O que você quer de Natal? Uma vida minimalista, por favor

Por Letícia Maria Klein •
05 dezembro 2013

Você provavelmente já está ouvindo ou mesmo fazendo essa pergunta. Sempre queremos algo, né. Um livro, uma roupa, um objeto decorativo, um utensílio doméstico. Mas realmente precisamos? Outra coisa: precisamos mesmo dar presentes em datas comemorativas? Por que temos que dar presente no Natal, na Páscoa, no dia das mães, dos pais, dos namorados, das crianças? Bom, como o ditado diz que “as melhores coisas da vida são de graça”, acho que a resposta é não, não precisamos. As datas existem para simbolizar e nos fazer refletir sobre a vida, relacionamentos, sentimentos, comportamentos. Elas servem para nos aproximar uns dos outros e penso que devem ser comemoradas pelo seu significado e as oportunidades que nos proporcionam. Mas parece que cada vez mais o simbolismo está perdendo força e espaço para o comércio, que instiga as pessoas a comprarem coisas que não são necessárias. É um exemplo perfeito de consumismo, aquele consumo exagerado e sem propósito. Totalmente insustentável. Prefiro a prática do presente espontâneo, que a pessoa dá quando quer ou vê que o outro precisa e não porque há uma convenção social incentivando-a a comprar. O Natal, por exemplo, é uma época mágica e o maior presente é poder vivê-lo com quem se ama. Menos pacotes e papéis de presente, mais amor, união e paz, novos hábitos para uma vida mais simples


Vida simples, consumo mínimo, simplicidade voluntária, minimalismo. Vários nomes para uma mesma ideia: viver com menos é melhor, mais saudável, satisfatório e sustentável. A corrente do minimalismo prega uma vida com menos objetos e menos posses, mesmo que você tenha muito dinheiro. O objetivo, como os nomes dizem, é ter o mínimo, somente o que é realmente necessário, para ter uma vida mais simples, com menos preocupações e sem aquela pressão horrível da sociedade e dos meios de comunicação para que tenhamos carro, o celular mais moderno, a casa na praia ou no campo, a última moda no guarda-roupa. Pare e pense: você precisa mesmo de tudo que compra ou ganha, de tudo que tem em casa? Tenho quase certeza que a resposta é não. Às vezes compramos no impulso ou porque achamos que precisamos, sem pensar seriamente antes. Ou ganhamos muitas vezes coisas que não queremos, não precisamos ou nem mesmo gostamos, em todas aquelas datas comemorativas em que o comércio adora te empurrar alguma coisa pra dar pra alguém. 

A questão não é deixar de comprar, até porque não dá, afinal, precisamos comer, nos vestir, assim por diante. A questão é consumir conscientemente, e isso significa consumir menos. Pensar na real necessidade do objeto para a sua vida ou para a vida de outra pessoa que você quer presentear. Desde coisas menores, como roupas e calçados, a maiores, como automóveis. O trânsito é um bom exemplo de como podemos nos tornar reféns do nosso querer, de vontades e desejos. Será que vale a pena me estressar e perder tempo no trânsito só para ter o carro próprio ou economizo tempo, me sinto melhor e ajudo o meio ambiente andando de transporte público ou bicicleta? 

Carros são alvos do chargista Andy Singer. 
Veja outras charges dele neste post

Ter uma vida simples também significa desapegar, dar menos valor às coisas materiais, se desfazer do que você tem e não usa mais. Outras pessoas podem estar precisando de verdade. Eu sempre penso assim: se não usei nos últimos dois anos, vou doar. Se você não sabe para quem doar, existe um site legal onde pode doar objetos que não quer ou não usa mais: o Doabox. Foi uma dica da Marina Viana, do blog Um Ano Sem Compras. Ela deu uma entrevista muito interessante para o Sustenta Ações sobre a experiência que teve e como sua vida mudou. Hoje ela leva uma vida simples e mais feliz. 

