Práticas cruéis – Parte 1

Por Letícia Maria Klein •
09 novembro 2015

Uma das características que distingue a espécie Homo sapiens dos outros seres vivos da Terra é a racionalidade. Um ser racional, segundo o dicionário Houaiss, é aquele que demonstra bom senso. Por sua vez, humano é quem mostra piedade, indulgência, compaixão. É surpreendente como estes significados podem ser tão verdadeiros em relação a uma parte da humanidade e tão mentirosos quanto à outra parte. Quando se fala em animais, temos, por um lado, pessoas humanas trabalhando ativamente na luta pelo bem-estar e conservação de espécies. Por outro, existem pessoas desumanas criando e promovendo práticas cruéis com outras espécies para inflar o ego e satisfazer a vaidade de sociedades fundamentadas no antropocentrismo, no individualismo e no dinheiro. Neste primeiro post da série sobre práticas cruéis, vou mostrar algumas atrocidades cometidas contra animais para que as “demandas” das populações humanas sejam atendidas e as “tradições culturais” sejam mantidas. 

Farra do boi

Trazida para o Brasil por portugueses, há cerca de 200 anos, a farra do boi é uma prática popular em Santa Catarina, principalmente na região litorânea, realizada na época da Páscoa. O animal é isolado e preso, sendo privado de comida e bebida durante os dias anteriores à “festa”. Quando é solto, pessoas o perseguem pelas ruas segurando pedaços de pau, pedras, chicotes, facas, cordas e lanças para ferir o boi. As crueldades incluem cortar o rabo do bichinho, quebrar suas patas e chifres, jogar pimenta nos olhos ou mesmo arrancá-los, introduzir um pedaço de madeira ou vidro no ânus e até queimá-lo vivo! Desesperado, o animal tenta fugir para o rio ou mar, onde acaba morrendo afogado. Quando não é este o cenário, os farristas prolongam o martírio do animal por dias a fio, até matá-lo, finalizando a farra com a divisão da carne e um churrasco. 


Graças à Lei Federal 9.605/1998, de crimes ambientais, e ao Recurso Extraordinário número 153.531-8/SC; RT 753/101, que proibiu a farra do boi em território catarinense, por força de acórdão do Supremo Tribunal Federal, na Ação Civil Pública de nº 023.89.030082-0, os criminosos podem pegar até um ano de prisão. Como sabemos, nem todos cumprem a lei e ainda são registrados casos de farra do boi no Estado. Em 2014, foram 65!

Tourada

Esta prática é comum na Espanha, México, Peru e Colômbia, principalmente. É muito antiga, datada do século 3 a.C., quando havia caçadas a touros. O formato atual foi adotado no fim do século 18 e só na Espanha são mais de 550 arenas! O pior de tudo, legalizadas e aplaudidas por milhares de pessoas. A prática consiste num enfrentamento entre toureiro e touro, em que o animal acaba morto depois de várias estocadas de lança e um golpe final de espada. O “espetáculo” dura cerca de meia hora e, depois, a carne do boi é vendida a açougues locais. Apesar de popular, cada vez mais cidades e estados estão proibindo o ato, como a região da Catalunha, na Espanha.


Também em arenas acontecem a vaquejada e o rodeio, no Brasil. A vaquejada é comum no Nordeste e gera muita polêmica, sendo legalizada em alguns lugares, como Paraíba, e proibida em outros, como Fortaleza. Nesta atividade, considerada esportiva, dois vaqueiros a cavalo têm de alinhar um boi até emparelhá-lo entre os cavalos e conduzi-lo a um ponto demarcado na arena, onde o animal deve ser derrubado. O boi sofre fraturas na queda e muitas vezes têm o rabo arrancado.

Matança de focas 

O governo do Canadá autoriza e subsidia o massacre de centenas de milhares de focas todos os anos, na costa oeste, durante a primavera no hemisfério norte. Em 2015, a cota foi de quase 470 mil, sendo que entre 95% e 98% são bebês de até três meses de vida, que são os mais visados por causa da pelagem branca, que é destinada à indústria da moda. As focas são caçadas por sua pele e carne, de maneira bruta e cruel. Algumas morrem com tiro de rifle na cabeça e a maioria é espancada até a morte com o hakapik, um martelo com um gancho na ponta usado para bater na cabeça do animal. A lei diz que os caçadores devem se certificar de que a foca está morta antes de retirar a pele, mas análises mostraram que 40% delas são escalpeladas ainda vivas! Os Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia boicotam produtos provenientes da matança das focas e a Noruega deixou de subsidiar o setor a partir de 2015, o que deve contribuir para o fim da caça. 




