Leitura sustentável para quem ama um livrinho

Por Letícia Maria Klein •
20 julho 2013

O que é muito o meu caso. Ler é uma das minhas paixões. Eu adorava ir à livraria e ficar lá um tempão, pulando de prateleira em prateleira em busca de mais uma aquisição literária. Isto até o ano passado, quando a ficha caiu e eu me dei conta de que comprar livros não é lá uma atitude muito verde. Então decidi tornar a leitura uma prática sustentável. Encontrei uma maneira que me agrada bastante! 

Se você pensou em e-books, pense de novo. Ao contrário do que parece, os livros impressos ainda são mais sustentáveis do que os virtuais. Ahn, como assim? Para se ler um livro digital, é preciso uma plataforma digital: computadores, celulares, smartphones, tablets ou o e-reader, criado especificamente para ser uma biblioteca ambulante. É aí que se encontra o perigo. Em artigo do The Millions, o editor Nick Moran compara a pegada de carbono de leitores de livros físicos e de livros digitais. Segundo os cálculos dele, tendo como base a média de que o estadunidense lê 6,5 livros por ano, o material inicial e os custos ambientais de ter um e-reader, especificamente, são de 200 a 250% maiores do que ter os livros em casa. O que também está incluso na conta é que, em média, e-readers são trocados depois de dois anos de uso, seja por dano, perda ou qualquer outro motivo. Ele diz que a única forma de compensar isso seria o leitor de e-reader ler cerca de 100 livros por ano e ficar com o mesmo aparelho por no mínimo cinco anos (o que não é nada difícil, convenhamos. Enquanto o aparelho estiver funcionando, pra que trocar?). 

E-reader (foto tirada da internet)

Outra pesquisa, realizada pela Carbone 4 em nome da Hachette Livre, maior editora de livros na França, mostra que uma pessoa teria de ler 80 livros por ano para compensar a compra do e-reader. O cálculo foi o seguinte: a gráfica emite 178 mil toneladas de gás carbônico para 163 milhões de cópias no período de um ano (o que dá mais ou menos um quilo do gás para cada livro). A produção de um e-reader, contando peças e materiais, transporte entre países, entrega às lojas, energia e reciclagem, daria um total de 240 quilos por aparelho. Portanto, para valer a troca do livro físico para o virtual, o dono do e-reader teria que ler 240 livros em um período de três anos, que foi considerado na pesquisa como sendo a vida útil do equipamento. 

O artigo do The Millions rendeu muitos comentários, tanto a favor quanto contra os argumentos do editor Nick. Um dos que não concordaram com o artigo falou que quem compra um e-reader é porque gosta muito de ler, tipo leitor voraz, então vai ler muito mais que a média de 6,5. Outro argumento foi que a pessoa não precisa comprar um e-reader para ler livros digitais, basta ter um computador, celular, tablet ou smartphone, aparelhos multifuncionais, que servem para ligar, mandar mensagem, entrar na internet e baixar 101 dálm... ops, aplicativos. É claro que todos esses números não são absolutos e existem muitas variáveis que podem ser levadas em conta. Ainda assim, de maneira geral, eu concordo que a produção de um e-reader é mais poluente do que a de um livro. 

Tanto para se produzir livros de papel quanto de pixels as fábricas precisam de matéria-prima, energia e transporte. É preciso pensar em todo o processo, toda a cadeia produtiva, e não apenas no resultado. Depois de pronto, o e-reader pode evitar o corte de muitas árvores, mas o processo de produção causa mais impacto no meio ambiente do que produzir um livro: geralmente as peças viajam de país para país até se juntarem, depois viajam mais um pouco para chegar a todos os países que vão vender o aparelho, fora toda a energia e matéria-prima que são usadas na produção. Ah, é um aparelho eletrônico, então ele precisa ser recarregado frequentemente, o que já puxa mais energia da rede. Já a produção de livros fica concentrada em um país só. Precisa das mesmas coisas do outro: matéria-prima, energia e transporte, mas em escala menor. Esse videozinho da campanha Consciente Coletivo, do Instituto Akatu, é bem bacana para ilustrar o processo de produção do papel. Não mostra como faz livro, mas dá pra captar a ideia.


