Por que o slow food deve estar na sua mesa

Por Letícia Maria Klein •
03 agosto 2013

Nas cidades grandes o ritmo é acelerado. O tic-tac do relógio está sempre te lembrando de alguma coisa pra fazer. Trabalho, escola, faculdade, cursinho, creche, academia, cada atividade calculada com muito carinho para caber nas 24 horas do dia. E se o dia tivesse mais horas, a gente já ia arranjar alguma outra coisa pra colocar no meio, não é mesmo? Com tanta coisa pra fazer, a gente liga o piloto automático e vai. Uma beleza, né. Ahn, só uma coisinha: como anda nossa qualidade de vida no meio disso tudo? De vez em quando ela fica de lado, fala a verdade. Com a vida a todo vapor, acabamos nos esquecendo dela vez ou outra. Mas um certo italiano não esqueceu. 

Foi pensando na qualidade de vida dos seus cidadãos que Paolo Saturnini, prefeito da pequena cidade de Greve in Chianti, na região italiana da Toscana, procurava uma solução pra uma questão presente em todas as comunidades: como uma cidade pode se desenvolver sem prejudicar a qualidade de vida de seus habitantes? Isto foi em 1999. Hoje, 176 cidades em 27 países seguem o que Paolo criou lá atrás, o Movimento Cittaslow. Misturando italiano com inglês, o termo designa cidades que não querem virar grandes centros e não colocam o crescimento a qualquer custo em primeiro lugar. Elas estão preocupadas mesmo é com a qualidade de vida de seus habitantes. E pra garantir isso, elas criam projetos que promovem e cuidam da cultura e gastronomia locais, que usam novas tecnologias, que aproveitam e otimizam o território, e, claro, que preservam o meio ambiente


Deixa eu citar alguns exemplos pra ficar mais claro como funciona uma cittaslow, em português, cidade lenta. Em entrevista ao site Envolverde, Paolo, que hoje é presidente honorário e presidente do Conselho Garantidor de Qualidade da organização, falou bastante sobre o movimento. Ele citou alguns exemplos de como Greve in Chianti mantém a qualidade de seus cidadãos. A cidade adotou um novo plano diretor que limita a construção de novos prédios. A prioridade é aproveitar áreas e construções que já existem. Até os hotéis, pois é uma cidade que recebe muitos turistas, são criados em prédios existentes. 

A agricultura local é bem forte, “associando a qualidade e a origem de alimentos produzidos localmente à educação, educação alimentar e educação ambiental, incentivando o uso de merendas ligadas ao território e à cultura”, explica Paolo. Outro exemplo são as vinícolas, onde são adotadas novas técnicas que respeitam o solo e a paisagem. Como diz Paolo, a cidade lenta combate os geradores da má qualidade de vida, que muitos de nós conhecemos bem: estresse, pressa, perda de referências e pressão que temos de valores que não são naturais. 

Ficou com vontade de conhecer uma cittaslow? Confira a lista aqui. Mas para visitar uma vai ser preciso viajar ao exterior. O Brasil ainda não tem uma. Segundo o repórter que entrevistou Paolo, a cidade de Tiradentes, em Minas Gerais, começou um processo para se associar ao movimento, mas ele foi interrompido. Paolo acha que será retomado, vamos ver. Para se associar ao Movimento Cittaslow, não basta só preencher uma fichinha de inscrição. 

A cidade paga 600 euros, é visitada por auditores e precisa fazer uma reunião com outras três cidades já associadas. Depois, o município deve aceitar os termos dos Estatutos da organização e se comprometer com políticas públicas que ajudem a desenvolver um ambiente onde os objetivos do movimento possam ser atingidos. Política de planejamento para melhorar o território, política ambiental para recuperação e reciclagem de resíduos, avanços tecnológicos para melhorar a qualidade ambiental e de áreas urbanas, produção de alimentos a partir de métodos naturais e ecológicos, preservação das tradições locais, políticas e serviços públicos de defesa de grupos excluídos, convivência harmoniosa entre habitantes e turistas e educação para os dois sobre o que significa viver em uma sociedade lenta. 

Cidade de Greve in Chianti, na região de Toscana, Itália

A lista das cidades ainda é pequena, pouco menos de 180 cidades no mundo todo. Para ser uma cittaslow, o município deve ter, no máximo, 50 mil habitantes – a cidade italiana que fundou o movimento, por exemplo, tem cerca de 15 mil. Isto porque o movimento é mais adequado a cidades pequenas, para evitar que elas cometam os mesmos erros das cidades que cresceram sem controle e sem infraestrutura necessária. Como diz Paolo, “cidades pequenas devem preservar, cidades grandes precisam revolucionar – e não sabem como”. É possível que esse limite seja revisto conforme o movimento cresça. 

O Brasil pode não ter nenhuma cittaslow, mas tem outros movimentos que são similares, como o Transition Towns e o Cidades Sustentáveis, do qual Blumenau faz parte. Inclusive já falei sobre ele aqui no blog. Outro movimento que nasceu da mesma concepção do Cittaslow, de proteger o meio ambiente e manter a qualidade dos produtos locais, é o Slow Food. Na verdade, o Slow Food serviu de inspiração para a criação do Movimento Cittaslow. 

Ele surgiu em 1989 como uma resposta à onda de fast food, ao ritmo agitado da sociedade atual, ao desaparecimento da culinária local, ao desinteresse das pessoas na própria alimentação, em saber de onde vêm os alimentos e em como as nossas escolhas alimentares podem afetar o planeta. Hoje são mais de 100 mil associados. No Brasil, o Slow Food está presente desde 2004. O site do movimento é rico em informações e mostra todas as comunidades brasileiras que têm atividades ou projetos do Slow Food, como os Convivia, as Fortalezas, a Arca e Terra Madre. Vale a leitura. Aqui em Blumenau tem uma comunidade, estou curiosa para visitar! E neste movimento, você, pessoa física, pode se associar.


Independentemente do movimento, todos têm em comum a preocupação com a sustentabilidade e a qualidade de vida. Eles querem que a gente se alimente melhor, tenha mais saúde e se preocupe com o meio ambiente e os bens naturais, pois deles dependemos totalmente. Não sei você, mas me deu uma vontade de passar uma temporada numa dessas pequenas cidades lentas e apreciar a vida que, na correria do dia a dia, muitas vezes nem vemos passar!

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