Sobre vida e experiências – TEDxBlumenau 2017

Por Letícia Maria Klein •
29 maio 2017
A terceira edição do TEDxBlumenau, Momentum, foi sobre vida, morte, experiências e o valor do tempo. Os três blocos de palestras foram construídos para contar uma narrativa sobre jornada interna, começo e fim da vida terrena, saúde e qualidade da existência. Participei pela segunda vez (relato do evento do ano passado aqui) e, assim como da outra vez, saí com uma sensação maravilhosa, feliz de ter presenciado 14 relatos de vida incríveis e emocionantes. Abaixo um pouquinho de cada palestra e seus vídeos. Assiste, vai, tenho certeza que o teu pensamento depois vai ser “que bom que eu vi!”.

Mauricio Louzada
Um segundo pode ser um vértice de mudança na sua vida, que pode te levar à tua caverna interna. Lá, é onde nos perdemos para que possamos encontrar nosso caminho.



Gabriela Muller
O parto é um momento lindo e intenso na vida da mulher e o parto humanizado vêm crescendo, assim como a presença da doula. Neste assunto, Blumenau foi pioneira ao ser a primeira cidade brasileira a permitir a presença de doulas em partos.



Rosane Martins
Por que ter medo de envelhecer?



Rogério Malveira
Se você não compreende saúde, sua capacidade de ser saudável fica restrita, por isso a compreensão em saúde é o sexto sinal vital. O limite do teu mundo depende da tua capacidade de compreensão. Portanto, médicos, vamos descomplicar, pois falar bonito é se fazer entender.



Luiz Fernando Roriz
Esperança e resistência são essenciais para sair da inércia. Todos têm potência para tal e ela é exponenciada com os relacionamentos pessoais. Ter um problema não é problema, afinal.



Cristina Tardáguila
Vemos e compartilhamos muitas notícias falsas. O fato não importa mais e isso é gravíssimo, pois a crença tem tido mais importância do que o fato. Compartilhamos o que acreditamos e quando corrigimos um post, ele não faz tanto sucesso quanto o primeiro. Para não cair em erro, sempre cheque fatos antes de compartilhar algo nas redes sociais que pode levar até a tragédias. Preste atenção à ausência de fonte, números relativos, dados em mutação, A causa B e "maior do mundo".



Thiago Rondon
A tecnologia pode transformar a política? A política é um financiamento em rede, mas hoje a rede é pequena. O que está em jogo é: moeda de poder x moeda de representatividade.



Marcelo Fett
Crescimento sem desenvolvimento. O que gera riquezas são o conhecimento e a inovação. O desenvolvimento de um estado está na capacidade de empreender, inovar e ser resiliente.



Kiko Kinslanski
O que o mundo perde se sua empresa deixar de existir? Existem dois tipos de empresas: as que melhoram e as que pioram o mundo. Por que ter uma empresa? Empresas devem olhar para dentro para encontrar as respostas às suas inquietações internas. “Ao invés de vencer na vida, vem ser na vida”. Ao invés de perguntar a uma criança o que ela quer ser quando crescer, pergunte à criança o que ela quer mudar quando crescer. Tríade da transformação: consciência (o que tu fazes afeta o todo e o todo afeta o trabalho), propósito, pessoas (humanização).



Hamilton Henrique
Alimentação saudável é direito, não privilégio. Por isso, o Saladorama faz o ciclo do cuidado: agricultores, cozinheiros, entregadores, consumidores.



Felipe Colvara
O projeto Kombina com foto mostra o poder da fotografia como memória registrada.



Maria Lujan Tubio
A roda da vida tem oito elementos da felicidade e a espiritualidade é o mais importante, pois é sobre o significado da vida, conexão. Para isso, educação de verdade.



Quiteria Peres
As pessoas clamam o direito de pertencer. Vivemos a lógica perversa da velocidade e o tempo é bálsamo, mas na dose errada pode ser veneno. Somos todos juízes na nossa família, por isso é importante aprender o verdadeiro significado de cada conflito. Assim, pais, incentivem os filhos a ter empatia, analisar alternativas e buscar soluções. Nada melhor do que a sensação de ter ajudado a solucionar o próprio problema.



Karina Barreto
Expressar sua verdade aumenta a chance de se conectar com alguém. Então, ao conhecer alguém, ouse, faça perguntas diferentes, interessantes. Sem pré-conceitos, tome consciência do julgamento e evite a sentença.

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Transição para a economia do bem-estar

Por Letícia Maria Klein •
10 maio 2017
No segundo vídeo da série “Da Schumacher para o mundo”, o tema é economia para transição (o primeiro foi sobre ciência holística). Nesta série, estou mostrando um pouco do que é debatido e conversado nos cursos da Schumacher College e que podemos aplicar na nossa vida para o cultivo de hábitos e atitudes sustentáveis. Foram mais de trinta minutos de conversa com o coordenador e professor Jonathan Dawson e o professor Tim Crabtree, do curso de Economia para Transição, sobre economia holística, o que é a nova economia, exemplos da nova economia no Brasil, vida em comunidades intencionais, conexão entre economia e espiritualidade e passos para quem quer fazer a diferença e empreender seguindo os novos paradigmas econômicos. Como no vídeo não cabe tudo, as entrevistas completas seguem abaixo. Depois de assistir e ler, comente aqui para trocarmos algumas ideias.



