Livres de novo: roxinhos de volta à natureza

Por Letícia Maria Klein •
23 janeiro 2014

Pioneiro no Brasil, um projeto catarinense reintegra à natureza quem dela nunca deveria ter saído. Graças ao programa desenvolvido pelo Espaço Silvestre-Instituto Carijós desde 2010, 43 papagaios-de-peito-roxo (Amazona vinacea) voltaram a viver livremente no Parque Nacional das Araucárias, unidade de conservação criada em 2005 que fica entre os municípios de Ponte Serrada e Passos Maia, no oeste de Santa Catarina. É o primeiro projeto de reintrodução de aves em uma unidade de conservação federal no Brasil. E está dando super certo! Em janeiro, o instituto comemorou o aniversário de três anos da soltura do primeiro grupo da espécie, que estava extinta na região há 20 anos. O sucesso da causa também se deve à participação das comunidades locais, que ganharam em 2013 um projeto de geração de trabalho e renda a partir da produção de produtos artesanais com referência ao papagaio-de-peito-roxo e à árvore araucária. Um grande exemplo de como preservar a natureza e suas espécies gera benefícios e ganhos para todos!


Já nasceram até filhotes, de acordo com relatos de moradores. A bióloga doutora Vanessa Kanaan, diretora técnica do Espaço Silvestre-Instituto Carijós e coordenadora do projeto (e autora das fotos deste post), conta que mais quatro papagaios estão à espera da próxima soltura. Assim como todos os que já foram reintroduzidos no parque, esses são vítimas do tráfico ilegal de animais silvestres e foram apreendidos no fim de 2013. Foi a partir das apreensões que o projeto surgiu. 

Vanessa conta que os pesquisadores que hoje fazem parte do projeto eram voluntários em um Centro de Triagem de Animais Silvestres, que abriga animais vítimas de ações humanas, como tráfico e desmatamento. Por falta de destinação adequada, os animais ficam no Centro por tempo indeterminado. Assim surgiu a idéia de reintroduzir os papagaios à natureza. “Por se tratar de uma espécie ameaçada de extinção, muitos requerimentos além dos necessários para outras espécies precisam ser atingidos para que a soltura ocorra. Durante uma reunião do Plano de Ação Nacional para Conservação dos Papagaios da Mata Atlântica, eu conheci o Adrian Rupp, que havia feito o levantamento de avifauna do Parque Nacional das Araucárias e sugeriu que a soltura fosse feita no local, pois a espécie já era considerada extinta lá. Assim o projeto de soltura se tornou um projeto de reintrodução”, explica Vanessa. 


Para colocar o projeto em prática, vários requerimentos precisaram ser atendidos, como a Instrução Normativa 179 do Ibama e a licença SISBIO do ICMBio, que incluem fazer uma análise sanitária e comportamental das aves. Durante o processo de reabilitação, necessário para que os papagaios possam voltar a viver normalmente na natureza, eles são avaliados e passam por um treinamento comportamental para terem a chance de aprender a evitar humanos e predadores, a procurar e se alimentar de itens de sua dieta natural, a melhorar suas condições de voo e a demonstrar comportamentos típicos da espécie (principalmente em relação a outros indivíduos da mesma espécie).

A terceira soltura, prevista para este ano de 2014, já tem autorização dos órgãos governamentais responsáveis. A primeira foi realizada em 6 de janeiro de 2010 e teve 13 indivíduos. O segundo grupo, com 30 papagaios, foi solto no dia 5 de setembro de 2012. Para a terceira, o instituto está em busca de parceiros e patrocinadores. Por ser uma ONG (organização não governamental), os pesquisadores que trabalham no projeto são voluntários e o projeto depende de parceiros, patrocinadores e doadores. Parte da segunda soltura, por exemplo, teve patrocínio da Fundação O Boticário e uma campanha, liderada pelo ornitólogo Adrian Rupp, conseguiu um GPS, que é fundamental para o projeto.

