. Nicole lembra que como consumidor, nós temos poder e precisamos usá-lo para contribuir com indústrias e empresas na redução da quantidade de resíduos que produzem. Não basta ter consciência, como disse alguém durante o evento, é preciso pedir infraestrutura sustentável às empresas.

Eduarda Jaeger teve um desafio grande em relação a isso. Autora do blog Cuidando do Meio Ambiente, ela falou da sua rotina lixo zero e como foi sua experiência relacionada aos resíduos durante os dois anos em que frequentou a faculdade nos Estados Unidos, onde se viu com o desafio de despertar nos colegas a preocupação com os resíduos. Como na escola não havia coleta de materiais recicláveis, ela guardava as garrafas de plástico usadas embaixo da cama, que eram eventualmente levadas a um centro de reciclagem na cidade.

Eduarda (esquerda) e Nicole

Quem também tem uma vida lixo zero é Lívia Humaire, que compartilha suas experiências no blog Jornada Lixo Zero. Para ela, lixo é um erro de design. Uma boa forma de evitá-lo é buscar soluções localmente (como lojas de produto a granel, por exemplo). Lívia ficou conhecida por planejar e fazer uma festa de aniversário lixo zero para sua filha Iuna, de nove anos, que também se envolveu na proposta. Aliás, foi Iuna que despertou Lívia para a questão dos resíduos, percebendo a quantidade que foi gerada quando a família se mudou de casa, em São Paulo. Lívia contou como foi preparar a festa, qual o resultado e mostrou algumas receitas que faz no dia a dia, de vinagre a pasta de dente. Ela também mencionou o Projeto Fruta Feia, realizado por uma cooperativa em Portugal que objetiva vende frutas e hortaliças “feias” com o objetivo de alterar padrões de consumo, gerar valor para os agricultores e consumidores e combater tanto o desperdício alimentar como o gasto desnecessário dos bens utilizados na produção.

Outra criança preocupada com o nosso planeta é Johann Neves, um pequeno ambientalista e escritor. No vídeo que enviou para ser transmitido no evento, ele mostrou como é a separação dos resíduos em sua casa e outras atitudes sustentáveis que tem no dia a dia. Johann é brasileiro, mas mora na Holanda com a família. Tem apenas 11 anos e é colunista jovem do site Green Nation.



Saindo do âmbito doméstico, vamos falar de negócios. Nara Guichon é estilista e trabalha há 30 anos com moda sustentável. Ela falou sobre o problema dos nanoplásticos, que são um dos fatores de poluição dos oceanos. Como eu contei neste post, toda vez que uma peça de roupa sintética é lavada na máquina, ela solta partículas de plástico que não são retidas na Estação de Tratamento de Água e seguem para os corpos hídricos, somando-se às sopas de plásticos nos oceanos. Por isso, Nara diz que precisamos repensar tudo que consumimos, pois estamos consumindo inconsequentemente. A indústria da moda emprega 1/6 da população mundial e é a segunda que mais polui (a primeira é do petróleo). São utilizados mais de oito mil produtos químicos e 1/3 do que é produzido vira lixo antes de chegar às lojas! Os documentários China Blue e True Cost falam sobre esses e outros impactos da indústria. Para combater isso, a moda precisa ser sustentável. Isso quer dizer que ela precisa ser atemporal (não ditada pelas estações do ano, sem data de validade), respeitar todas as formas de vida e oferecer trabalho digno para os colaboradores.

Nara

Outra percepção que precisamos mudar, diz Nara, é a de preço versus valor. Temos uma noção distorcida do que é caro e barato, devido à externalização de custos que as indústrias praticam para que o consumidor pague um preço baixo – só que desta forma, quem paga os custos reais de produção de qualquer coisa são o ambiente, as formas de vida afetadas nos processos e os trabalhadores. No seu ateliê, Nara trabalha com tecidos naturais (como linho e cânhamo, que são inclusive mais sustentáveis que o algodão) e materiais de reuso como redes de pesca, que são frequentemente deixados nas praias e matam milhões de animais marinhos a cada ano. Para estampar, ela usa a técnica ecoprint de tingimento vegetal, com coloração extraída de flores e plantas. Depois de Nara, quem falou foi Natália Fernandes, que enquanto formanda do curso de Design de Moda, desenvolveu um trabalho de transformação de redes de pesca em capas de prancha.

Natália

Foram apresentados ainda dois projetos desenvolvidos em Florianópolis. Um deles é o Projeto Lixo Zero no Colégio de Aplicação da UFSC em 2014 e 2015 e na Escola Básica Donícia Maria da Costa desde 2016. Quem apresentou o projeto foram Isabela Tsutiya Andrade e Marília Schmitz, acadêmicas do curso de Engenharia Sanitária e Ambiental e educadoras do Núcleo de Educação Ambiental (NEAmb) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O projeto inclui a sensibilização quanto à temática dos resíduos sólidos na escola, a criação de um grupo coletivo lixo zero com estudantes, a preparação de atividades com esse grupo e o desafio lixo zero.

O outro projeto apresentado foi o da Coleta Seletiva Solidária na UFSC. A coleta foi implantada em junho de 2017 e tem coletores para recicláveis e rejeitos. O objetivo do projeto é consolidar a coleta por meio da sensibilização, orientação, capacitação e mobilização da comunidade universitária, além de apoiar a inclusão social, econômica e tecnológica dos catadores de materiais recicláveis.

Por fim, para incentivar as pessoas a reaproveitarem seus resíduos orgânicos, teve uma oficina de compostagem, em que Maria Gabriela Knapp, da empresa Brotei, ensinou como manter um minhocário em casa ou apartamento. Uma dica é prestar atenção no chorume (subproduto da decomposição dos orgânicos, pois 70% deles é água), porque se ele tiver cheiro é sinal de desequilíbrio nas caixas digestoras (onde as minhocas fazem a decomposição dos alimentos). Uma forma de equilibrar é evitar cozidos com sal e colocar bem pouco os cozidos sem sal (o ideal é consumir tudo o que for cozido). O importante é equilibrar o nitrogênio (orgânicos) com o carbono (elemento seco como folhas, palha e serragem). Outra dica é revirar os orgânicos já presentes na caixa antes de acrescentar para acelerar o processo de compostagem, pois isso oxigena a mistura. Durante a oficina, ela também passou outras informações bem interessantes sobre compostagem, como a do processo que utiliza a mosca soldado na fase larval no lugar da minhoca californiana, pois ela decompõe os alimentos na proporção de quatro vezes o seu próprio peso por dia, enquanto que a minhoca decompõe o dobro do seu próprio peso. Quanto à caixa, existe a opção de fazer o minhocário em caixas de feira forradas com vidro. No Peru, estão sendo produzidos minhocários de barro. A Brotei é uma empresa de Florianópolis que faz a gestão de resíduos orgânicos compostáveis com serviços de coleta seletiva de orgânicos, composteiras e hortas para escritórios, condomínios e residências.

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