Já ficou bem claro que tanto e-books como p-books (paper books – acabei de inventar, que tal?) geram impacto de uma maneira ou de outra. Então, você me pergunta, como é que fica? Aqui é que queria chegar! Leitura sustentável é uma forma de consumo consciente: adquirir conhecimento, informação e letrinhas gerando o mínimo de impacto possível na natureza. Como todos temos computador, ou pelo menos acesso a ele (caso contrário você não estaria lendo isso aqui), não precisamos comprar um e-reader. Então se você quer ler na telinha, basta começar a comprar e baixar os e-books. Uma dica interessante para não cansar os olhos é inverter as cores na página, colocar o fundo em preto e as letras em branco. Isto porque o branco reflete a luz, então quanto menos branco na tela, menos reflexo. Como eu (ainda) não sou muito chegada a ler um livro inteiro no PC e conheço muitas pessoas que gostam de sentir, cheirar, folhear o livro, aí vai outra solução, que eu curto bastante.

Sebos, bibliotecas, amigos, parentes. O que todos eles têm em comum? Livros que você pode ler. Pra que comprar um livro novo na livraria se você pode ler um que passou por outras mãos? Quanto mais pessoas compram livros na livraria, mais livros são produzidos, mais bens naturais como água e papel são utilizados. Para fabricar 50 quilos de papel, bye-bye uma árvore. Esta árvore pode gerar 125 livros, levando em conta livros com peso médio de 400 gramas. No Brasil, a tiragem média de um livro é de três mil exemplares, o que equivale a 24 árvores a menos na floresta. Multiplica isso por todos os livros novos que chegam às livrarias todos os dia e eis uma baita quantidade. Cada vez que você vai à livraria em busca de mais um livro pra coleção, você estimula essa cadeia produtiva. E muito provavelmente depois de ler, o livro fica paradinho na estante, não fica? É um desperdício, vamos combinar.

Um sebo (foto tirada da internet)

Imaginem um grupo de amigos onde todos querem ler o mesmo livro. Se apenas um comprar e for emprestando aos outros, bens naturais serão poupados e viva a natureza. Se o amigo não tem, talvez a biblioteca municipal tenha, ou a biblioteca da sua escola ou faculdade. Tem também o sebo, que costuma vender, além de livros, CDs, DVDs e revistas. De qualquer forma, você ajudou a evitar que uma árvore virasse papel. Falando em sebo, foi de um dos maiores sebos on-line que vieram aquelas informações numéricas ali de cima: Estante Virtual, responsável pela campanha Leitura Sustentável

Desde 2005, quando surgiu, o site ajudou na compra e venda de mais de seis milhões de livros. Graças a esse ciclo de reutilização de livros, sejam novos ou usados, 48 mil árvores continuaram a fazer sua fotossíntese em paz. Claro que antes de comprar um livro pelo sebo on-line que seja lá do outro lado do país ou do estado e que vai precisar de combustível pra chegar até você, procure nos sebos físicos da sua cidade ou veja se alguém pode te emprestar. Tá difícil de encontrar o livro? Que tal montar um grupo no facebok? Eu faço parte, com meu perfil pessoal, de um chamado Brechó do Livro. Tem cada vez mais membros que trocam, vendem e compram livros uns dos outros aqui em Blumenau. É um sebo virtual local. 

Há várias maneiras de praticar a leitura sustentável. Seja qual for, a palavra-chave é reutilizar. ;)

2 comentários:

  1. Letícia, algumas pessoas que trabalham com geologia e mineração falam que os kindles e outrosleitores da vida não são muito sustentáveis e que para sua fabricação se usa minerais que existem em pequena quantidade na natureza. A gente pensa no papel e no gás carbônico mas não pensa em zinco, lítio, etc. E para onde vão todos esses equipamentos depois que se tornarem inúteis para seus donos? Enfim, só contribuindo para o debate com meus 5 centavos.

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    1. Oi Marina! Tudo bem?
      Com certeza, o uso dos minerais prejudica bastante o meio ambiente. Por isso que, como eu coloquei no texto, os leitores eletrônicos podem até não derrubar árvores, mas causam bem mais impacto do que os livros de papel. Como há impacto de um lado e de outro, eu vou seguindo pela leitura que a meu ver é a mais sustentável, alternando entre sebos, empréstimos e (poucas) compras em livrarias.
      Muito obrigada por comentar!

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