O que é a economia vista de uma maneira holística?
Jonathan Dawson: Uma definição convencional de economia seria o que passa pelo mercado, sujeito a trocas monetárias. Começaríamos com a suposição de que, na verdade, há muitas coisas que passam pelo mercado que não contribuem para o nosso bem-estar. Acidentes de trânsito, derramamento de óleo, usinas nucleares, guerra; todos estes contribuem para o valor econômico e monetário. Similarmente, há muitas coisas que não passam pelo mercado que são essenciais ao nosso bem-estar, como criar filhos, trabalho comunitário, voluntariado e a quantidade crescente de trocas acontecendo pela internet que não conectadas a dinheiro e mercados. Então, uma visão muito mais aberta inclui uma quantidade muito maior de atividades humanas do que apenas o que passa pelo mercado.

O que é a nova economia?
Jonathan Dawson: Acredito que não existe só um tipo de pensamento sobre a nova economia. Há muitas ideias e paradigmas emergentes que estão desafiando as formas convencionais de fazer as coisas. Mas acho que provavelmente o que a maioria destes novos pensamentos tem em comum é que, ao invés de ter o crescimento como propriedade central da economia, o foco é em bem-estar e felicidade. Fundamentalmente, supõe-se que no sistema atual o crescimento econômico representa o bem-estar, o que não é verdade. Para além de um nível bastante baixo de bem-estar material, o relacionamento entre mais consumo e bem-estar deixa de existir. A ideia de que a melhor maneira de nós agirmos é simplesmente aumentar o consumo de bens materiais é uma suposição muito rasa. Então, se realocarmos o bem-estar para o centro, o propósito da economia, teremos todo o tipo de novas possibilidades e áreas.

Como foi sua experiência como presidente do Global Ecovillage Network (Rede Global de Ecovilas)?
Jonathan Dawson: Minha experiência como presidente foi muito interessante. Foi um verdadeiro privilégio poder viajar por tantas iniciativas diferentes. No começo, foi um pouco confuso, pois, pelo menos no mundo industrializado na época que o GEN foi criado, o número de ecovilas sendo criadas era relativamente baixo. A maioria das grandes ecovilas foi criada nas décadas de 1960, 70 e início de 80. No começo foi confuso, pois achávamos que nossa missão era criar muitas ecovilas, o que não estava acontecendo apesar do grande trabalha que estávamos fazendo. Acho que para mim, a ficha caiu quando eu percebi que, na verdade, o objetivo não era necessariamente replicar novas ecovilas, mas usar as existentes como centros de treinamento, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento. Esta visão nos trouxe mais significado e mais satisfação com o trabalho.

Como tem sido sua experiência de viver em comunidades?
Jonathan Dawson: Eu vivi em três comunidades diferentes nos últimos 20 anos, começando em uma pequena em Dorset, depois em Findhorn por 11 anos e há cinco anos na comunidade Bowden House, perto de Totnes. Para mim, é um esforço muito grande viver fora de comunidades intencionais. Ao longo dos anos as pessoas me perguntavam se não era difícil viver em comunidade e eu respondo “Você acha fácil viver por sua conta?” ou “Você acha fácil viver numa unidade nuclear?”, porque eu não acho fácil. Nunca achei. Coisas como o potencial para espaço e generosidade são muito maiores em comunidade. Eu encontrei meu habitat natural. Todas as comunidades são diferentes, provavelmente a maior diferença é o tamanho. Findhorn se tornou mesmo uma vila, cerca de 500 habitantes. Onde eu estou agora, somos em 35 adultos e 10 crianças. Findhorn tem os atributos de uma vila, então você pode chegar e comprar uma casa, enquanto que Bowden House tem seu próprio processo de para se tornar membro e é muito claro quem é membro e quem não é. Eu gosto muito de viver em comunidade.

Quais são os benefícios de viver em comunidade?
Jonathan Dawson: A melhor forma de ilustrar as vantagens de viver em comunidade é descrever o que aconteceu em Bowden House na semana passada. A comunidade é musical, então na quinta houve uma noite de canto, então vieram pessoas de fora. O fim de semana foi de Halloween, então tivemos festa para as crianças com gostosuras ou travessuras. Tivemos um almoço coletivo e à noite, por ser o último domingo do mês, houve um grande coral com pessoas de dentro e fora da comunidade, cantando juntas. Também temos um centro comunitário. Em todas as quintas temos atividades de jardinagem e de apicultura abertas ao público externo. Temos 10 acres de terra, pomares, jardins, oficinas (eventos) e espaços que podemos usar para enriquecer nossas comunidades vizinhas. Claro que também pode haver desafios. Precisamos estabelecer limites, estruturar como tomar decisões, regras para quem quer usar os espaços e sob quais condições. Conflitos quase sempre acontecem, mas viver em comunidade nos dá a oportunidade de resolvê-los conscientemente, ao invés de fugir deles. Então, há desvantagens, claro, mas sou um grande fã.

Você já viajou muito para o Brasil. Quais os exemplos de nova economia que existem lá?
Jonathan Dawson: É interessante que muitos brasileiros vêm aqui para Schumacher College aprender sobre nova economia, mas, na verdade, muitos dos bons exemplos de nova economia vêm do Brasil. E geralmente os brasileiros respondem com “Sério, nunca ouvi falar”. Um dos exemplos mais bem-sucedidos de moedas complementares é o Banco Palmas, com a moeda palmas, criado em Fortaleza, mas hoje há mais de 100 bancos de desenvolvimento comunitário replicando este modelo. Todo o experimento em Curitiba em relação à criação de empregos, à qualidade da alimentação, qualidade do sistema de transporte coletivo. O fenômeno dos orçamentos participativos, que começou em Porto Alegre, em que comunidades recebem uma parcela do orçamento municipal e decidem como utilizá-la; este modelo já se espalhou pelo mundo.

