Zarpando em 3,2,1...

Por Letícia Maria Klein •
26 agosto 2016


“Aprendizagem transformacional através de uma vida sustentável” é o lema da Schumacher College. E é pra lá que eu vou! Depois de um ano e meio, o sonho que se formou na minha mente vai finalmente virar realidade! Neste domingo embarco para a Inglaterra para estudar e conviver na Schumacher College, uma referência em sustentabilidade, onde a gente aprende por transformação, através da vivência.



Estudantes, professores e colaboradores da faculdade vivem em comunidade, divididos em grupos de tarefas responsáveis pela agricultura, alimentação, limpeza, organização e assim por diante, estudando e trabalhando em prol de soluções para um planeta em crise. Perfeito para compreender e exercitar a coletividade, potencializando individualidades em detrimento do individualismo. Cada um fazendo o seu melhor para que todos prosperem.



Na parte de alimentação, por exemplo, a escola tem a própria horta, criação de galinhas para ovos orgânicos, alimentação vegetariana. Para suprir a demanda, o restante dos alimentos é obtido de produtores locais. Pães orgânicos feitos todos os dias e queijos orgânicos de vaquinhas felizes, criadas soltas e com dignidade, também estão no cardápio. A escola também atende dietas especiais, como sem glúten, sem lactose, sem derivados de leite e vegana.



A riqueza cultural é outra beleza da Schumacher, pois há pessoas de todas as partes do mundo estudando lá. No meu curso, por exemplo, tem gente do Brasil, da Inglaterra, da Suíça, da França, dos EUA, do Japão e outros. Falando no curso, o que eu vou fazer é o PG Certificate em Ciência Holística (certificado de pós-graduação), que convida seus estudantes a “olhar para além dos limites da ciência tradicional para resolver os problemas ecológicos e sociais de hoje”, mergulhando em sistemas, teorias da complexidade e do caos, ecopsicologia e ciência de qualidades.



A faculdade oferece cinco cursos de mestrado, aprovados pela Universidade de Plymouth, e também cursos de curta duração. Cada turma tem no máximo 17 acadêmicos, para garantir a qualidade do aprendizado. Os professores usam diversos métodos de ensino e avaliação e as aulas expandem os limites da sala, incluindo passeios a campo por bosques, montanhas e parques. Além disso, alguns profissionais renomados em seus campos são convidados a lecionar, como o físico Fritjof Capra, autor de A Teia da Vida (ele vai estar lá neste ano, ahhhhh!!!).

Para resumir: PA-RA-Í-SO. Todos com quem eu falei ou soube de suas histórias dizem que o lugar não tem igual, é uma experiência fantástica, transformadora. Estou imensamente empolgada, ansiosa, com frio na barriga, de poder viver essa realidade e absorver o máximo possível. Venham, experiências, novas amizades, conhecimentos e aprendizados, venham! Venham, novos horizontes, novas perspectivas, novos caminhos, venham!

Vou procurar trazer o máximo que conseguir de lá para você, aqui no blog, em textos, imagens e vídeos no canal, então acompanhe as redes sociais para saber de todas as novidades! Até breve, diretamente de Totnes. ;)
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Dá para viver sem dinheiro? Conheça cinco pessoas que deram adeus a ele

Por Letícia Maria Klein •
17 agosto 2016
Respondendo à pergunta: que dá, dá. O dinheiro é uma invenção humana e se vivia normalmente antes dele, na base do escambo, da troca de serviços por produtos e vice-versa. Os sistemas econômicos foram mudando, a população da terra foi se multiplicando e a troca passou a ser intermediada por moedas. O dinheiro se tornou a moeda de troca oficial do mundo, literalmente. Vantagens e desvantagens à parte, é bom lembrar que, como toda ferramenta, o dinheiro é neutro; se seu uso é para o bem ou mal, depende da intenção de quem o tem. Tem gente que prefere não ter, como é o caso destes cinco aqui:

Jo NemethEsta australiana se demitiu da empresa onde trabalhava e escolheu depender só de si para viver, depois de se questionar sobre os impactos que causava no planeta a partir de suas escolhas e hábitos. Ela mora num abrigo na propriedade de um amigo, se alimenta principalmente do que planta e emprega suas horas do dia no cultivo da horta, cozimento das refeições, leitura, conversa com amigos, passeios pela cidade e seu blog. Para conseguir objetos de higiene e limpeza, ela presta serviços ou aproveita restos de produtos que seriam descartados por amigos, conhecidos, simpatizantes e empresas. Em entrevista, Jo disse que sua regra pessoal é não usar produtos novos: “eu não quero usar os recursos materiais se eles forem produzidos apenas para o meu próprio benefício”. Jo diz estar mais feliz e saudável desde então: “eu trabalho muito no plantio e a minha dieta mudou. Além disso, eu não produzo todo o lixo que produzia antes. Estou me sentindo muito melhor”.



