Walden ou A vida nos bosques – Resenha

Por Letícia Maria Klein •
27 outubro 2015

Henry David Thoreau foi um homem ousado e autêntico. Enquanto todos ao seu redor seguiam o fluxo do comercialismo e industrialismo crescentes dos Estados Unidos, glorificando o dinheiro e o status, ele deu meia volta e foi a para a mata, glorificar a vida. Seus escritos influenciaram personalidades como Gandhi e Martin Luther King e libertaram milhares do consumismo, do modelo de crescimento que depreda o ambiente, de uma vida de aparências e títulos vazios, fortificando o caminho para o minimalismo, a vida simples e cheia de significado. “Walden ou A Vida Nos Bosques” é o relato pessoal do tempo em que Thoreau viveu sozinho no meio da floresta, na casa que ele mesmo construiu e se alimentando não só do que plantava, mas também da essência da vida. 


Em julho de 1845, Thoreau foi para as matas do lago Walden, onde havia começado a construir sua casa em março daquele ano. Ele tinha 28 anos e muita sede de viver, de fato, como ele mesmo afirma nesta passagem: 

“Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido” (p. 95).

No livro, Thoreau descreve e explica tudo: o porquê da decisão de passar um tempo isolado da sociedade capitalista, como construiu a casa, com que dinheiro e recursos, sua dieta, sua rotina, por que deixou o lago e voltou para Concord (Massachussets). Observador contumaz, descrevia as belezas naturais e as espécies com uma sensibilidade tocante, muitas vezes criando metáforas e associações com situações humanas. Ele tinha o dom da palavra, escrevia versos poéticos e prosas melodiosas com maestria, brincando com os vocábulos, tanto seus significados quanto suas formas. 

Foi poeta, ensaísta, filósofo transcendentalista, escritor, carpinteiro, “puro e franco”, nas palavras de seu conterrâneo Ralph Waldo Emerson, que no discurso fúnebre quando da morte de Thoreau, disse que este “decidiu ser rico diminuindo suas necessidades e atendendo pessoalmente a elas”. De fato, conseguiu. 

“Estou convencido, por fé e pela experiência, que se sustentar nesta terra não é um sofrimento e sim um passamento, se vivermos com simplicidade e sabedoria” (p. 77).

Henry David Thoreau 

Também foi polêmico, contestador, revolucionário, reacionário, contrário às estruturas sociais e econômicas que priorizavam o status e o lucro em detrimento da natureza. Crítico ferrenho da sociedade capitalista, que valora tudo e todos e não valoriza a vida. Tido por muitos como misantropo, era rígido com a própria espécie, mas não sem razão, como provavelmente acreditava. Para Thoreau, não faltavam motivos para contrariar e ironizar as situações que viveu e as circunstâncias que o cercavam. 

“A Natureza não tem habitante humano que a aprecie. As aves com suas plumagens e melodias estão em harmonia com as flores, mas qual o rapaz ou moça que está em consonância com a beleza agreste e luxuriante da Natureza? Ela mais floresce sozinha, longe das cidades onde residem. E falais dos céus! Vós desgraçais a terra” (p. 193).

Ao viver sozinho por dois anos, dois meses e dois dias às margens do Lago Walden, Thoreau se mostrou um aventureiro de uma terra só, ávido por experiências viscerais. Um sonhador sensato, um pensador que parte para a ação. Um verdadeiro amante e apreciador da natureza. Consumidor de carne intermitente, reconhecia a validade e os benefícios de uma dieta vegetariana, ironizando, por vezes, o assunto: 

“Um agricultor me diz: ‘Você não pode viver só de vegetais, pois eles não fornecem nada para os ossos’; e assim ele dedica religiosamente uma parte do dia a suprir seu sistema com a matéria-prima dos ossos; e, enquanto fala, vai andando atrás de seus bois que, com ossos feitos de vegetais, vão avançando e puxando aos trancos o homem e o pessoa do arado, passando por cima de qualquer obstáculo” (p. 23).