A lenda do mascate de Swaffham
Jonathan Dawson: Existe uma lenda sobre um rapaz fazendeiro de uma vila chamada Swaffham [a lenda chama-se The Pedlar of Swaffham, o Mascate de Swaffham], em Norfolk. Ele tinha sonhos repetitivos que lhe falavam para ir até a Ponte de Londres e que se ele ficasse lá, ficaria rico. Então ele deixa sua vila e vai para Londres, onde fica sentado na ponte por uma semana. Pessoas passam e nada acontece. Quando ele está prestes a ir embora, um homem chega e pergunta o que ele estava fazendo sentado na ponte. O jovem fazendeiro responde: “Bem, estou meio constrangido de dizer, mas eu tive sonhos poderosos que me diziam que se eu viesse até aqui e sentasse aqui, ficaria rico”. E o homem disse: “Não seja tolo, não acredite em sonhos. Um dia eu tive um sonho poderoso que me mostrou que se eu fosse até uma vila chamada Swaffham e cavasse debaixo de uma cerejeira atrás de uma casa, haveria um pote de ouro”. E o homem descreveu exatamente a casa do fazendeiro. Então o rapaz retorna para sua vila, cava sob a árvore, acha o pote de ouro e fica rico. A moral da história é que o tesouro estava lá o tempo todo, ele não precisava ter viajado. [O maior tesouro do mundo se encontra em nossas próprias casas, jardins, na nossa família, quando se sabe reconhecer; outra moral é que talvez seja preciso primeiro se afastar para depois voltar e encontrar o tesouro.]

Que conselhos você dá para aqueles que querem empreender, sair do velho paradigma e fazer algo novo?
Jonathan Dawson: Vou imitar Satish [Kumar, cofundador da escola] e dizer “Não consiga um emprego, a última coisa que você quer é conseguir um emprego, crie o seu próprio sustento, seu próprio trabalho". É claro que há trabalhos no sistema tradicional que são úteis, eu mesmo estou fazendo um deles. É possível achar um bom trabalho no sistema. Mas muito do bom trabalho que tem sido feito é através de pessoas que saíram do sistema e refletiram sobre como poderiam ocasionar mudanças, não supondo que seria um trabalho no sistema vigente, mas uma organização ou algo assim que elas mesmos criariam. Eu diria que uma coisa muito importante é que as pessoas parem de pensar em si como indivíduos e procurem colaboradores. Quando você encontra um time, um grupo, todo tipo de coisa se torna possível.

É possível relacionar economia e espiritualidade? Como?
Tim Crabtree: Sim, acredito que é possível. Eu cresci numa família que não tinha interesse em religião. Então, aconteceram duas coisas. Assisti ao filme Gandhi quando tinha 16 ou 17 anos e foi a primeira vez que vi alguém que ligava espiritualidade com ação no mundo, o que me impressionou bastante. Isso me fez repensar espiritualidade e religião. A segunda coisa foi a leitura de “Small is beautiful”, de E. F. Schumacher [em português o livro se chama “O negócio é ser pequeno”], quando tinha 17 ou 18 anos, e tem este capítulo chamado Economia budista. Fiquei impressionado por este capítulo, em que ele fala sobre a ideia de subsistência certa. Ele fala que na economia tradicional, o trabalho é visto como desagradável, algo que tentamos reduzir a um mínimo. Mas no budismo, trabalho é importante, visto como parte da vida espiritual. Quando eu estava na faculdade, em 1984, eu comecei a estudar aikido, que é uma arte marcial japonesa e foi a primeira vez que encontrei uma prática espiritual, a meditação. Então, escola de verão naquele ano, veio um monge zen que veio do Japão, que nos ensinava meditação de manhã e relacionava com aikido. Desde então tenho praticado o Budismo e me interessei muito sobre como relacionamos espiritualidade e nossa prática no mundo, que no meu caso é economia. Por um longo tempo, a minha ênfase estava em atenção plena [mindfulness], mas eu passei a entender que a prática não tem só a ver com atenção plena, porque esta pode ser muito focada no seu eu [self], em como uma pessoa é centrada ou atenta. Mas, na verdade, o cerne do Budismo é a ideia de interser [interbeing], de que não existe separação entre nós e o mundo ou entre nós e o ambiente, entre nós e outras pessoas. Portanto, à medida que vamos tendo esta experiência através da nossa prática, a ênfase vai mais para compaixão ou conexão com outros, e então querer ajudar os outros, fazer a diferença no mundo, porque este mundo é uma extensão de nós e certamente nós iríamos querer tentar cultivar generosidade, amor e bondade. Esta é uma mudança que tenho visto na minha prática e acho que aqui na Schumacher, o modo como eu tento trazer isto para minha atuação como professor é que eu trabalho com uma budista professora e nos últimos anos a tenho convidado para ensinar aqui, pois ela é uma profissional experiente e então tentamos ligar espiritualidade e economia.