Daniel ShellabargerDesde criança, este estadunidense católico praticante tinha curiosidade de viver como Jesus, sem dinheiro. Em 2000, ele deixou seus últimos 30 dólares numa cabine telefônica, queimou sua carteira de motorista e passaporte, ficou com algumas roupas e vive até hoje como nômade. Conhecido como Daniel Suelo (solo, em espanhol), já viveu em comunidades alternativas, acampou no deserto e dormiu na casa de pessoas desconhecidas que o convidaram. Ele mantém uma “casinha base” numa pequena caverna no deserto de Moab, em Utah. Daniel se alimenta de plantas selvagens, do que encontra no lixo e até de carne de animais atropelados nas estradas, além do que consegue em troca do seu trabalho, que também lhe rende roupas e produtos de higiene. Em seu blog, que mantém a partir de computadores em bibliotecas públicas, ele explica que “a natureza selvagem, fora da sociedade de consumo, funciona através da economia da dádiva (de graça recebestes, de graça dai)”. Descreveu sua experiência e motivações no livro “The man who quit money” (O homem que desistiu do dinheiro, em tradução livre), que teve suas cópias distribuídas gratuitamente. “Quando eu vivia com dinheiro, eu estava sempre sentindo falta de algo. O dinheiro representa essa falta. O dinheiro representa coisas do passado (dúvidas) e coisas do futuro (créditos), mas o dinheiro nunca representa o presente. Nós precisamos de muito pouco para viver e não nos damos conta disso”, diz.



Heidemarie SchwernerFaz mais ou menos duas décadas que a alemã Heidemarie Schwerner vive sem dinheiro. Tudo começou quando ela se mudou com os filhos para uma cidade na área rural da Alemanha e percebeu uma grande quantidade de moradores de rua. Buscando uma maneira de ajudá-los, ela criou o Tauschring, um espaço onde pessoas poderiam trocar serviços ou objetos por outros de que necessitavam. O projeto foi ganhando forma e mais adeptos e Heidemarie decidiu trocar sua até então profissão de professora por outro ideal de vida: vendeu seu apartamento, guardou o essencial numa mochila e numa mala e passou a viver de troca de serviços e favores. Para conseguir cama e comida, ela lavava pratos, limpava a casa, servia de companhia e por aí vai. Ela ficou tão famosa que tem pessoas que enviam passagens a ela para que se hospede com eles, o que a faz viajar bastante. Já escreveu três livros sobre sua experiência e doa toda a verba arrecadada para instituições de caridade, conservando apenas uma poupança com 200 euros para alguma emergência. Para ela, foi uma “libertação”. Seu estilo de vida inspirou o documentário “Vivendo sem dinheiro”, onde afirma que não é preciso ter uma renda para viver bem e que “o dinheiro nos distrai do que é realmente importante”.



Christopher Johnson McCandlessChris ficou famoso a partir da publicação do livro “Na natureza selvagem”, em 1996, e depois com o filme homônimo, lançado em 2007, que contam a história de como este jovem de família rica deixou tudo para trás para viver livre na natureza gelada do Alasca e o que aconteceu nos dois anos em que conseguiu viver sua aventura, antes de ser encontrado morto (não é spoiler, tá, está na sinopse das obras!). Conhecido como Alexander (ou Alex) Supertramp, codinome que adotou, se fundamentou em trabalhos de Leon Tolstoi, Jack London e Henry David Thoreau, escritores que falavam sobre a proximidade com a natureza e a vida simples. Ainda não li o livro, mas o filme é fantástico e suscita ótimas reflexões.



Mark BoyleO irlandês formado em administração abandonou o dinheiro para morar no campo, onde planta a própria comida, toma banho de rio e usa fogueiras para cozinhar o alimento. Boyle tomou a decisão depois de ver como estamos degradando o planeta. “Não vemos o efeito de nossas compras no ambiente. Não sabemos por quais processos os produtos passaram, quais os danos que eles causaram. Não sabemos mais como o que consumimos é produzido”, disse Mark nesta entrevista. Para ele, é a economia que está destruindo a natureza e prejudicando sua biodiversidade, pois o dinheiro cria uma distância entre nós e o que consumimos. Ele tem um computador movido a energia solar, que usa para manter seu blog e já lançou dois livros: “O homem sem grana” e “Drinking Molotov Cocktails with Gandhi”, ainda sem tradução no Brasil.