Finning 

O finning, junto com a pesca de espinhel e a “prática esportiva”, é responsável pela morte agonizante de 150 milhões de tubarões todos os anos, tendo reduzido as populações de algumas espécies em 90%. Os tubarões são caçados por suas barbatanas, dentes, mandíbulas, pele, cartilagem e óleo de fígado. No finning, os tubarões são pescados, têm suas barbatanas cortadas e são jogados de volta ao mar, ainda vivos (!!!), morrendo afogados ou devorados por predadores. As barbatanas são utilizadas para fazer sopa em restaurantes asiáticos. Ai, que indigestão.


Puxada de cavalo

É uma corrida, em que cavalos emparelhados puxam carretas sem rodas levando sacos de areia que pesam entre 1 mil e 2,5 mil kg, por uma pista de lama de 24 metros. O sofrimento dos animais começa bem antes da prova, quando são “treinados” para que se tornem “competitivos”, sendo surrados e ameaçados. O esforço físico deles provoca exaustão e destruição da estrutura muscular, insuficiência renal e sofrimento orgânico, que pode acabar em morte. 


A competição acontece em cidades catarinenses do Médio Vale do Itajaí, como Pomerode e Benedito Novo. Em 2010, manifestantes de ONG contrários à puxada se manifestaram e foram agredidos violentamente por praticantes e simpatizantes. Em 2013, a justiça proibiu a puxada de cavalos em Pomerode a pedido do Ministério Público. No dia 14 de outubro de 2015, finalmente, a Assembleia Legislativa aprovou, por unanimidade, um projeto de lei que proíbe a prática no Estado. Falta apenas a sansão do governador.

Produção industrial de animais 

Há alguns dias aconteceu uma manifestação aqui em Blumenau contra o patê de foie gras, contribuindo para a aprovação do projeto de lei complementar 1469/2015, que proíbe a produção e comércio do foie gras no município. Esta “iguaria”, como é referenciada, significa fígado gordo, em francês, e é feita a partir da alimentação forçada de patos e gansos. 



Os animais são alimentados contra a vontade através de um tubo enfiado em suas gargantas, entre a 10ª e a 14ª semanas de vida, quando recebem de 400 a 900 gramas de alimento, de duas a três vezes por dia. Depois do fígado expandir significativamente e atingir 60% de gordura, os animais são mortos. O vídeo abaixo foi divulgado com a campanha blumenauense e tem passagens que são de chorar.


A indústria de produção de alimentos, nos setores de produção de carnes, ovos, leite e derivados, é cruel com diversos animais. No caso da produção industrial de ovos, também chamada de convencional, por exemplos, a noção de bem-estar animal é bem distorcida. A União Brasileira de Avicultura criou um protocolo de bem-estar para aves poedeiras (sem força de lei), que indica um espaço, dentro de gaiolas, de 375cm² por ave para aves brancas e 450cm² para aves vermelhas. 


O primeiro é mais ou menos um quadrado de 18 por 20, menor que uma folha A4, como a jornalista Francine Lima esclarece neste vídeo. Num espaço assim, é óbvio que as galinhas ficam estressadas (ou por acaso é legal pegar ônibus lotado na hora do rush?) e quando isso acontece, elas brigam entre si. Para evitar isso, os produtores cortam os bicos, dedos e crista dos animais! Se este protocolo considera bem-estar, imagina o que seria mal-estar.

Tráfico de animais silvestres

O tráfico de animais silvestres está entre as atividades comerciais ilícitas mais praticadas no mundo, depois do tráfico de armas e drogas, tendo movimentado mais de R$ 7 bilhões no Brasil nos últimos 10 anos. As aves respondem por 80% dos animais capturados, sendo 90% devido ao seu canto. Nove em cada 10 também é o número de animais silvestres traficados que morrem antes de chegar ao destino. De 2004 a 2014, foram quase 6 milhões de aves comercializadas no país, o que significa que cerca de 60 milhões foram capturadas. 



Estas são apenas algumas das práticas cruéis com animais. Existem outras como o festival de Gadhimai (realizado a cada cinco anos no Nepal, foi banido após a última edição em 2014), rinhas de galo e cães, carnificina de golfinhos em Taiji/Japão, fábricas de filhotes (mais neste post), testes de laboratório em animais (também tem post), fazenda de criação de animais para extração de peles e assassinato de elefantes e rinocerontes pelo marfim. Devem haver outros, tamanha a criatividade maligna de seres desumanos. Estas informações nos tiram da nossa zona de conforto e causam mal-estar, indignação, revolta, choro. Mas conhecimento é poder, saber nos faz refletir e a reflexão é o primeiro passo para a ação. No próximo post, veremos o que está sendo feito em defesa dos animais e como cada um de nós pode ajudar.

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