Quais os passos para fazer uma diferença no mundo ou mudar algo que te perturba?
Tim Crabtree: Uma das coisas que exploramos na Schumacher é que nossa cultura dominada pelo ocidente tem essa ideia de que tudo é conduzido pelo lado cognitivo, pela abordagem racional. Então, podemos olhar para um problema, como o ambiental, e vê-lo bem racionalmente e então pensar “qual o método racional de abordar este problema?”. Meus estudos são em desenvolvimento de economias locais e de empresas sociais. Então, quando identificamos um problema, podemos pensar em fazer um plano de negócio, ter uma visão, mas é tudo bem cognitivo. Outra coisa que aprendi com Schumacher é que, na verdade, nós temos que começar na esfera efetiva, que é a esfera conectada com nossas emoções. Eu, por exemplo, estou sempre me envolvendo com coisas que me atraem. Nos últimos três anos, tenho feito muitos trabalhos em florestas, porque eu gosto de árvores e adoro estar em florestas. Na Inglaterra, temos poucas florestas e elas não são bem manejadas. Se eu abordo esta questão apenas pela perspectiva cognitiva, eu diria “Isto é um problema, temos que fazer algo a respeito”. Mas eu posso vir da perspectiva de gosto de estar na floresta, plantar árvores, trabalhar com madeira, então isso toca uma emoção positiva que eu tenho. Outro exemplo é que eu abri uma empresa social que faz refeições para crianças na escola. Há certos problemas; na cidade onde eu moro, muitos pais não conseguem dar uma boa alimentação para seus filhos. Mas cheguei até isto porque tenho filhos e eu adoro cozinhar para eles. Então nós começamos a ajudar escolas a criarem seus próprios jardins onde as crianças poderiam plantar. Começamos a organizar oficinas onde as crianças poderiam cozinhar. Foi uma ação que começou com esta dimensão positiva da comida. Também precisamos incorporar a dimensão criativa e imaginativa das coisas, porque se iniciarmos da perspectiva cognitiva, trata-se de separar as coisas, analisá-las. Porém, imaginação e criatividade são sobre unir as coisas em novas formas, pensar novas formas de fazer as coisas. Então, se pudermos unir o efetivo/emocional com o criativo/imaginativo, parece-me uma maneira melhor de começar, pois o ponto de partida é uma energia positiva que nos atrai, em vez de um problema com o qual nos preocupamos e precisamos fazer algo a respeito. Nem sempre é bom ser impulsionado pelo que sentimos raiva ou preocupação e então tentar lidar com isso racionalmente. A terceira coisa que aprendi com Schumacher foi que somos ensinados a nos ver como separados, observador e objeto, e que estamos tentando fazer algo para o mundo. Aqui na escola exploramos formas diferentes de ver o mundo não como separado, mas com o que estamos intimamente conectados e relacionados, seja através da fenomenologia, práticas contemplativas, ecologia profunda, a construção social (ramo da psicologia que fala sobre como criamos significado juntos e como nos desenvolvemos a partir da nossa relação com os outros), enfim, práticas que exploram esta conexão que temos com os outros e com o mundo. Acho que este é um conjunto de práticas com o qual nós podemos começar e que se torna a base do que fazemos ou do que nos atrai. Então nós podemos trazer o lado cognitivo, o pensamento complexo, o pensamento sistêmico, o plano de negócios, abrir uma empresa, fazer um projeto, mas temos que começar nestes outros lugares para que o que façamos tenha mais vida.

Como você reúne pessoas em torno de uma ideia ou projeto?
Tim Crabtree: Acho que é muito fácil ter uma ideia para um projeto, o desafio é como você reúne pessoas em torno desta ideia para que ela se torne um projeto compartilhado, um esforço compartilhado. Quando eu lembro os trabalhos que fiz, eles começaram com uma ideia. Uma que eu tive foi criar um centro para comida local onde eu moro. Então, nós alugamos um prédio, levantamos recursos financeiros, renovamos o prédio, criamos uma cozinha comercial e a nossa ideia era que os fazendeiros locais viriam até o prédio e transformariam seus produtos em outros alimentos. Nós vimos esta ideia funcionando muito bem nos Estados Unidos e pensamos que poderíamos fazê-la funcionar na Inglaterra. Então conseguimos o prédio, montamos a cozinha e ninguém veio. Bem, algumas pessoas vieram, mas não o suficiente para pagar o aluguel. Então começamos a pensar no que mais poderíamos fazer com a cozinha. Já estávamos trabalhando com escolas e uma das coisas que não se ensina na escola fundamental é cozinhar. Então decidimos começar a fazer aulas de culinária para crianças. Isto começou a funcionar muito bem e levou a mais conversas com crianças, pais e professores. Nestas conversas, surgiu a questão de que nestas escolas em Dorset, não há cozinha para fazer almoço quente para os estudantes. Crianças de família com baixa renda recebiam um almoço embalado, como sanduíche, e era horrível, feito em Londres e depois carregado por 140 milhas e as crianças não queriam aquela comida. Então nós pensamos que poderíamos usar a cozinha que montamos para fazer um almoço simples, como sopa e pães [lá na Inglaterra é costume almoçar sopa com pão] e começamos a tentar e se tornou popular. Isto levou a mais conversas sobre como nós poderíamos fazer isso em mais escolas e se poderíamos fazer mais do que sopa. Então, de repente, o governo fez uma mudança na política pública que obrigava escolas a oferecer refeições quentes e precisavam cumprir padrões nutricionais. Isto foi um problema duplo: as escolas com as quais tínhamos contato não tinham cozinha para fazer estas refeições quentes e as sopas que fazíamos não atendiam ao padrão nutricional exigido pelo governo. Então reunimos os diretores de oito escolas e dissemos: “por que não criamos um empreendimento social que faça refeições escolares para suas escolas?”. A alternativa era que eles teriam que ter um contrato com uma fábrica que ficava a 200km de distância e fazia refeições congeladas e a ideia era que as refeições seriam transportadas e esquentadas em micro-ondas nas escolas. Nenhum dos pais, professores e crianças quis isso. Então eles ficaram entusiasmados com a ideia de criar um empreendimento social. Conseguimos arrecadar mais dinheiro, montamos uma segunda cozinha no centro para comida local. Hoje, oito anos depois, a empresa possui saldo positivo e tem um volume de negócios de 1 milhão de libras por ano, empresa 30 pessoas e trabalha com 33 escolas. Quando olho para trás, esta empresa começou porque a ideia original do centro de comida local para fazendeiros não funcionou e por meio de conversas aleatórias e eventos, ela evolui de outra forma. Para mim isto é uma lição. É fácil ter uma ideia e dizer “eu farei isto”, mas, na verdade, sua ideia não vai funcionar exatamente como planejada, então é necessário perceber que o processo mais importante precisa estar aberto a conversas, tentar criar o máximo de conexões possível com as pessoas da comunidade para que você esteja aberto a possibilidades, porque você não tem como prever quais serão estas possibilidades, mas se você cria espaço para estas conversas, você tenta ao máximo criar conexões que possam levar a algo e algo vai surgir, mas você não necessariamente sabe o que é.
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Os fascínios naturais da serra catarinense