Outra imensa vantagem, e consequência, do consumo mínimo é a sustentabilidade. Ao consumir menos coisas materiais – comprar menos roupas, calçados, maquiagem, acessórios, objetos em geral, utilizar transporte público ou bicicleta, evitar embalagens e sacolas plásticas, etc – poupamos também água, energia e matéria-prima que são utilizadas aos montes na confecção e uso de tudo isso ali em cima e muito mais, além de contribuir na luta contra o aquecimento global (Sabia que um carro abastecido com gasolina levando uma pessoa emite até 45 vezes mais gás carbônico por quilômetro do que ônibus ou metrô?). 

A história do minimalismo é bem antiga, como conta esta matéria da revista Planeta sobre o tema. Surgiu na Grécia Antiga em 400 a.C. com o filósofo Diógenes, o cínico. Ele defendia uma vida sem luxos e andava pelas ruas com uma lamparina, dizendo estar procurando um homem honesto. Muito tempo depois, no século XII, a vida simples foi vivida por São Francisco de Assis, santo católico. Ele renunciou a todos os bens materiais, pois acreditava na humildade como virtude. Quem continuou com o ideal foi o escritor estadunidense Henry David Thoreau, que morou dois anos em uma cabana na floresta e depois relatou a experiência no livro Walden: ou a Vida nos Bosques. Mais pertinho de hoje, em 1960, surgiram os hippies com um movimento cultural que pregava o amor e o fim das guerras. Como alternativa ao consumismo, usavam roupas despojadas e comiam alimentos orgânicos. Em 1990 surgiu a simplicidade voluntária, corrente que prega uma vida mais simples, mesmo quando se tem dinheiro. Henry Thoreau foi um dos inspiradores dessa corrente.

Réplica da casa de Thoreau em Walden Pond, 
próximo ao local da casa original

Desapegar, consumir menos, ter menos objetos e posses, ser sustentável são coisas que não se aprende da noite para o dia. Por isso, minimalismo, vida simples, simplicidade voluntária são estilos de vida, modos de ser que você incorpora e acredita. É muito mais do que os hábitos de doar, de pensar antes de comprar ou de reduzir, reciclar e reutilizar. É ver a vida e o mundo com outros olhos. É viver de dentro pra fora, buscando ser melhor a cada dia, ajudar os outros, pensar nos outros, preservar o planeta, descobrir o que te faz bem e feliz, focar no ser e não no ter, dar mais valor às pessoas e menos aos objetos, se libertar dos excessos que nos prendem a uma vida de máscaras, aparências, status, pesos que não precisamos carregar. Com menos coisas, objetos, estresse, preocupações, sobra mais espaço para ser feliz e aproveitar um presente que a vida nos dá todo dia: oportunidades. De amar, desenvolver-se, aprender, conhecer, compartilhar, buscar aquilo que vai te ensinar o sentido da palavra plenitude

Eu escolhi as datas comemorativas como gancho para falar sobre minimalismo porque, comercialmente falando, elas são um dos símbolos do consumismo, prática totalmente contrária à do estilo de vida simples. O Natal é uma das datas que mais tem apelo comercial, com aquela imagem tão propagada pelo comércio e pela mídia de pessoas trocando vários presentes perto da árvore natalina. (A imagem de dezenas de pessoas se esbarrando nas lojas, nos corredores e nas calçadas eles não mostram, né. Aliás, tá aí outra parte boa de não dar presentes em datas comemorativas: você evita o aglomero de gente). 

Então, neste Natal, que tal fazer diferente? Que tal repensar os hábitos de consumo e comportamento para uma vida mais simples? Desfazer-se dos excessos e dos desnecessários para um novo ano, recomeçar com novos hábitos, celebrar o que realmente importa na vida: a própria vida e nossos relacionamentos com quem amamos. Não precisa de presentes materiais, apenas presentes do coração. 


Eu desejo a você um Natal de muita luz, paz, união, amor e aquela sensação gostosa de compartilhar momentos felizes com quem amamos. A propósito, deixa eu perguntar de novo: o que você quer de Natal? 

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