Descartável e indestrutível: o poder e o impacto do plástico no mundo | Resenha do documentário Um oceano de plástico

Por Letícia Maria Klein •
20 agosto 2018
A baleia-azul é o maior animal do mundo, com até 30 metros de comprimento e 180 toneladas. Navegando no Oceano Índico, perto do Sri Lanka, a equipe liderada pela especialista em cetáceos Lindsay Porter espera ver a baleia-azul verdadeira e a pigmeu, que é um pouco menor. Na verdade, eles acreditam que é a primeira vez que alguém consegue filmar uma baleia-azul-pigmeu jovem embaixo d’água. E quando filmam, outra coisa chama a atenção: a quantidade de plásticos flutuando na superfície do oceano. A pesca comercial não existe na região há mais de 30 anos por causa da guerra civil e as praias estão fechadas, então teoricamente deveria ser um dos locais mais intocados pela ação humana.

Esses momentos abrem o documentário Um oceano de plástico (A plastic ocean), dirigido e roteirizado pelo jornalista e cineasta Craig Leeson e lançado pela Fundação Plastic Oceans em setembro de 2016. O filme mostra a poluição dos oceanos por plástico e o seu impacto para os animais, as pessoas e os ecossistemas. O jornalista e a mergulhadora Tanya Streeter entrevistam especialistas de diversas áreas, viajam para lugares impactados diretamente pelos plásticos e revelam os perigos da nossa relação conflituosa com esse material. O documentário tem cenas tristes e alarmantes que precisam ser vistas, mas também aponta caminhos para solucionar esse grande problema ambiental.

Um oceano de plástico - nós precisamos de uma onda de mudança

A dupla apresenta dados sobre a produção de plásticos no mundo e os efeitos do desperdício, inclusive em “tempo real”, considerando desde quando a pessoa começou a assistir ao documentário. Só nos Estados Unidos, 38 bilhões de garrafas de plástico são descartadas por ano. No mundo todo, cada pessoa usa e descarta cerca de 136 quilos de plástico considerado descartável anualmente. Só que os descartáveis são feitos de um material durável e indestrutível, como apontam Craig e Tanya.

Ao longo do documentário, eles conversam com oito cientistas e pesquisadores sobre as consequências do descarte incorreto de plásticos em diversos níveis, desde o microplástico (a última parte resultante da decomposição do material) até objetos inteiros boiando nas águas. Na costa da Itália, golfinhos e baleias estão aparecendo mortos nas praias e os pesquisadores querem entender por que. Quando avista um golfinho em alto mar, a ecologista e ecotoxicologista Maria Cristina Fossi lança um dardo para recolher uma amostra de gordura do animal. A biópsia do tecido revela o efeito de químicos e tóxicos no organismo e também algo inusitado: ftalato, um dos derivados do plástico.

Quanto menor a partícula, mais fácil de ser consumida por animais, que não sabem diferenciar o que é plástico do que é comida. O consumo dos objetos plásticos por esses animais impacta toda a cadeia alimentar marítima por dois motivos. Primeiro, os microplásticos atraem toxinas presentes no ambiente e vão se acumulando nos corpos dos animais, chegando até as pessoas que se alimentam de frutos do mar (não somente essas, mas consumidores de água engarrafada, água da torneira, sal, mel e cerveja também). Segundo, algumas espécies – especialmente aves litorâneas, tartarugas e baleias – estão morrendo de fome com os estômagos cheios de plástico, como acontece na Ilha Midway, um dos locais visitados pelo cineasta.

Intercalando informações, entrevistas e visitas em campo para acompanhar pesquisas, o documentário é dinâmico e interessante. Na última parte, Craig e Tanya focam o impacto do uso e da decomposição dos plásticos na vida das pessoas e sugerem ações que cada um pode fazer no seu dia a dia para evitar o consumo de produtos descartáveis. Relevante, o filme traz ao mesmo tempo um panorama e um alerta sobre os plásticos no mundo, além de fazer um convite à reflexão sobre nossa relação com esse material, que pode ser tão bom e tão maléfico – só depende do nosso comportamento.


O filme está disponível no Netflix

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