Por Letícia Maria Klein •
24 abril 2017
Neste fim de semana com feriado de Tiradentes, fizemos um passeio muito gostoso, com direito a frio, fogão a lenha a paisagens naturais belíssimas. Fui com meu noivo e um casal de amigos para Urubici, na serra catarinense, uma das cidades mais frias do estado (no domingo de manhã, estava 4ºC!). A cidade é repleta de belezas naturais, rodeada por montanhas.

Alugamos uma casa charmosa e aconchegante no sítio "Segredos da serra". No primeiro dia, visitamos o Morro do Campestre, famoso pela linda vista do pôr do sol. Sua formação rochosa de arenito tem 1.380 metros de altitude e de cima pode-se ver quase todo o vale do Rio Canoas. Veículos com tração nas quatro rodas podem ir até o topo, se não é preciso subir mais ou menos um quilômetro a pé. Subimos de carro e depois percorremos a trilha até as rochas mais altas. Que vista e que aventura!



A cidade de Urubici é pequena, mas tem vários restaurantes e todos estavam abertos no feriado. Almoçamos no Restaurante do Sesc e jantamos no pub Barba Negra, ambos muito bons e com opções vegetarianas. Como alugamos uma casa, levamos comida para os cafés da manhã e o outro jantar (todos veganos para mim: bolinho de casca de banana, pão sírio, geleias, pasta de castanha de caju, pãezinhos do amor de batata, pasta sem ovo com alho e óleo e ao sugo, hmmmmm, tudo muito gostoso).

Lado em que põe o sol

A noite de sexta exibiu um céu exuberante, que eu só tinha visto na Schumacher College, na Inglaterra. Um céu daqueles tão cheio de estrelas e tão brilhante que parece que vai te engolfar. É deslumbrante, magnífico, de tirar o fôlego! Minha amiga nunca tinha visto um céu assim, que centros urbanos com muita iluminação artificial não nos permitem ver, o que é uma grande tristeza.

Formação rochosa no topo do morro

No sábado de manhã entramos no Parque Nacional São Joaquim, subindo o Morro da Igreja (um dos pontos mais altos do estado) para avistar a Pedra Furada. O parque tem 49.800 hectares e foi criado em julho de 1961 para proteger remanescentes de Matas de Araucárias, típicas da Mata Atlântica. Não se paga ingresso para visitar o parque, mas é preciso retirar uma autorização na sede do ICMBio em Urubici. No nosso caso, a proprietária do sítio retirou a autorização para nós. É bom ir cedo ao local para não ficar muito tempo na fila (a entrada de veículos é liberada conforme a saída e é permitido ficar 20 minutos no topo do morro).

Pedra Furada ao fundo, à esquerda

Na saída do parque, viramos à esquerda para visitar a cascata Véu de Noiva, bem bonita. Em seguida visitamos a Serra do Corvo Branco, que foi aberta para fazer a rodovia SC-370 e recebeu seu nome em homenagem ao urubu-rei branco, ave rara. Também é possível avistar aflorações do aquífero Guarani na rocha. Na volta para casa, passamos pela Gruta da Nossa Senhora e pelas cavernas Rio dos Bugres (este local e o Morro do Campestre são propriedades privadas, então paga-se uma taxa para entrar). As cavernas foram abrigadas por índios e na visita é bom usar lanterna.

Corte na rocha

Vista da Serra do Corvo Branco

O retorno a Blumenau foi pela Serra do Rio do Rastro, um dos cartões-postais de Santa Catarina, que é cortada pela rodovia SC-390. Um mirante a 1.460 metros, antes de começar a descer a serra, rende uma vista memorável (segundo imagens impressas de lá e da internet, pois havia muita serração enquanto estávamos lá no topo e não deu para comprovar). Conseguimos ver só um pedaço mais abaixo, mas depois que começamos a descer o tempo clareou e deu para apreciar a paisagem. As curvas são bem sinuosas, mas a estrada é segura e o trajeto passa rápido.

No próximo feriado, de 1º de maio, a previsão é de ainda mais frio, o que vai atrair ainda mais visitantes. Com certeza uma região para ser visitada uma, duas, várias vezes, para se encantar com a natureza e ficar bem pertinho dela.
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O que é ciência holística e como podemos aplicá-la na nossa vida

Por Letícia Maria Klein •
11 abril 2017
Mais uma série para o canal do Sustenta Ações no Youtube! Lembra que eu disse no último vídeo da série sobre a Schumacher College que voltava com novidades? Então aqui estou, começando uma segunda série sobre a escola intitulada “Da Schumacher para o mundo”. O intuito é mostrar um pouco do que é debatido e conversado nos cursos e também em relação a modos de vida sustentável, servindo de exemplo e inspiração para quem quiser novos hábitos e pensamentos. O vídeo está aqui embaixo e as entrevistas completas com o coordenador e professor Stephan Harding e o professor Philip Franses, do mestrado em Ciência Holística, logo em seguida. Vale muito a pena conferir o que esses dois têm a dizer! Depois me conta o que achou!