Papagaios com rádio-colar

Todos os papagaios que foram soltos receberam anilhas metálicas com dados para identificação e 34 deles foram equipados com rádio-colar, que permite a localização das aves na floresta. Com o equipamento de GPS, os pesquisadores conseguem monitorar os indivíduos reintroduzidos à natureza, acompanhando a readaptação, a localização e o comportamento deles. “Eles vivem livremente em casais ou em pequenos bandos, mostrando que é possível reabilitar animais vitimas do tráfico, melhorando o bem-estar de indivíduos que passariam o resto da vida em cativeiro”, conta Vanessa, que espera que os animais se reproduzam e formem uma população viável em longo prazo. 

O monitoramento é feito mensalmente pela equipe e diariamente pela comunidade local, que relata ao instituto o dia a dia das aves. A rotina delas pode, inclusive, ser acompanhada na página do projeto no Facebook, atualizada constantemente com informações sobre os roxinhos, como são carinhosamente chamados os papagaios-de-peito-roxo. Com o monitoramento, os pesquisadores esperam encontrar os filhotes que foram avistados por membros da comunidade, prova de que a população de pouco mais de 40 indivíduos está aumentando. 

“Apesar de parecer um número pequeno, as duas solturas são de extrema importância para essa espécie ameaçada de extinção cuja população atual está estimada entre 1.000 e 2.500 aves em vida livre do sul da Bahia ao Rio Grande do Sul, Paraguai e Argentina, revelando a existência de poucos indivíduos para uma grande extensão”, afirma a coordenadora do projeto. Infelizmente, em 2011 um papagaio foi capturado por uma pessoa que não morava no local, uma evidência de que o ser humano ainda é uma ameaça às aves. O roxinho foi resgatado pelas autoridades responsáveis, mas não pôde ser solto no momento porque as penas de suas asas tinham sido cortadas. “Outros viraram presas, possibilitando que fizessem parte do ciclo da natureza, da cadeia alimentar”, conta Vanessa. 

O fato de que um papagaio foi capturado por uma pessoa de fora da região mostra que a educação ambiental realizada nas comunidades locais é uma grande aliada da conservação da natureza e da sustentabilidade. “Mensalmente são realizadas visitas às propriedades, onde conversamos com os moradores, realizamos atividades educativas em escolas e palestras em empresas locais. As pessoas não só se tornaram protetoras dos papagaios, como passaram a observar outras espécies de animais, e muitas nos auxiliam no monitoramento dos papagaios-de-peito-roxo”, diz a bióloga. O instituto também desenvolveu vários materiais educativos, como história em quadrinhos, calendário e panfletos informativos.

Palestra em escola

O programa de reintrodução dos papagaios virou até fonte de renda para quem mora na região. “Mais de 15 comunidades locais vem sendo atendidas pelo projeto e nossa área de trabalho e número de pessoas atendidas aumenta a cada mês. Em 2013 iniciamos o projeto de geração de trabalho e renda para as comunidades locais, onde mulheres produzem itens artesanais com os temas papagaio-de-peito-roxo e araucária”. Vanessa afirma que as pessoas estão mais conscientes. “Prova disso é que ainda monitoramos animais da primeira soltura em 2010 e muitas das informações que nos ajudam a localizá-los são repassadas pela comunidade. Acredita-se que a retirada de animais silvestres da natureza foi o principal motivo da extinção local, então ter animais soltos há três anos é uma das evidências dessa mudança de mentalidade”, explica. 

Que baita projeto, né! Está ajudando uma espécie a voltar a viver num local onde já estava extinta desde a década de 1980, ajudando famílias que moram na região a ter uma renda extra e propagando, através da educação ambiental, a importância de preservar a natureza. Você já conhecia o projeto? Conhece algum outro parecido na sua cidade ou região? Não deixe de comentar!

4 comentários:

  1. Parabéns pela postagem Letícia! Ficou ótima!

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    1. Oi Vanessa! Muito obrigada, fico feliz que tenha gostado! Agradeço também a colaboração e as fotos e desejo muito sucesso ao projeto.
      Abraço.

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  2. Estou batendo palmas pra matéria e pro projeto...vida longa aos roxinhos !
    Irei postar na página do facebook da campanha "Passarinho legal é passarinho solto"
    Abraços

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    1. Olá João.
      Muito obrigada! Temos que bater palmas para o projeto, mesmo, é muito show.
      Obrigada por compartilhar!
      Abraços.

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