Por menos gatos e cachorros nas ruas e mais amor aos animais

Por Letícia Maria Klein •
02 julho 2013

Quantas vezes você estava andando na rua e viu um gato zanzando por aí? Não devem ter sido poucas. Infelizmente, é um cenário comum que gera um grande problema para a sociedade: em sete anos, uma gatinha e seus descendentes podem gerar 509.097 gatinhos (quinhentos e nove mil mesmo)!!! Tipo assim... UAU. Tudo a partir de uma única fêmea. O número é assim alto porque cada gata pode ter até 30 filhotes em um ano, sendo que ela pode ficar prenha apenas 30 dias depois ter tido uma ninhada. Além disso, os gatos ficam sexualmente maduros, em média, aos seis meses de idade! É um bebê que pode ter outros bebês. Já que estamos falando em números, mais uma curiosidade animal: para cada bebê humano que nasce, podem nascer 15 filhotes de cães e 45 de gatos!

Agora você pensa em todos aqueles 509 mil gatinhos e mais umas dezenas de milhares vivendo nas ruas e sofrendo com maus-tratos. Cãezinhos também. Em Blumenau mesmo eu já cansei de ver notícias no telejornal sobre gatos ou cachorros vítimas de envenenamento ou mutilação. Alguns até levam tiros. A grande quantidade de animais nas ruas é sinal da falta ou ineficácia de uma política de controle populacional de animais domésticos e também do descaso e ignorância de algumas pessoas, que maltratam os animais ou os abandonam depois que eles ficam velhos ou doentes. Aliás, isso é revoltante. Quem quer ter bicho de estimação tem que ser um dono de estimação

É justamente para reverter esse cenário e garantir que cada vez menos gatos vivam nas ruas que diversas ONGs ao redor do planeta praticam o C.E.D. – Captura, Esterilização e Devolução. Muito utilizada em países desenvolvidos, como Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, é uma técnica para controlar a população de gatos abandonados ou nascidos nas ruas. É inclusive financiada pelos governos. O objetivo não é resgatar os gatos para doação, mas reduzir a quantidade de felinos ferais nas ruas (ferais são os gatos que voltaram ao estado selvagem e não são domesticáveis). Como diz o site do Neighborhood Cats, uma ONG bem forte nos Estados Unidos que utiliza essa técnica, o objetivo do C.E.D é “diminuir o número de gatos abandonados recolhidos e os números das eutanásias, reduzir os custos do controle de animais e criar ambientes melhores e menos hostis para esses gatos”. 

No Brasil, algumas cidades já contam com essas ONGs abençoadas: Felinos Urbanos (São Luiz, MA), Gatos Encantados (cidade do Rio de Janeiro, RJ), Confraria de Miados e Latidos (Nova Fribugo e cidade de São Paulo, SP - foi inclusive tema de uma matéria do Globo Repórter, veja no fim do post), Cats of Necropolis (Santos, SP), Colônias Felinas (Aracajú, SE), Arpa Brasil (Goiânia, GO) e Mia Vida Proteção Animal (Joinville, SC) são alguns exemplos. Em Blumenau tem a Operação Gato de Rua, projeto criado em 2012 por Maria Cecília Quideroli. Neste primeiro ano de vida, a operação castrou 78 gatos (dados de maio), o que representa 936 gatos a menos nas ruas. 

Mas como funciona o C.E.D., afinal? Primeiramente, os gatos são capturados em gaiolas. A Maria Cecília utiliza gaiolas forradas com tecido preto para evitar que o animal se estresse e se machuque contra as grades. Isso porque a maioria deles é feral, tem um comportamento arisco. As capturas são feitas no fim da noite ou cedo de manhã, que é quando os gatos estão mais ativos. Depois de capturados, eles são levados ao veterinário para castração. Aqui em Blumenau, o veterinário parceiro da Operação Gato de Rua aplica antibiótico e antiinflamatório e, na cirurgia de castração/esterilização, utiliza um fio que o corpo absorve, para que o gato não tenha que ser recapturado para tirar os pontos. Imagina o trabalho de apanhar o mesmo gato uma segunda vez? 

Gatoeira utilizada por Maria Cecília. 
Fonte: blog Operação Gato de Rua.

Para evitar capturar o mesmo gato depois que ele já foi castrado, existe um sinal internacional que identifica os animais que já passaram pela esterilização. É o corte na orelha. Pode ficar tranquilo, que não doi. Na verdade, o bichinho nem sente, pois o corte é feito quando ele ainda está anestesiado. Existem três tipos de corte: da ponta da orelha (que é utilizado pela Maria Cecília), meia-lua e o corte triangular na lateral externa. Além de evitar capturar o mesmo animal e fazê-lo passar por todo o estresse de novo, o corte é uma forma de evitar desperdício de tempo e custos com as operações. Principalmente para as ONGs brasileiras, que não recebem apoio financeiro do governo. 