Estas pessoas estão trazendo de volta o modo de vida que só se encontra em livros de história, à margem da sociedade ou em grupos sociais isolados. Junto com outros movimentos como slow food, slow fashion, no e low poo, no showering, lixo zero, não à depilação e outros tantos, estas pessoas estão, no mínimo, nos fazendo repensar nossa relação com o próprio corpo, com nossos ciclos sociais, com o planeta e refletir sobre nossos hábitos de consumo e estilo de vida. Independente de qual ou quais deles adotar e qual o seu ritmo, o importante é que você encontre o seu ponto de equilíbrio e que faça sentido pra você. ;)
Com informações de: Hypeness, Mochila Brasil, Pragmatismo Político.
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Culturas do no e low: e se tomar menos banhos e usar menos produtos formais saudável?

Por Letícia Maria Klein •
02 agosto 2016
Pois é. A gente costuma associar produtos cosméticos, cheios de componentes, à limpeza; quando faz espuma, então, aí sim que limpa. Mas ao que tudo indica, quanto mais natural for o processo de higienização do seu corpo (e da sua casa também), mais saudável e protegido ele será. Isso acontece porque muitos produtos convencionais do mercado possuem sulfatos, parabenos e petrolatos, que são prejudiciais à saúde, ao ambiente e desequilibram a flora natural da pele, que tem suas bactérias próprias responsáveis pela proteção e controle de oleosidade e odor.

James Hamblin, editor da revista Atlantic, encarou o desafio de parar de tomar banho. Neste artigo, ele explica que o odor dos corpos é produto de bactérias que vivem na pele e se alimentam de secreções oleosas do suor e de glândulas sebáceas que ficam na base dos folículos de pelos. Usar sabão e shampoo todos os dias perturba o equilíbrio que existe entre os óleos da pele e as bactérias que moram nela. O uso intenso destes produtos no banho acaba com este ecossistema. E aqui está o ponto: as bactérias se reproduzem de novo e repovoam a pele, porém, elas acabam ficando em desequilíbrio e tendem a favorecer os micróbios que produzem cheiro. Em outras palavras, quanto mais produtos você passar, mais vai precisar passar para combater o estrago que eles mesmos criam. É o tal do ciclo vicioso.



Em termos técnicos, retroalimentação (o feedback). O sistema vai se retroalimentando para melhor ou pior. Neste caso, para pior. Aconteceu comigo quando eu tive dermatite atópica: quanto mais eu coçava, mais a lesão em si produzia coceira, o que me fazia coçar mais. Pegou o fio da meada? A mesma lógica se aplica ao desodorante. Conforme você vai diminuindo a quantidade de desodorante e a frequência de aplicação, menos precisa. Aqui há uma ressalva, porém: a alimentação interfere bastante no odor do corpo. Depois que adotei uma dieta vegetariana (com acompanhamento da nutricionista), percebi que meu odor natural ficou mais suave. Fiz o teste do desodorante e comprovei que funciona!

Hoje, James diz que não usa shampoo nem sabonete e quase nunca toma banho. Além de economizar dinheiro e água, ele diz que  vai poupar até o fim da vida 12.167 horas, quase dois anos! Mas peraí, e o cheiro? Ele e outras pessoas adeptas do desafio no-showering (sem banho) dizem que no começo ficaram parecendo "monstros oleosos e fedidos". Mas depois de um tempo, os ecossistemas do corpo acham seu ponto de equilíbrio de novo, agora sem a interferência de produtos cosméticos, e a pessoa não cheira mais mal. O odor é o natural de uma pessoa, diz James. Sem a interferência de produtos químicos, a pele não fica flutuando entre seca e oleosa, mas permanece no seu ponto ideal.

Eu já testei um pouco isso e posso dizer que funciona. Oh!

Calma, não parei de tomar banho! Mas quando tive o probleminha na pele, a dermatologista recomendou não usar sabonete no banho durante o tratamento (no mínimo 20 dias), até para não interferir nos produtos prescritos. Garanto que não fiquei nada fedida. Na verdade, foi o inverso. Só a água já lava mesmo, pode fazer o teste. Mas precisa esfregar, tá? Duas editoras do site Total Beauty ficaram 30 dias sem tomar banho e contaram a experiência, que teve resultados fantásticos para a pele, bem melhor do que quando usavam dezenas de produtos.