A foto de capa do vídeo é da mandala que fizemos com elementos naturais
durante uma das últimas aulas do curso de Ciência Holística

Como a ciência tradicional contribui para a crise ambiental e qual a importância da ciência holística neste contexto?
Stephan Harding: Acho que a principal contribuição da ciência tradicional para a crise ecológica é nos dizer que a Terra, o universo, os organismos não são nada mais que meras máquinas. Então, o que a ciência tem feito é remover a alma da natureza. Assim, não existe significado, não há propósito na natureza, organismos são apenas objetos mecânicos, basicamente mecanismos complicados, sem um “eu” próprio ou uma personalidade deles mesmos. Com a Terra é a mesma coisa. A Terra é só um conjunto de feedbacks e interações cegos e sem significado. E o universo é a mesma coisa. Então, é claro que se você vive num mundo assim, significa que você pode fazer, mais ou menos, o que quiser ao mundo natural. Você pode explorá-lo como quiser, pode fazer vivissecação, manipulação genética, lançar gás carbônico na atmosfera; estas coisas não importam porque todas estas entidades estão mortas. Apesar desta visão ter trazido benefícios, tendo nos ajudado a desenvolver tecnologias e discernimentos sobre como a natureza é estruturada, o principal problema desta visão é que ela perdeu a dimensão íntima da natureza. E, claro, a ciência é tão influente que esta visão de mundo mecanicista não se restringiu a ela, mas se espalhou para toda a cultura. Então, toda a cultura está, eu diria, contaminada de uma certa forma por esta visão errônea da natureza. Economia, educação, agricultura, assistência médica, tudo está contaminado por esta visão mecanicista da vida. Então, o que a ciência holística pode fazer? Em ciência holística, nós vemos como organismos são agentes. Eles têm sua própria atuação. Eles têm sua própria alma, sua própria personalidade. E nós desenvolvemos uma forma de sintonizar com esta personalidade nos organismos vivos, na Terra e no universo através do cultivo da percepção intuitiva, mas muito baseado no que conhecemos da ciência sobre os organismos, a Terra e o universo. Então, não se trata de descartar o que aprendemos com a ciência, e sim expandir o nosso entendimento científico com a habilidade de perceber personalidades na natureza. A natureza é repleta de personalidade, de significado e de propósito. A natureza se cria a partir de si mesma de formas significativas e isto acontece no nível de moléculas, organismos, ecossistemas, planetas e universos. Chama-se ciência holística porque reúne razão, de um lado, e uma percepção mais poética da natureza. E o que emerge daí é significado e identidade dentro do contexto científico.

O que significa ver a ciência de forma holística?
Philip Franses: Meu primeiro entendimento de uma visão holística da ciência foi quando eu estava numa livraria entre as estantes de ciência e teologia e eu percebi que você não conseguiria entender a ciência como uma disciplina separada; você tinha que entendê-la em relação à teologia, particularmente, mas também em relação à vida. Então, para mim, uma visão holística da ciência é aquela que não se divorcia e não se separa do que significa estar vivo. A questão sobre quem sou ou sobre o que significa estar vivo é a mesma que fazemos na ciência. Uma visão holística da ciência é a que entende que existe unidade no mundo e a ciência está nos ajudando a entender nossa relação com esta unidade.

Quais os ensinamentos da ciência holística?
Philip Franses: Um dos grandes ensinamentos da ciência holística é viver sem certeza. Uma das marcas registradas da ciência clássica é a de que podemos conhecer o mundo de certeza, há leis fixas e podemos viver nossa vida de acordo com a previsão do tempo, de acordo com as predições da economia, de acordo com invenções tecnológicas. Mas a teoria complexa e a teoria quântica nos mostram que precisamos valorizar a liberdade e isso é verídico em qualquer organização, em qualquer sistema vivo ou em qualquer linguagem. Quando há liberdade, há mais possibilidades, pois a liberdade te dá mais possibilidades de surgimento de significados para um sistema. Não é apenas seguir uma rotina morta ou instruções mortas. Então, para mim, [um dos ensinamentos da ciência holística] é este entendimento de que o mundo não é determinado, de como abraçar a liberdade e como entender que você deve encontrar significado dinamicamente no mundo, seja trabalhando numa organização, escrevendo uma história, viajando ou seguindo seu trajeto de vida. Liberdade é muito importante.

Como usar a perspectiva da ciência holística nas nossas vidas?
Philip Franses: Hoje, nós pensamos que ciência tem a ver com desenvolver tecnologias, tornar a vida mais fácil, trazer alguém do outro lado do mundo, esquentar seu jantar no micro-ondas. A nossa relação com a ciência é muito passiva. Nós permitimos que o entendimento que temos faça coisas para nós que são atalhos em nossa relação com o mundo. Claro que muito disso tem sido bem valioso, mas para mim, o que a ciência holística traz não é sobre como usamos a ciência para nosso próprio benefício, mas como nós melhor entendemos o mundo onde vivemos e como ela melhor nos permite criar coerência e forma, particularmente, no que estamos fazendo. Então, por exemplo, a ciência holística nos ensina como a forma surge na natureza de uma maneira holística. Portanto, como uma árvore expressa seu caráter essencial e isso não significa tentar pegar um atalho para entender o que as proteínas fazem ou que as células fazem, mas como elas expressam seu caráter essencial de ser uma castanheira ou um carvalho. Da mesma forma, a ciência holística nos permite trabalhar a questão de como nos tornamos nós mesmos verdadeiramente e o que significa nós nos tornarmos nós mesmos verdadeiramente neste mundo. Não é uma tarefa fácil, mas temos que trabalhá-la. É uma tarefa que existe no mundo, não é uma tarefa em que podemos ir à igreja e achar uma resposta num domingo e voltar ao trabalho na segunda. É algo que precisamos trabalhar o tempo todo.

