Uma verdade inconveniente para os cegos sociais

Por Letícia Maria Klein •
16 fevereiro 2016

O aquecimento global existe. Ponto. Fato incontestável. As causas são diversas e intensas, assim como as consequências, que só tendem (e vão) piorar se nada for feito pelos indivíduos, grupos, sociedades, governos, empresas. "Uma verdade inconveniente", documentário de 2006 sobre a campanha do ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, é, essencialmente, um alerta para o problema e um chamado para a ação. Munido de dados e pesquisas científicas, Al Gore aborda os métodos de medição e acompanhamento das mudanças climáticas, intercalando-os com cenas marcantes de situações em várias partes do planeta que fazem com que 150 mil pessoas se tornem refugiadas climáticas todos os anos e que vêm afetando a saúde e a alimentação da população mundial.

Poster de uma verdade inconveniente

Parece dramático? É para ser mesmo. O documentário tem esse tom em muitas passagens. Misturando cenas de sua
palestra sobre o tema, a qual vem realizando ao longo dos anos, com fatos da vida política e pessoal e narração em primeira pessoa, o filme, dirigido por Davis Guggenheim, tem dois objetivos principais: chamar a atenção e sensibilizar.

Durante sua fala, Al Gore atêm-se mais à explicação do processo de aumento da temperatura média do globo e aos efeitos das mudanças climáticas, como derretimento das geleiras, aumento do nível dos oceanos, mudança no padrão das correntes marítimas, eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, crise social e extinção em massa de espécies. As causas das mudanças climáticas – atividades humanas como geração de energia, desmatamento, pecuária, veículos movidos a derivados do petróleo – são deixadas em segundo plano. Propositalmente, por dois motivos, talvez.

Al Gore em Uma verdade inconveniente

Por um lado, menos nobre, para evitar conflitos com as grandes indústrias estadunidenses, especialmente as termoelétricas, e o estilo de vida norte americano de ser. Por outro, mais nobre, o tom instigante do filme alerta as pessoas para o problema do aquecimento global, tema que Al Gore estuda desde a década de 1970, quando estava na faculdade. Lá, ele teve contato com o professor e físico Roger Revelle, o primeiro cientista a medir a taxa de dióxido de carbono na atmosfera. O filme mostra que desde então, Al Gore vêm estudando, divulgando e tratando do tema não só em palestras, mas também na sua atuação como político. Esta, porém, não tem trazido muitos resultados, visto que, como ele diz em certa altura, os políticos ignoram o que não está na agenda deles.

Por meio de cenas de colegas de profissão zombando dele, a intenção é evidenciar sua frustração em não conseguir comprometimento real da administração pública frente ao problema. Este sentimento vem provavelmente do fato de Al Gore ter a causa do aquecimento global como uma luta pessoal e não apenas pauta política. Apesar do tom pessoal intrínseco à narrativa, ela é menos sobre autovitimização e melhora da imagem de político e mais sobre o descaso da administração pública de um dos mais poderosos países do mundo frente a um dos maiores problemas da atualidade. Afinal, “é difícil fazer um homem entender alguma coisa se o salário dele depende da sua falta de entendimento disso”, frase de Upton Sinclair, escritor, romancista e reformador social dos EUA, citada no filme. 


Al Gore em Uma verdade inconveniente

Independentemente de qualquer possível segunda intenção, o documentário cumpre seu papel de informar, sensibilizar e despertar as pessoas para o problema gravíssimo das mudanças climáticas, exemplificando como cada um de nós pode contribuir na luta contra o aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera. O filme ganhou estatuetas do Oscar de melhor documentário e melhor canção original com “I Need to Wake Up” de Melissa Etheridge, que pode ser visto abaixo.

Como é dito no fim do longa, as gerações futuras vão perguntar: “O que nossos pais estavam pensando? Por que não acordaram quando tinham chance”. Não vamos esperar o futuro chegar para ouvir estas perguntas, vamos ouvi-las agora.


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