Primeiro vídeo de três do The Atlantic sobre a microbiota da pele

Produtos naturais

Além do no-showering, existem também as técnicas low-poo (pouco shampoo) e no-poo (nenhum shampoo). Quem criou foi Lorraine Massey, fundadora da marca Deva Curl, especializada em produtos de beleza para quem tem cabelos cacheados (os termos foram registrados por ela e agora são marcas - No-Poo® e Low-Poo®. Assim, devem haver mudanças em breve em relação à nomenclatura, que também era usada por outras empresas).

Quem aplica a técnica do low-poo utiliza menos shampoo e substitui o shampoo comum por um sem sulfatos pesados, porque estas substâncias causam ressecamento e perda da oleosidade natural do couro cabeludo. Os produtos também devem ser sem petrolatos, componentes provenientes do petróleo que blindam os fios do cabelo a outras substâncias que são importantes.

Estes são os sulfatos que não podem estar na lista de ingredientes dos adeptos do low-poo:

Sodium laureth sulfate
Sodium myreth sulfate
Sodium lauryl sulfate
Ammonium lauryl sulfate
Ammonium laureth sulfate
Sodium c14-16 olefin sulfonate
Tea lauryl sulfate
Tea-dodecylbenzenesulfonate
Sodium alkylbenzene sulfonate
Ammonium or sodium xylenesulfonate
Sodium cocyl isethionate
Sodium lauryl sulfoacetate
Sodium socoyl (or lauryl/lauroyl) sarcosinate
Ethyl peg-15 cocamine sulfate
Dioctyl sodium sulfosuccinate
Sodium lauryl glucose carboxylate
Methyl cocoyl or lauryl taurate
Sodium cocoyl glycinate

E estes os petrolatos:

Petrolatum/petrolato
Mineral oil/óleo mineral
Parafinum liquid/parafina líquida
Vaselina/vaselin
Isoparafina/isoparafin
Isododecano/isododeceno
Alcano/alkane
Hidrogenated polysobutene

Além destes, tem os parabenos. Não são proibidos pela técnica do low-poo, mas faz bem deixar de usar produtos que contenham estes compostos químicos. Eles são conservantes, encontrados normalmente sob os nomes metilparabeno, propilparabeno, etilparabeno e butilparabeno. Ainda não se comprovou se eles de fato causam câncer (pesquisam estão sendo desenvolvidas), mas já se sabe que provocam alergias cutâneas, envelhecimento da pele e interferências no sistema endócrino de humanos e outros animais.

A técnica do no-poo não permite o uso de shampoo nem de produtos que tenham silicones insolúveis em água (os solúveis valem). Tem gente que aplica o co-wash (lavagem com condicionador) ou somente receitas caseiras. Então, além dos listados acima, também se deve evitar os silicones insolúveis, que são:

Dimethicone
Amodimethicone
Cetearyl methicone
Cetyl dimethicone
Cyclomethicone
Cyclopentasiloxane
Dimethiconol
Stearyl dimethicone
Trimethylsilylamodimethicone
Simethicone
Polydimethylsiloxane
Methicone
Phenil trimethicone
Dimethylpolysiloxane
Bis-aminopropyl dimethicone

Vale tirar fotos dos componentes para verificar a lista de ingredientes dos produtos. Neste link, aqui e acolá estão explicadas as rotinas destas práticas, como fazer, produtos liberados e outras informações.

Menos é mais

A canadense Katherine Martinko e a brasileira Letícia González, editora da Marie Claire, ficaram meses sem usar shampoo nem condicionador nem creme para cabelo e ficaram com suas madeixas mais bonitas e fortes. No-poo mesmo! A receita é simples: bicarbonato de sódio e vinagre de maçã. De uma a duas colheres de sopa de cada ingrediente em copos de água separados. Primeiro você coloca a solução de bicarbonato aos poucos no couro cabeludo e massageia. Depois finaliza com o vinagre e enxágua bem. Lucy AitkenRead, do blog Lulastic, recomenda não mais do que uma colher de sopa de bicarbonato uma vez por semana depois que seu cabelo restaurar o equilíbrio natural. É bom aplicar uma receitinha caseira para hidratar os fios uma vez por mês. Há várias por aí na internet, com banana e abacate, por exemplo.

O cabelo de Katherine Martinko com bicarbonato de sódio e vinagre de maçã

A redução de banhos e de produtos de higiene e limpeza economiza dinheiro e água, pois um banho tem uma média de sete minutos e um uso de 65 litros de H2O, como lembra Madeleine Somerville, jornalista do The Guardian. Sem falar nos resíduos sólidos gerado pelas embalagens dos produtos! O bom do bicarbonato de sódio é que ele pode ser comprado a granel e o vinagre de maçã vem no vidro.