Como você desenvolveu a ciência holística ao longo de sua vida?
Philip Franses: Na época, quando eu estava na livraria, eu era programador de computadores. Depois daquela experiência, eu passei a desenvolver programas que eram bem holísticos, que tentavam coordenar as escolhas de planejamento de uma organização. Eu costumava chamar isto de unidade de propósito: como você apoia a unidade de propósito em uma organização por meio do entendimento, primeiramente, do que une todos na organização e, em segundo, por meio do desenvolvimento de um software que suporte esta visão de que todos estão trabalhando para atingir o mesmo objetivo. Então, este anseio por unidade é algo que está em mim, não foi algo que eu descobri na ciência. A ciência holística está perguntando como podemos trazer a ciência tradicional para o holismo, para o todo. Ensinar aqui na faculdade e em outros lugares no exterior tem sido uma chance para desafiar esta noção de que podemos fragmentar o mundo cada vez mais sem qualquer tipo de custo ou sem levar em conta o que estamos fazendo. Quanto mais eu entendia este processo no mundo, mais eu entendia este processo em mim mesmo. A nossa tarefa é permitir que o todo reapareça tanto no mundo, através da ciência, e na minha própria vida. É preciso disciplina para ir além de ver a si mesmo simplesmente como uma entidade separada no mundo, mas encontrar uma forma de responder e estar com o mundo holisticamente.

Como as pessoas podem ter uma vida holística?
Stephan Harding: A questão chave para viver de maneira holística é trabalhar a si mesmo para perceber até que ponto você está ou não sendo controlado por esta visão mecanicista de mundo. Acho que todos nós estamos, inclusive bastante. E então trabalhar aos poucos ou rapidamente para dissolver esta visão de mundo e começar a perceber uma visão mais antiga de mundo, que é a do universo e da natureza como um todo, como um grande ser vivo cheio de significado, de propósito, de personalidade e de mistério. Todos os melhores cientistas fazem isso, de qualquer forma. Mas acho que é isso que uma pessoa pode fazer para desenvolver uma vida holística. Desenvolver um senso experiencial de pertencimento dentro do organismo da Terra e dentro do organismo do seu ecossistema local. E eu acho que isso naturalmente leva a pessoa a consumir menos para não prejudicar o grande organismo vivo do qual somos parte. Então a pessoa começa a pensar com cuidado antes de comprar qualquer coisa ou viajar para qualquer lugar. Em outras palavras, você se torna muito mais local e claro que isso envolve criar comunidade com pessoas que vivem ao seu redor e com os mais que humanos que vivem ao seu redor (as pedras, o ar, a água, todos os seres vivos, os ecossistemas). Viver holisticamente significa descobrir sua própria sabedoria ecológica profunda, nutrir e ajudar a criar um senso de comunidade e, em terceiro, por causa dos dois primeiros, a pessoa iria natural e espontaneamente consumir muito menos e apoiar a criação da economia local muito mais.

Como você faz isso na sua rotina?
Stephan Harding: Para mim é fácil, pois eu vivo e trabalho aqui na Schumacher College. Apesar de ter um carro, quase nunca o uso. Eu parei de viajar em grande parte e eu realmente penso muito antes de comprar qualquer coisa. Eu tento reparar, reutilizar e reciclar o máximo possível. Eu tenho relações de amor muito poderosas com todos os organismos ao meu redor, com as árvores, com as aves, com a terra, os fungos, o solo, o ar, as pedras. Eu cultivo uma relação de amor profunda com eles e com as pessoas ao meu redor aqui na comunidade. Mas, mais importante, eu estou continuamente trabalhando em mim mesmo para descobrir minha própria conexão com a sabedoria profunda que está ali mesmo no cerne da matéria, no cerne do universo.
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Meditação e seus reflexos no ambiente

Por Letícia Maria Klein •
27 março 2017
As relações de alguém com os outros e o ambiente onde vive é um reflexo da sua relação consigo mesmo. Venho pensando sobre isso faz um tempo e percebi que se a pessoa está mal consigo mesmo, a chance dela não se preocupar com outras pessoas, outros seres e o local que habita aumenta consideravelmente. Quanto melhor eu estou comigo mesma, com mais saúde e bem-estar, melhor minha relação com as pessoas do meu convívio e melhor minha relação com o planeta. Se eu estou mal, em estado depressivo, doente, sem respeito e amor próprio, que diferença faz se eu jogar alguma coisa no chão ou brigar com alguém? Faz sentido, né?

Satish Kumar, cofundador da Schumacher College, fala em cuidar de si, cuidar do outro, cuidar do meio (soil, soul, society - solo, alma e sociedade). Mahatma Gandhi disse que a mudança deve começar em cada um. Ensinamentos como esses mostram a importância, ou melhor, a necessidade, de cuidarmos de nós mesmos mental, espiritual e fisicamente para que também possamos cuidar bem da família, dos amigos, dos outros seres, dos bens naturais e do meio onde vivemos. E quando o meio em que vivemos está bem cuidado e mantemos relações harmônicas e amorosas com nossos entes queridos, acabamos querendo cuidar ainda mais de nós mesmos. São relações de feedback positivo, que se reforçam mutuamente. Uma bola de neve do bem!



Ter uma alimentação saudável, fazer exercícios físicos e intelectuais, realizar leituras edificantes e ouvir música boa são exemplos de cuidados consigo mesmo. Neste post quero falar de uma prática que comecei a fazer quando estava na Schumacher College e que incorporei à minha rotina quando voltei: meditação. Sempre tive curiosidade em relação ao que é meditação, como fazer, quais os resultados, mas estava naquele grupo de pessoas que achava que meditação é não pensar em nada. Não é bem assim. Na verdade, é muito mais do que isso e pode levar bastante tempo para que se chegue ao estado meditativo a la monges.

