Como foi? – CNJLZ (parte 2)

Por Letícia Maria Klein •
16 dezembro 2014

Depois de compartilhar as mensagens dos palestrantes internacionais no primeiro post sobre o Congresso Nacional Juventude Lixo Zero, vou falar um pouco sobre as iniciativas brasileiras que estão fazendo a diferença em prol de uma sociedade socialmente justa, economicamente viável e ambientalmente sustentável (as fotos são dos organizadores). É possível, está acontecendo e só mostra como cada um pode contribuir muito no seu dia a dia através de boas atitudes e bons exemplos. 



Bruno Lopes falou sobre o projeto Bairro Educador, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e executado pela organização CIEDS (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável), da qual faz parte. O projeto foi realizado de junho de 2010 a agosto de 2013 e teve o objetivo de promover o desenvolvimento integral dos estudantes, ampliando as oportunidades de educação. Algumas das ações desenvolvidas foram: feira literária, em que resíduos recicláveis eram trocados por livros, ocupação dos bairros com atividades educativas, reaproveitamento de alimentos, estudo sobre o rio e métodos de preservação, trilhas educativas e lixo nos oceanos. 

Bruno Lopes

A mesa-redonda foi formada por Eduardo Jorge, candidato à presidência da república pelo Partido Verde, Francisco Luiz Biazini Filho, sócio da empresa Rederesíduo, Ana Aparecida Pereira, coordenadora da área de gestão e inclusão produtiva na Secretaria de Assistência Social e Anderson Ramalho da Silva, coordenador da cooperativa de catadores de recicláveis Cooperpar. Falou-se que 30% dos gases de efeito estufa gerados na cidade de São Paulo provêm do lixo. Como o lixo é problema de todos, a responsabilidade é compartilhada e os processos industriais precisam ser circulares (extração-produção-consumo-reaproveitamento). Em Joinville, há 10 grupos de trabalhadores em cooperativas, um total de 200 pessoas, que trabalham em condições bem melhores do que os catadores de resíduos. Porém, a cooperativa de reciclagem não recebe capital financeiro pelo acolhimento e triagem dos resíduos, apenas pela venda. 

Um dos principais problemas é a falta de informação que a população tem sobre o que são resíduos orgânicos, recicláveis, entre outros tipos de lixo. O mercado da compostagem (produção de adubo com restos de alimentos e podas de plantas para fins de fertilização do solo no lugar de produtos químicos) é um ótimo negócio, pois reaproveita matéria-prima que estaria sendo enterrada, gerando gases de efeito estufa que pioram o aquecimento global, e gera renda. O lixo só existe porque existe demanda e a demanda somos nós quem fazemos. Por isso, é preciso que cada uma faça a sua revolução pessoal para reduzir a quantidade de resíduos que produz. 


Da esquerda para direita: Ana, Francisco, Anderson e Eduardo

Luiz Ricardo Berezowski falou sobre o Nat-Genius, um modelo de negócio da empresa Embraco que oferece soluções de operação reversa e desenvolvimento de novos produtos originados a partir de eletrodomésticos de linha branca (como geladeiras e máquinas de lavar) e equipamentos de refrigeração comercial descartados ao final da vida útil. O reuso destes materiais em outros processos industriais reduz o consumo de recursos naturais e o envio de resíduos a aterros sanitários. Já são duas fábricas em Joinville, que têm capacidade de manufaturar reversamente um milhão de compressores e 100 mil peças de linha branca por ano. O ano de 2014 fechou com a manufatura reversa de 900 mil compressores. 

Luiz passou alguns dados bem alarmantes sobre o consumo de recursos minerais. Elementos como o ouro, a prata, o zinco e o urânio devem desaparecer em 50 anos. Para se produzir um grama de ouro são necessários de duas a cinco toneladas de outros minérios. O ouro está presente em diversos objetos que usamos no dia a dia, inclusive celulares. Além disso, uma das maiores preocupações relacionadas ao lixo é a quantidade de plásticos descartados que vão parar nos oceanos, matando um milhão de aves e 100 mil animais marinhos todos os anos, principalmente as tartarugas (86% delas já ingeriram plásticos). Existem bolsões de plásticos nos oceanos que contém 3,5 milhões de pedaços por km²!!! Isto é assustador!!! 

Em 2050, o estilo de vida capitalista e consumista de boa parte da população da Terra vai requerer três planetas para atender a demanda. Mas adivinha só? Só temos um! Os bens naturais são finitos e o espaço da Terra é limitado, por isso é urgente sairmos do sistema linear de produção e consumo e adotarmos o sistema circular, em que os resíduos são todos reaproveitados de alguma forma (entenda mais no vídeo abaixo). 


O segundo dia do congresso foi destinado ao movimento Lixo Zero, com transmissão dos valores, ações e projetos do movimento. Já o último dia teve um momento muito especial em que várias pessoas se comprometeram a levar o JLZ para suas cidades (vamos que vamos!). Também teve a palestra de um convidado especial, Tião Santos, conhecido mundialmente pela participação no documentário Lixo Extraordinário, que acompanhou o trabalho do artista plástico Vik Muniz no extinto lixão de Gramacho. Ex-catador de lixo, Tião ajudou o lixão de Gramacho a virar uma indústria de reciclagem e hoje tem uma empresa de consultoria. 

Tião Santos

Que palestra fantástica!! “Mirar pequeno é acertar grande”. Esta frase foi uma das primeiras de Tião e me marcou, pois não é difícil escutar pessoas, inclusive próximas, que acham que as pequenas atitudes que elas podem tomar na rotina não valem nada na luta pela preservação. Vamos a alguns dados bem interessantes que Tião passou: o Brasil produz hoje 240 mil toneladas de lixo por dia, cerca de 1,5 kg por pessoa. Dos resíduos recicláveis (cerca de 40% do lixo gerado), apenas 2% é reciclado. Em termos financeiros, isto representa um desperdício de 8 bilhões de reais por ano. Mas o Brasil se destaca na reciclagem de latas de alumínio (98% voltam à cadeia produtiva). 


Cartaz do filme

Uma grande alteração no lixão de Gramacho foi a mudança de visão que os trabalhadores tinham de si mesmos. Eles se viam como catadores de lixo e como o lixo é visto como sem valor pela maioria das pessoas, eles consequentemente achavam que não tinham valor para a sociedade. Passar a ter a consciência de que eles eram catadores de materiais recicláveis, ajudando a preservar o meio ambiente e gerando renda a partir daquele trabalho, fez toda a diferença. “Reciclagem não é coisa de gente pobre, é coisa de gente inteligente”, disse Tião, que deixou muito claro a necessidade de apostar na educação das crianças e na reeducação dos adultos.

Aqui termina o relato do Congresso Nacional Juventude Lixo, que trouxe novas perspectivas para minha vida, caminhos que estou super empolgada para seguir e que, com o trabalho do grupo Lixo Zero Blumenau, espero que rendam muitos frutos! =)

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