Neste artigo muito bom da revista Trip, a jornalista Nina Lemos fala de “uma espécie de ‘doença social’ que faz com que passemos a achar que coisas naturais, como secreções, suor, menstruação e pelos são uns trecos nojentos”. É um apelo a não termos nojo de nós mesmos e nos permitir sermos humanos, com tudo que isso implica. Não precisa deixar de tomar banho, mas entender que, se você ficar o dia inteiro em casa fazendo nada, é perfeitamente normal não achar um banho necessário e ir para a ducha só no dia seguinte. Ou quando você quiser.

O que a gente precisa mesmo é se libertar das garras da sociedade de consumo, das imposições disfarçadas de sedução da indústria e se empoderar. Pesquisar, refletir, questionar e se fortalecer contra a opressão do sistema no qual vivemos, mas ao qual não precisamos pertencer. É o apelo de que cada vez mais pessoas por um mundo livre, saudável, justo e ambientalmente equilibrado. É o que eu quero, e você?
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Por onde começar? Como identificar os impactos que causamos e adotar hábitos sustentáveis

Por Letícia Maria Klein •
24 julho 2016
Muito se fala – inclusive aqui – que para termos um planeta sustentável, o cultivo de hábitos sustentáveis deve entrar em cena no nosso dia a dia, assim diminuímos o impacto negativo e aumentamos o positivo. Existem centenas de receitinhas prontas que podemos usar na rotina. Mas como você pode transformar essa mudança de hábitos num processo autônomo, que te permita refletir sobre as particularidades da tua rotina, do teu estilo de vida e te dê ferramentas para pensar e agir de outras formas?

Quando eu comecei a me interessar pela temática ambiental, o que mais chamava minha atenção era a questão preservacionista, de preservar espécies e habitats, até porque é o que a mídia de massa mais veicula. Na época da pesquisa para o meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo (sobre jornalismo ambiental e espetáculo televisivo), eu li o livro Mundo Sustentável, do jornalista ambiental André Trigueiro, que mudou minha visão sobre o planeta e as questões ambientais.

Visão sistêmica

No livro, ele menciona a visão sistêmica da vida, área de estudo do físico Fritjof Capra, que diz que tudo no planeta, estendendo para o universo, é interligado e interdependente. É como um sistema – por isso se chama teoria dos sistemas, criada por Ludwig von Bertalanffy – em que os elementos trabalham em conjunto, cada um fazendo a sua parte para que o todo (o sistema) funcione. A teoria sistêmica surgiu como um contraponto à visão cartesiana de mundo (de René Descartes), que dizia que se podia analisar o todo por suas partes, quando, na verdade, analisando sistematicamente, a gente percebe que o todo é muito maior e mais complexo do que a mera soma das partes. Veja um formigueiro, por exemplo. Não é só um monte de formigas vivendo juntas. Cada grupo de formigas tem sua função para a manutenção da casa delas, criando caminhos, buscando e estocando comida, se reproduzindo para perpetuação da espécie. A mesma coisa com as abelhas na colmeia. E humanos em sociedade.

A compreensão da visão sistêmica da vida nos ajuda a perceber as relações delicadas e ao mesmo tempo complexas entre o meio e os seres que o habitam, entre os elementos bióticos (vivos) e os abióticos (não vivos, como água, ar, terra, minerais). Cada elemento cumpre um papel na manutenção do sistema do nosso planeta. Capra chama o sistema da Terra de teia da vida não por acaso. Como em uma teia de aranha, cada ponto é importante, pois se um elo se perde, um nó se desfaz, a teia enfraquece e pode cair. Assim é com a Terra: cada elemento é importante e qualquer mudança vai gerar um impacto, positivo ou negativo. Cada ação gera uma reação, pois os elementos dessa teia se afetam mutuamente, em algum grau, e estão interligados de várias formas.



Basicamente, a visão sistêmica nos mostra que não podemos fazer o que bem quisermos e entendermos com o planeta. Conseguimos ver isso claramente em nosso dia a dia. Quem mora em grandes centros urbanos cheios de veículos consegue sentir que o ar está poluído. E ver também (sabe aquela faixa amarronzada logo acima da linha do horizonte?). A poluição do ar é um problema grave causado por nós, pela quantidade tremenda de veículos nas ruas consumindo combustíveis fósseis, que está afetando nossa saúde e contribuindo para as mudanças climáticas, que estão desequilibrando o planeta inteiro.