A Robin, acadêmica egressa da Schumacher e que estava trabalhando como auxiliar dos professores no curso, é psicóloga e terapeuta e me deu uma aulinha sobre meditação. Minha primeira dúvida foi: como não pensar em nada? Daí veio toda a explicação. Um dos objetivos da meditação é o foco no agora, no presente. Ter consciência plena de si mesmo naquele momento, prestar atenção no próprio corpo, na respiração e se acalmar. Devido à ansiedade generalizada, à nossa agenda corrida e a vários outros fatores, os pensamentos vão surgindo, claro, o que acaba nos deixando mais ansiosos e faz com que muitos desistam da prática logo no começo.

O segredo está, segundo a Robin, em agradecer o pensamento quando ele vem e deixá-lo ir embora, dizendo, por exemplo, “obrigada, pensamento, mas agora não é momento” e então voltar o foco para o presente e si mesmo. Assim devemos proceder com todos os pensamentos que chegam, sempre os deixando ir e nunca nos apegando a eles. Quanto mais se faz, mais fácil vai ficando. O que também se indica é, quando um pensamento chegar, “dizer” na mente a palavra “pensando”, como um mantra. Isso porque, se você está focado no mantra, não pensa em outra coisa.



Além da conversa esclarecedora que tive com ela, encontrei uma revista temática sobre meditação durante uma das faxinas de ano novo depois da volta pra casa. Foi o que faltava para eu começar a meditar na minha rotina. Tenho feito três vezes por semana (nos dois dias em que tenho natação de manhã eu não faço, pois acordo bem cedo), por nove minutos (o tempo da soneca do celular). Sento geralmente numa almofada no chão, com as pernas cruzadas (existem várias posições de meditação, na verdade, até caminhando) e me concentro bastante na respiração e na postura. Pensamentos vêm, mas deixo-os ir e por vezes consigo focar inteiramente naquele momento, sem pensar em nada em particular, apenas respirando, sentido e ouvindo, com foco total.

Tenho gostado bastante da experiência e sinto falta nos dias em que não pratico. É uma forma de me conectar comigo mesma e me acalmar, pois o silêncio que eu tinha na escola tem me feito muita falta nesta cidade, grande para mim. São alguns minutos que me ajudam a despertar e me preparar para o dia que inicia. Com o tempo, vou aumentando o tempo de meditação. Na Schumacher, a prática era de 30 minutos e tem pessoas que ficam até uma hora meditando, talvez mais. Pode levar anos até que se consiga chegar no estado meditativo descrito pelos orientais como aquele em que a pessoa se conecta com o todo e tudo. É o nirvana, “um estado de paz e tranqüilidade alcançado através da sabedoria”, segundo a monja Coen Murayama, da Comunidade Zen-Budista de São Paulo.

Por possibilitar uma forte conexão consigo mesmo, a meditação é uma terapia, pois nos ajuda a identificar problemas que temos (e que às vezes queremos esconder) e dificuldades pessoais que precisamos superar. Além disso, por ajudar a aumentar a concentração, manter o foco e ficar mais atento, tanto no momento da prática quando ao longo do dia, a meditação é fantástica para atingir e manter o bem-estar pessoal e nos orientar para relações mais harmônicas e amorosas com os outros e o ambiente. Estou amando e recomendo de olhos fechados, sem nem pensar (o trocadilho foi inevitável). Dê uma chance! Ou várias! Quem sabe era o que você estava procurando para começar a mudar?
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Sustentabilidade para jovens espíritas no Carnaval

Por Letícia Maria Klein •
01 março 2017
Este ano foi o primeiro que passei o feriado de Carnaval num evento espírita (já comentei algumas vezes aqui que sigo a doutrina) e foi a melhor forma de celebrar esta data! (Na verdade, nunca participei de festa; não gosto por vários motivos, inclusive ambientais). Foi a primeira vez também que estive em um evento para jovens espíritas e foi como facilitadora de um grupo na faixa etária de 15 a 17 anos. O tema, claro, só podia ter a ver com sustentabilidade: “Ser sustentável: amor de cocriador”, que estudamos por um ano antes do evento.

A CONJESC – Confraternização de Jovens Espíritas de Santa Catarina é realizada a cada dois anos, sempre no Carnaval. Nos anos em que não ocorre são realizados outros eventos espíritas locais ou regionais. Quando eu soube que o tema seria ecologia e Espiritismo, ofereci-me para participar da organização e em todos os meses de 2016 a equipe se reuniu em Balneário Camboriú para estudar o tema e planejar o evento (participei até agosto, quando viajei para a Schumacher College).

Durante os três dias do evento, que aconteceu em Lages, a equipe pedagógica se dividiu em trios e ficou responsável por uma turma, com faixa etária determinada (havia jovens de 12 a 25 anos, divididos em grupos de mais ou menos 20 pessoas). Além de facilitadora do grupo 8, com 18 jovens, ministrei uma oficina de soluções caseiras para 22 pessoas. Nos grupos, cada facilitador ficou responsável por aplicar três técnicas que abordavam ecologia, sustentabilidade e Espiritismo. Na oficina, fizemos um minhocário e a pasta de dente caseira, ambos sorteados ao final, e passei outras dicas para limpeza e higiene sustentáveis.

Simplesmente adorei! Foi uma experiência fantástica, enriquecedora e gratificante. Aprendi muito com meus colegas facilitadores Malu e Vini e com jovens tão espertos, sinceros e determinados. Foram mais de 80 trabalhadores, todos empenhados em oportunizar momentos de aprendizado, emoção e alegria com mensagens de amor, respeito e cuidado com os outros seres vivos e elementos da teia da vida, preservando assim o nosso planeta.

Foto oficial do evento. Estou bem no fundo, de blusa lilás.
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