Para onde vai o lixo que “jogamos fora”? – Semana do Meio Ambiente

Por Letícia Maria Klein •
12 junho 2013

Engraçado este termo, né... Jogar fora. Você já parou pra prensar que, na verdade, não existe um “fora”? Nós mandamos o lixo embora de nossas casas, mas ele não desaparece num passe de mágica. É tão cômodo jogar o lixo na lata e ver o caminhão passando para recolhê-lo. Nossa, dá até um alívio, né. Só que não. O lixo continua dentro do planeta, ele não vai para fora. Pode sair de casa, mas continua dentro de uma casa muito maior, que é a Terra. Ver a quantidade de lixo ao vivo em aterros “dá até um negócio”. Eita, que agonia. O lixo não para de crescer, o panorama é desesperador. Foi o que eu senti na visita técnica do roteiro dos resíduos, que a Fundação Municipal do Meio Ambiente e a Secretaria de Educação organizaram na Semana do Meio Ambiente em Blumenau.

A primeira parada foi a Estação de Tratamento de Esgoto do bairro Fortaleza, construída pela empresa Foz do Brasil. É uma três de Blumenau, sendo que uma ainda não tem projeto para construção. Na ETE Fortaleza há três módulos de tratamento (pré, primário e secundário) e cada um trata cerca de 160 litros de esgoto por segundo. A estrutura, que ainda está sendo finalizada, mas já está em operação, atende mais de 237 mil blumenauenses, o que representa 77% da população da cidade. Antes da Foz chegar à cidade, menos de 6% do esgoto era tratado. O objetivo é tratar o esgoto de todos os habitantes.

Prédio do pré-tratamento

Quando chega à estação, o esgoto (composto 99,9% de água) passa pelo pré-tratamento, onde são retiradas as sujeiras (fios, plástico, etc.) e areia que estavam nele. Depois, o esgoto vai para os tanques de aeração, onde é decomposto por bactérias aeróbias, que precisam de oxigênio (por isso os tanques são abertos). Nos tanques, o esgoto é misturado com o lodo que foi gerado no decantador secundário e então recirculado para os tanques de aeração novamente. A reutilização do lodo é necessária devido à grande quantidade de bactérias ativas nesse lodo, que ajudam na decomposição mais rápida do efluente bruto. 

Tanques de aeração

O lodo do decantador pode ser recirculado até 100% e deve ter no máximo 30 dias dentro do tanque. Quando este período termina, o lodo passa por um processo onde é desumidificado e depois encaminhado para o aterro sanitário. Quando sai da estação, a água originária do tratamento do esgoto está 95% mais limpa, mas ainda impróprio para consumo humano. Não pode beber, nem tomar banho.

De acordo com o coordenador operacional na Foz do Brasil em Blumenau, Guilherme Pimentel, que acompanhou a visita, para chegar a 100% de água limpa seriam necessárias dezenas de milhões de reais. Cada 1% a mais precisaria de mais R$ 10 milhões, pois seriam incluídos outros tratamentos de reuso da água e assim por diante. O coordenador afirmou que a Foz não tem o objetivo de chegar a 100%, pelo menos não por enquanto, pela questão do alto custo. Bom, o esgoto já está sendo tratado, o que é um grande avanço.

Água do esgoto tratado que volta para o rio

Lembra do lodo mencionado ali em cima, que vai para o aterro sanitário? Nós fomos até lá. É o Aterro Industrial e Sanitário de Blumenau, gerido pela empresa privada Momento Engenharia Ambiental. Lá, o lodo é misturado com cal e cimento e utilizado para fazer as camadas do aterro.

Para lá são levados os resíduos industriais da região de Blumenau desde 1999. Os resíduos industriais incluem os perigosos (Classe I) e os não perigosos (Classe II). Os resíduos vêm de indústrias e também do setor de saúde (hospitais, clínicas, farmácias). Os efluentes gerados no aterro também são tratados. Como é um serviço contratado, não são todas as indústrias nem todos os serviços de saúde que enviam seus resíduos para cá. E olha que já tem um monte, então imagina o resto!