A visão sistêmica se aplica a tudo, não apenas quando falamos da sustentabilidade planetária, mas de todo e qualquer sistema, todo e qualquer ambiente que tenha elementos que trabalham em conjunto. Uma empresa, uma escola, uma prefeitura. Ter em perspectiva essa rede de conexões, interligações e interdependências nos auxilia a identificar, nas nossas ações, como estamos afetando o meio e como ele nos afeta (por meio, tem-se tudo que ele envolve: habitat natural, habitat construído, espécies, bens naturais, tudo).

Existe uma ideia bem equivocada de dualidade homem e natureza, mas sem a natureza o homem não existe. Respiramos oxigênio, comemos alimentos que vieram da terra, utilizamos água para higiene, limpeza, lazer e trabalho. Dependemos diretamente destes elementos para viver. As algas marinhas fornecem oxigênio, as árvores purificam o ar. Quanto mais árvores nas cidades e nas florestas, melhor a qualidade do ar, mais fresco o ambiente (dá pra reduzir o uso do ar condicionado) e também maior o volume de água circulando (lembra do ciclo da água?). Muitas espécies vegetais e o solo nos dão todos os alimentos e nutrientes essenciais que precisamos. Muitos grãos, frutas, sementes só existem na quantidade que existem porque insetos e aves ajudam na polinização deles, então a extinção destes animais significa uma redução drástica no estoque de alimentos.

Relações, relações, relações. Não somos autossuficientes, não, minha gente. Nenhuma espécie é.


Este vídeo da ONG Sustainable Man mostra claramente as relações entre
os animais e o ambiente e como funciona o equilíbrio na natureza

Sair do automático e pensar fora da caixa

Para identificar os impactos das nossas ações, precisamos pensar criticamente, analisar, nos perguntar sobre a origem e os processos do que comemos, compramos, usamos, descartamos, tudo o que consumimos e a forma como consumimos. Precisamos ter um olhar observador e questionador sobre tudo, não tomar nada como garantido ou óbvio ou normal ou comum. Quem, o que, por que, como, quando e onde são as perguntas básicas que precisam estar na cabeça de todos a todo momento. No começo é mais difícil, pois somos muito rápidos para nos acostumar, acomodar e não questionar, mas com o tempo se torna um hábito e você vai desenvolvendo uma consciência plena de si como indivíduo, como cidadão e como nó da teia da vida.

O simples acordar de manhã e ir ao banheiro escovar os dentes já suscita várias perguntas: a marca da pasta de dente que eu uso tem microplásticos na fórmula? A embalagem vai ser reciclada ou vai para o aterro sanitário? Posso usar uma pasta natural? Quanta água eu uso para a higiene bucal? E assim vamos nos perguntando sobre tudo no nosso dia a dia: de onde vem o alimento que como? Usou agrotóxico? Quais os impactos do uso destes produtos químicos? Quais as fontes da energia elétrica na minha casa? Quem fez a roupa que estou usando? Esta pessoa trabalha com dignidade ou em regime de escravidão? Como se diz, são as perguntas que movem o mundo.



Essa análise de nós mesmos abrange pelo menos quatro esferas: pessoal, você como indivíduo, cidadão e membro da sociedade; familiar, tanto o espaço físico da sua casa quanto as relações afetivas; social, os espaços que você frequenta e as relações com amigos e conhecidos; trabalho e/ou estudo, o ambiente e as relações com colegas. Os círculos vão expandindo e quanto mais analisarmos, mais conseguiremos identificar as relações de interdependência, de causa e efeito. Nossos princípios, valores, hábitos, costumes e estilo de vida são indicativos da pegada ecológica que deixamos neste planeta. Podemos buscar ao mesmo tempo no passado e na tecnologia do presente as soluções para os resíduos sólidos, as mudanças climáticas, a extinção de espécies, a imobilidade urbana, as doenças causadas por poluição e agrotóxicos, e por aí vai.

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”

Albert Einstein é tido como autor dessa frase. Conhecimento é poder e é a melhor ferramenta para mudar a si mesmo e a sociedade. Então vamos ler, pesquisar, conversar, esgotar o assunto. Estão aí internet, tv, rádio, jornal, livros. O importante é sair da inércia e ir atrás de informação para entender o cenário. Se você usar pelo menos 15 minutos por dia durante uma semana para pesquisar um determinado tema, com certeza terá fundamentação suficiente para fazer suas escolhas e tomar atitudes com consciência.