Corte na ponta da orelha. Fonte: Felinos Urbanos.

Corte meia-lua. Fonte: Felinos Urbanos.

Corte triangular. Fonte: Felinos Urbanos.

Depois de devidamente recuperados da cirurgia, os gatos são devolvidos ao seu local de origem. “O que, os bichos são devolvidos pra rua? Como assim?”. Se você pensou assim, pode relaxar, amigo. Lembra que eu falei antes que os gatos que foram abandonados ou nasceram nas ruas são ferais? Então, a maioria deles não gosta de humanos por perto, tem medo de gente. Como diz Maria Cecília, são os gatos que correm DE você e não PARA você. Nesse caso, os animais vivem melhor e tem uma saúde melhor se voltam para o ambiente de onde foram capturados. O estresse é uma das piores coisas para os animais e ter que conviver com humanos sem gostar deles é muito estressante para o gato. Isso acontece com pessoas também. Experimente ser obrigado a fazer uma coisa ou agir de um modo que não te agrada. Nunca acaba bem. É pensando no bem-estar do animal que o D do C.E.D. é de devolução e não de doação. 

Mas, como toda regra que se preze tem uma exceção pra contrariar, nem todos os gatos que estão nas ruas são ariscos, especialmente os filhotes. Quando a ONG captura e castra um gato que é considerado domesticável e que eles acham que se adaptaria bem a um lar, os gatinhos são postos para doação. Mas não dá para doar a qualquer um. O dono em potencial precisa gostar de gatos e ter um ambiente adequado. Gato domesticado é gato dentro de casa. 

Além de dar comida, água, carinho, tem que também colocar telas nas janelas e sacadas, mesmo que seja casa. É verdade. Se o gato tem acesso livre à rua, ele pode se machucar, pegar alguma doença ou até formar uma família. Se for macho, o dono do gato nem fica sabendo e começa todo o problema de novo, de gatos nascendo nas ruas. Se for fêmea, o dono ou fica com os filhotes ou doa. Mas até achar quem queira (e se for um dono responsável, demora mais ainda), a pessoa terá que dedicar mais tempo e dinheiro aos filhotes. Quanto mais tempo passa, mais adulto o gato fica, menos os outros querem. Se os gatos são doados para qualquer lugar ou qualquer pessoa (lê-se irresponsável), a história dos gatos nas ruas tem muitas chances de continuar. Por isso também é muito importante castrar o seu animal de estimação, seja ele gato ou cachorro. 

Mas só a castração não é garantia de solução dos problemas. Conscientizar as pessoas é também muito importante, principalmente para evitar aquelas atitudes deploráveis de seres desumanos que matam os pobres bichinhos porque não querem que eles entrem nas casas ou qualquer outra desculpa esfarrapada. Matar não resolve nada, ainda mais quando há 45 novos gatos para cada bebê humano. O ignorante vai ficar matando até morrer! Gente, esse tipo de atitude realmente me revolta. Respira, respira.... Voltando, a conscientização ajuda a criar esta cultura de cortar o mal pela raiz, que no caso é a castração. Quantos mais gatos castrados, menos filhotes, menos animais sofrendo nas ruas. 

Divulgação por parte da imprensa e das próprias ONGs também vai disseminando o trabalho. E você, claro, pode ajudar. As ONGs não costumam ter muito dinheiro e tudo vem de doações ou parcerias. Você pode ajudar doando ou sendo voluntário no processo, seja na captura ou na esterilização (se você for veterinário). A Operação Gato de Rua eu ajudo (tenho camisetas e um livro escrito pela Maria Cecília sobre os gatos dela – Resgatos, histórias de um gato maloqueiro. É ótimo!!). O dinheiro é utilizado para as cirurgias e para tratar os animais. E não deixe de conferir a prestação de contas da ONG depois, é um direito seu saber se o seu dinheiro foi utilizado para o propósito divulgado.


Pra terminar, uma notícia super legal! No dia 27 deste mês será realizado o 1º Encontro Nacional de C.E.D., em São Paulo. Grupos de todo o país vão se reunir para trocar experiências sobre a captura, esterilização e devolução de cães e gatos. 


Agora me conte, o que achou do post? Você tem animal de estimação? Ele é castrado? Você já conhecia o C.E.D.? Os comentários são o seu espaço para opinião e troca de ideias. E você ainda ajuda o blog a crescer. Até breve!

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