Depois de pesados e conferidos na entrada, os resíduos são enviados para o local de descarga de acordo com o tipo e a classe. Os resíduos pastosos de Classe II são solidificados na Usina de Solidificação de Lodos, onde passam por um processo de homogeneização, adição de aglomerantes e estabilização. Os resíduos perigosos que são pastosos também são solidificados, mas passam pelas células de tratamento. Outros tipos de resíduos perigosos são prensados, encapsulados ou incinerados, dependendo de suas características.

Aparato para incineração

Exemplos de material encapsulado são as pilhas, baterias, reagentes químicos específicos e outros que necessitam de mais segurança. Você sabia que é obrigação da empresa que vende pilhas, baterias e lâmpadas recolher esses materiais? Depois que a pilha acabou ou a lâmpada queimou, você pode ir à loja onde comprou e devolver. É a empresa que deve destinar corretamente esses produtos. Se a loja se negar a receber, você pode processá-la. Isso quem determina é a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Depois de tratados, os resíduos são colocados em células impermeabilizadas com geomembrana de PEAD - Polietileno de Alta Densidade de acordo com a classe. Para o Aterro Classe II (não perigosos), vão os resíduos que foram solidificados na USL, resíduos compactados e outros conforme contratação pelo cliente.

No Aterro Classe I são colocados os resíduos processados em células de tratamento, os prensados e os encapsulados. Os efluentes gerados durante todo o tratamento, incluindo o esgoto do empreendimento, passam por um sistema de desarenação, são armazenados no tanque de equalização e depois enviados para a Estação de Tratamento de Efluentes, que trata o material antes de devolvê-lo ao meio ambiente.

A Momento tem parceria com o grupo Votorantim, que opera nos setores de cimento, metais, energia, siderurgia, celulose, agroindústria e finanças. Para lá são enviados os resíduos sólidos e líquidos com poder calorífico, como papelão, estopa e rejeito de óleo diesel, que utilizam esses materiais como combustível.

Estação de Tratamento de Efluentes

Agora repare nas fotos. O que se vê ao redor do aterro é Mata Atlântica, floresta virgem, repleta de uma mega biodiversidade. Quando o espaço onde são depositados os resíduos acabar, adivinha o que vai acontecer com a floresta? Pois é. Por mais que a empresa faça o reflorestamento em outro local, o que ela é obrigada a fazer, a própria bióloga Micheli, que trabalha na Momento, admite que nunca vai se compensar o desmatamento. A floresta que está ao redor levou milhares de anos para se constituir e desenvolver a biodiversidade existente hoje nela. Por outro lado, muitas das áreas que a empresa desmata são constituídas de pinus e eucalipto, derivadas do próprio processo de colonização da região. Por isso é tão importante não apenas tratar o lixo, mas diminuí-lo, o que fica bem evidente quando damos de cara com a quantidade que chega diariamente ao centro de reciclagem em Blumenau, a nossa última parada durante o roteiro. O projeto Recicla Blumenau é uma parceria entre o Samae (Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto) e a Associação dos Trabalhadores Coletores de Resíduos Residenciais (Reciblu).

É onde acontece a reciclagem do lixo dos blumenauenses. Menos de 5%. O QUE? Isso mesmo, menos de 5% de todo o lixo de Blumenau é reciclado. De acordo com Luiz Eduardo Pereira, da gerência de resíduos sólidos do Samae, que acompanhou a visita, a cidade gera sete mil toneladas de lixo por mês, o que representa 51% de todo o lixo gerado no Médio Vale do Itajaí. Luiz disse que o que Blumenau gera em um mês, a cidade de São Paulo produz em um dia. Cada um dos blumenauenses gera 725 gramas de lixo em um dia, o que é algo relativamente baixo, disse ele. Porém, se esse nível de consumismo continuar, em 2020 a cidade atingirá o mesmo patamar dos maiores geradores de lixo do Brasil, com uma estimativa de aproximadamente um quilo para cada habitante por dia. Há cidades nos EUA onde cada habitante gera de três a cinco quilos de lixo por dia. Credo, estou tendo palpitações neste momento!!!