O processo é contínuo. Não dá para mudar da noite para o dia. Nem é bom, na verdade, o tempo de adaptação é importante tanto para nós mesmos quanto para aqueles com quem convivemos. O que importa é estar sempre em ação, não se deixar abater por dificuldades que podem (e vão) surgir e adotar uma filosofia a la Pollyana, enxergando o copo meio cheio. Afinal, nós somos ou não protagonistas da própria vida, cidadãos do mundo e exemplos para os outros?



Vamos juntos! =)
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Primeiro oficinão sobre lixo zero (tão completo quanto o tempo permitiu)

Por Letícia Maria Klein •
10 julho 2016
Já fiz várias palestras e oficinas também, como você já deve ter visto por aqui. Mas nos moldes da realizada no dia 05 de julho, foi a primeira. A primeira de muitas, espero! Foi um evento em parceria com a IsCool, um negócio que viabiliza a educação alternativa e independente, na Offcina Café e Coworking, em Blumenau. Foram duas horas e meia de imersão na temática do lixo zero, buscando contextualizar a problemática do lixo e mostrar muitas formas de reduzir a geração de resíduo e de rejeito na nossa rotina.

Foram oito participantes, inclusive de outras cidades, que se interessaram e interagiram muito durante toda a oficina, fazendo comentários e perguntas. Durante o tempo, falei sobre como aplicar o conceito lixo zero em várias esferas da vida, ensinei a fazer composteira e minhocário e sugeri como tornar autônomo o processo de autoaperfeitçoamento na busca por um mundo sustentável. Como mostra a foto, levei vários objetos que uso no dia a dia para evitar gerar lixo e viver de forma mais natural. No fim, cada um recebeu uma sacola ecológica e social do Instituto Adelina para já começar as mudanças em prol da vida sem lixo.



Deixei alguns desafios para eles no fim, que você também pode tentar: ficar uma semana sem “jogar o lixo fora”, para visualizar o tanto de resíduos que você produz e identificar maneiras de reduzir o montante; ficar um mês sem usar produtos ditos descartáveis, como copo, talheres, prato, canudo e guardanapo de papel; criar um perfil no site Habitica, “um jogo que o ajuda a melhorar hábitos da vida real”.

Se você também busca mudar alguns hábitos para ter uma vida mais plena, feliz e sustentável, acompanhe as redes sociais do blog, da Juventude Lixo Zero Blumenau e da Juventude Lixo Zero Brasil para dicas e sugestões! =D
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Última semana do Junho Verde 2016 e julho com novidade!

Por Letícia Maria Klein •
01 julho 2016
O primeiro Junho Verde de Blumenau chegou ao fim. Foram mais de 60 ações, 33 escolas envolvidas, duas mil mudas de árvores doadas e mais de cinco mil pessoas alcançadas. Nestes últimos dias, eu participei como palestrante no Centro Cultural da Vila Itoupava, onde falei para mais de 100 crianças sobre o lixo zero. Na Fundação Cultural da cidade, falei sobre consumismo, sua origem, conceitos, problemas e soluções. Por fim, teve a mesa redonda sobre unidades de conservação, que encerrou o calendário de eventos em comemoração ao ambiente.

No Centro Cultural da Vila, foram dois momentos. O primeiro, de manhã, para crianças a partir de oito anos. Já à tarde, para crianças de seis a nove. Portanto, tive que improvisar. Na primeira, consegui usar a apresentação de slides que usei na escola Visconde de Taunay. Na segunda, usei também, mas foquei na fala e aproveitei os elementos da exposição sobre recicláveis que foi montada no centro. Apesar de um pouco mais agitadas, as crianças menores são mais espontâneas e ouvem com mais atenção e interesse, sempre respondendo às perguntas e querendo participar. Foi bem bacana, gostei bastante!



Para a conversa sobre consumismo, eu me baseei na apostila “Crianças e o consumo sustentável”, do Ministério do Meio Ambiente e nos documentários “A história das coisas” e “A história secreta da obsolescência programada”. Conversamos sobre a origem do consumismo, conceitos de obsolescência programada e percebida, problemas socioambientais do consumismo e soluções.

A mesa redonda sobre unidades de conservação teve a participação de Cíntia Grüner, criadora do Projeto Carnívoros, Gioni, da Polícia Militar Ambiental e Lauro Bacca, da Acaprena – Associação Catarinense de Preservação da Natureza e foi realizada no campus da UFSC em Blumenau.