Ele colocava muitos conceitos em perspectiva, propondo reflexões tão ou até mais atuais do que quando foram escritas. Sobre o conceito de espaço, por exemplo:

“Muitas vezes me dizem: 'Imagino que você se sentia solitário lá embaixo, e queria estar mais perto das pessoas, principalmente nos dias e noites de chuva e neve'. Fico com vontade de responder: esta terra inteira que habitamos é um ponto no espaço. a que distância você acha que moram os dois habitantes mais afastados daquela estrada acolá, cujo diâmetro nossos instrumentos não conseguem calcular? Por que eu me sentiria sozinho? Nosso planeta não fica na Via Láctea? O que você está me colocando não parece a questão mais importante. Qual é o tipo de espaço que separa um homem de seus semelhantes e o faz solitário? Descobri que nem o maior esforço das pernas consegue aproximar dois espíritos" (p. 132).

Cabana construída por Thoreau

Sobre a ideia e o real significado do conforto:

“Uma noite, alcancei um de meus concidadãos, que tinha acumulado o que se chama de “bela propriedade” na estrada de Walden, levando duas cabeças de gado para o mercado, o qual me perguntou como eu podia renunciar a tantos confortos da vida. Respondi que tinha plena certeza de gostar bastante da vida que levava; e não estava brincando. E então fui para casa me deitar, e deixei o sujeito escolhendo cuidadosamente onde pisaria na escuridão e na lama até Brighton, aonde só chegaria em alguma hora da manhã seguinte" (p. 133).

Sobre o lago Walden, mas na verdade, sobre espiritualidade:

“Um campo de água revela o espírito que está no ar. Do alto recebe continuamente nova vida e novo movimento. É, em sua natureza, o intermediário entre o céu e a terra. ... admirável que possamos olhar sua superfície do alto. Algum dia, quem sabe, olharemos do alto a superfície do ar, e veremos por onde a percorre um espírito ainda mais sutil” (p. 183).

Sobre a importância de cuidar de si, corpo, mente e espírito:

“Todo homem é o construtor de um templo, chamado corpo, dedicado ao deus que ele cultua, num estilo puramente seu, e não pode se desobrigar apenas malhando mármore. Somos todos escultores e pintores, e nosso material é nossa própria carne, nosso sangue e nossos ossos. Toda nobreza logo começa a refinar os traços de um homem; toda mesquinharia ou sensualidade, a embrutecê-los” (p. 213).

Sobre a fragilidade das construções e entidades humanas:

“Vocês podem derreter seus metais e despejá-los nos moldes mais belos que tiverem; eles nunca me empolgarão como as formas em que se derrama essa terra derretida. E não só ela, mas as instituições sobre ela são maleáveis como a argila nas mãos do oleiro” (p. 293).

Os móveis utilizados pelo autor 

Sobre os conceitos de pobreza e riqueza.

“Por mais mesquinha que seja sua vida, aceite-a e viva-a [...] ela não é tão ruim quanto você. Ela parece tanto mais pobre quanto mais rico você é. Quem vê defeito em tudo verá defeitos até no paraíso. [...] As coisas não mudam, mudamos nós. [...] A humildade, tal como a escuridão, revela as luzes celestiais. [...] se você está tolhido em seu nível por causa da pobreza, [...] está apenas confinado às experiências mais significativas e vitais; vê-se obrigado a lidar com o material que rende mais açúcar e amido. É a vida perto do osso a mais doce. Você não corre o risco de ser frívolo. Ninguém jamais perde num nível inferior por sua magnanimidade num nível superior. A riqueza supérflua só pode comprar supérfluos. Não é preciso dinheiro para comprar o necessário à alma” (p. 309). 

Sobre o aprendizado constante, mais facilmente e agradavelmente absorvido para quem está disposto a aprender:

“A luz que extingue nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos despertos. O dia não cessa de amanhecer. O sol é apenas uma estrela da manhã” (p. 314).

Penso que se mudar para a mata para viver deliberadamente seja uma daquelas experiências que nos faz despertar para a verdadeira essência existencial, para os valores morais estruturantes e para as prioridades que orientam o ser humano para uma vida de amor, caridade e paz. Por fim, uma reflexão de Thoreau que cai como uma luva nos tempos que vivemos, de excessos e vazios:

"Que importância têm as coisas que você pode esquecer? Um pequeno pensamento é o sacristão de todo o mundo” (p. 335).

Nada como a luta contra si mesmo para o autodesenvolvimento.

“Dirige teu olhar para dentro de ti,
E mil regiões encontrarás ali,
Ainda ignotas. Percorre tal via
E mestre serás em tua cosmografia” (p. 302).

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