Lá em cima, pessoal da Reciblu separando o lixo

Para aumentar a quantidade de lixo reciclado, que poderia chegar a 35% (o que somaria mais 2.500 toneladas à quantidade reciclada hoje em Blumenau), segundo Luiz, vários fatores são determinantes: melhoria da eficiência da coleta seletiva e triagem, investimento em infraestrutura, conscientização da população, mercado de reciclagem, educação ambiental, entre outros. Os 35% seriam a quantidade "passível de reciclagem". O lixo ainda tem 50% de resíduos orgânicos com potencial de compostagem e 15% de rejeitos, que seriam materiais que não podem ser reciclados nem virar composto (como lixo do banheiro: papel higiênico usado, fraldas, etc.). E ainda nos rejeitos, como você vê abaixo, há materiais que poderiam ser reciclado, mas não por causa desses motivos acima, o que inclui algo que as pessoas em casa podem fazer: lavar os recipientes antes de colocá-los no saco do lixo.

Rejeitos

Na foto abaixo, você vê um lixão que evolui para um aterro controlado, que no espaço mais profundo tem 45 metros de lixo enterrado. Em 2004, foram encerradas as atividades ali e foi aberta a Estação de Transbordo, que é a exportação do lixo para o Aterro Sanitário de Brusque, de responsabilidade da empresa Recicle Catarinense de Resíduos. Como diz Luiz, “o lixo é levado para lá por comodidade, por nunca ter enfrentado o problema com a seriedade que merece”. Não tem como especificar a porcentagem de capacidade de um aterro de forma correta, mas dizem que pelos próximos 30 anos o aterro conseguirá absorver o lixo gerado. O problema, segundo Luiz, é que são muitas cidades que enviam seus resíduos para lá e mesmo após o fechamento de um aterro sanitário, o monitoramento continua mais por 20 a 30 anos (por causa do tempo de decomposição do lixo). “Lixo enterrado não gera nenhum benefício”, disse Luiz e eu concordo totalmente.

Lixão que virou aterro controlado

Para finalizar, um exemplo de como a reciclagem funciona. Em Borás, na Suécia, 99% do lixo é reciclado, o oposto do que acontece em São Paulo, por exemplo, onde apenas 1,5% do lixo é reciclado. No Brasil, apenas 10% das cidades reciclam o lixo. A reciclagem é fundamental, mas não podemos contar só com ela. Não é porque ela existe que todo o mundo vai sair consumindo a rodo. Nós precisamos consumir conscientemente, pensar antes de consumir alguma coisa. Preciso mesmo comprar isto? Será que não posso trocar este produto por outro mais sustentável? Tudo que é fabricado precisou de bens naturais para existir: água, energia, matéria-prima. Quanto mais consumimos, mais lixo geramos. Às vezes enviamos para a lixeira coisas que nem usamos, o que significa que todos os bens naturais utilizados foram em vão, pois saíram direto da natureza para a lata do lixo. Por isso que apenas a reciclagem não resolve tudo, consumir menos e sabiamente é tão importante quanto.

4 comentários:

  1. Anônimo6/12/2013

    Super completa a matéria, gostei muito.
    Só 10% das cidades brasileiras reciclam o lixo, que absurdo. Joaçaba está entre elas. A iniciativa de reciclagem parte de cooperativas, não da prefeitura. E o pior é que as pessoas nem sentem que estão fazendo algo errado quando misturam o lixo!!
    É realmente preciso dar um "sacode" na galera.

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    1. Olá! Tudo bem?
      Muito obrigada pelo comentário!
      Pior que é, apenas 10%. E se a maioria for como Blumenau e São Paulo, a situação é bem pior do que imaginamos. Muito do problema do lixo é a falta de informação, as pessoas não sabem como proceder com a reciclagem, o que podem separar, como devem separar e também não têm noção da importância desse processo. E convenhamos que esperar pelo prefeitura não dá, né. O negócio são as ações individuais, cada um fazendo sua parte e passando aos conhecidos. ;)
      Ah, só lembre-se na próxima vez de deixar seu nome, ok?
      Abraço.

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  2. Oi Leti, parabéns pelo conteúdo..Ficou ótimo..Agora saber que menos de 5% do lixo é reciclado, é de doer né?
    O caminho é longo mas acredito (a médio e longo prazo) que este quadro melhore.
    Abraço.
    Thati

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    1. Oi Thati, muito obrigada!!
      Sim, realmente doi, mas também acredito que a situação vai melhorar, basta cada um fazer sua parte. Afinal, a mudança que queremos ver no mundo deve partir de nós mesmos.
      Abraço.

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