Bacca fez um resumão sobre as unidades de conservação, o SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação, quais as categorias e alguns problemas. A importância das UC está nos serviços ambientais que elas prestam ao planeta, como manutenção da biodiversidade, preservação de espécies, providência de alimentos e água, entre muitos outros. Ele também falou sobre a importância dos corredores ecológicos para ligar unidades de conservação, que funcionam como rodovias que ligam cidades. Por fim, Bacca citou alguns problemas que ocorrem em parques hoje, como acontece no Parque Nacional Serra do Itajaí. Cachorros domésticos de propriedades vizinhas, que perseguem animais silvestres e acabam matando-os de cansaço, como é o caso do veado, que não tem condições físicas para fugir por muito tempo e acaba morrendo de ataque cardíaco. Outro problema é a iluminação artificial, que mata dezenas de insetos por dia. O termo “unidade de conservação” é corretíssimo do ponto de vista técnico, mas pouco atraente ao público em geral. Desafios a superar!

Depois, a Cíntia apresentou o projeto Carnívoros, que monitora pumas no Parque Nacional Serra do Itajaí, e falou sobre como os dados obtidos com os programas e via satélite podem ajudar na preservação de espécies, na identificação de lugares para corredores ecológicos, no estabelecimento de mosaicos de UC e na tomada de decisões. No parque, existem apenas três pumas machos. Alguns dados mostram, por exemplo, qual o tamanho da área que eles percorrem. O mais jovem anda por 15 mil hectares e o mais velhinho por 11 mil! O número de pumas é tão pequeno principalmente por causa da caça, além das enfermidades transmitidas por cães, dos atropelamentos e da perda de habitat.

Por fim, o policial militar Gioni explicou que o principal papel da polícia militar ambiental é fiscalizar. Ele apresentou uma série de fotos sobre os crimes ambientais executados dentro do parque: degradação de Área de Preservação Permanente – APP, caça, corte ilegal de vegetação nativa, contrabando de palmito, mineração, poluição de solo e rios e pesca. Os crimes ambientais e as penalidades para ações em UC estão previstos na Lei de Crimes Ambientais (9.605/1998), no Código Florestal Federal (12.651/2012) e no Código Estadual do Meio Ambiente de Santa Catarina (14.675/2009).

Da esquerda para direita: Juliana (Faema), eu, José Sommer (Faema), Cíntia (Carnívoros),
Gioni (PMA), Laruo Bacca (Acaprena), Sérgio (PNSI), Cristina (UFSC)

Na rodada de perguntas, eu questionei os três sobre quais os métodos mais eficazes para diminuir os crimes nas unidades de conservação e ampliar a proteção e efetividade das UC. Eles responderam que uma fiscalização efetiva é aquela que não cria rotina, é “aleatória”, faz rotas diferentes a cada dia. Também é preciso apoio da sociedade, patrulhamento, parcerias com instituições de ensino, empresas, organizações não governamentais e poder público, busca por conhecimento e conscientização e a educação ambiental, principalmente para crianças.

Como sempre tem pontos a melhorar, preciso dizer que o público deixou a desejar. Não sei o que acontece em Blumenau, mas algo tem. Não falta programação, mas poucas pessoas prestigiam. No dia do encerramento, alguém falou sobre um outro evento da área de tecnologia da informação que é sempre lotado de gente onde é realizado e os ingressos esgotam rápido. Aqui em Blumenau, foi diferente, como a pessoa contou. Eu mesma fui a um dos concertos de inverno da escola de música do Teatro Carlos Gomes e me surpreendi com a falta de público. Nem metade do auditório estava ocupada. Não é de ficar chateado?

Na conversa sobre o consumismo foram só duas pessoas e no encerramento foram duas pessoas de fora, que não estavam na universidade onde foi realizado. Ao todo, estavam presentes 15 pessoas, contanto organizadores e palestrantes. Desanima, sabe? Porém, o debate foi bem rico, e no fim é isso que importa: a qualidade. Acho que este é um trabalho de formiguinha. Será que faltam consideração e vontade do público? Os modelos de atividades estão ultrapassados? A educação ambiental deve ser reformulada? Questões para refletir.

Para terminar, um curta documentário que a Cíntia recomendou que mostra como lobos mudam rios. Isso mesmo! Vídeo rápido e didático sobre a importância de cada espécie na natureza e como se dá o equilíbrio nos habitats.



Ah, não esqueci da novidade, não! Nesta terça, dia 05 de julho, farei uma oficina sobre como e por que ser lixo zero no dia a dia. Mais informações e inscrições no site da IsCool, nossa parceira.
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