O que é ciência holística e como podemos aplicá-la na nossa vida

Por Letícia Maria Klein •
11 abril 2017
Mais uma série para o canal do Sustenta Ações no Youtube! Lembra que eu disse no último vídeo da série sobre a Schumacher College que voltava com novidades? Então aqui estou, começando uma segunda série sobre a escola intitulada “Da Schumacher para o mundo”. O intuito é mostrar um pouco do que é debatido e conversado nos cursos e também em relação a modos de vida sustentável, servindo de exemplo e inspiração para quem quiser novos hábitos e pensamentos. O vídeo está aqui embaixo e as entrevistas completas com o coordenador e professor Stephan Harding e o professor Philip Franses, do mestrado em Ciência Holística, logo em seguida. Vale muito a pena conferir o que esses dois têm a dizer! Depois me conta o que achou!


A foto de capa do vídeo é da mandala que fizemos com elementos naturais
durante uma das últimas aulas do curso de Ciência Holística

Como a ciência tradicional contribui para a crise ambiental e qual a importância da ciência holística neste contexto?
Stephan Harding: Acho que a principal contribuição da ciência tradicional para a crise ecológica é nos dizer que a Terra, o universo, os organismos não são nada mais que meras máquinas. Então, o que a ciência tem feito é remover a alma da natureza. Assim, não existe significado, não há propósito na natureza, organismos são apenas objetos mecânicos, basicamente mecanismos complicados, sem um “eu” próprio ou uma personalidade deles mesmos. Com a Terra é a mesma coisa. A Terra é só um conjunto de feedbacks e interações cegos e sem significado. E o universo é a mesma coisa. Então, é claro que se você vive num mundo assim, significa que você pode fazer, mais ou menos, o que quiser ao mundo natural. Você pode explorá-lo como quiser, pode fazer vivissecação, manipulação genética, lançar gás carbônico na atmosfera; estas coisas não importam porque todas estas entidades estão mortas. Apesar desta visão ter trazido benefícios, tendo nos ajudado a desenvolver tecnologias e discernimentos sobre como a natureza é estruturada, o principal problema desta visão é que ela perdeu a dimensão íntima da natureza. E, claro, a ciência é tão influente que esta visão de mundo mecanicista não se restringiu a ela, mas se espalhou para toda a cultura. Então, toda a cultura está, eu diria, contaminada de uma certa forma por esta visão errônea da natureza. Economia, educação, agricultura, assistência médica, tudo está contaminado por esta visão mecanicista da vida. Então, o que a ciência holística pode fazer? Em ciência holística, nós vemos como organismos são agentes. Eles têm sua própria atuação. Eles têm sua própria alma, sua própria personalidade. E nós desenvolvemos uma forma de sintonizar com esta personalidade nos organismos vivos, na Terra e no universo através do cultivo da percepção intuitiva, mas muito baseado no que conhecemos da ciência sobre os organismos, a Terra e o universo. Então, não se trata de descartar o que aprendemos com a ciência, e sim expandir o nosso entendimento científico com a habilidade de perceber personalidades na natureza. A natureza é repleta de personalidade, de significado e de propósito. A natureza se cria a partir de si mesma de formas significativas e isto acontece no nível de moléculas, organismos, ecossistemas, planetas e universos. Chama-se ciência holística porque reúne razão, de um lado, e uma percepção mais poética da natureza. E o que emerge daí é significado e identidade dentro do contexto científico.

O que significa ver a ciência de forma holística?
Philip Franses: Meu primeiro entendimento de uma visão holística da ciência foi quando eu estava numa livraria entre as estantes de ciência e teologia e eu percebi que você não conseguiria entender a ciência como uma disciplina separada; você tinha que entendê-la em relação à teologia, particularmente, mas também em relação à vida. Então, para mim, uma visão holística da ciência é aquela que não se divorcia e não se separa do que significa estar vivo. A questão sobre quem sou ou sobre o que significa estar vivo é a mesma que fazemos na ciência. Uma visão holística da ciência é a que entende que existe unidade no mundo e a ciência está nos ajudando a entender nossa relação com esta unidade.

Quais os ensinamentos da ciência holística?
Philip Franses: Um dos grandes ensinamentos da ciência holística é viver sem certeza. Uma das marcas registradas da ciência clássica é a de que podemos conhecer o mundo de certeza, há leis fixas e podemos viver nossa vida de acordo com a previsão do tempo, de acordo com as predições da economia, de acordo com invenções tecnológicas. Mas a teoria complexa e a teoria quântica nos mostram que precisamos valorizar a liberdade e isso é verídico em qualquer organização, em qualquer sistema vivo ou em qualquer linguagem. Quando há liberdade, há mais possibilidades, pois a liberdade te dá mais possibilidades de surgimento de significados para um sistema. Não é apenas seguir uma rotina morta ou instruções mortas. Então, para mim, [um dos ensinamentos da ciência holística] é este entendimento de que o mundo não é determinado, de como abraçar a liberdade e como entender que você deve encontrar significado dinamicamente no mundo, seja trabalhando numa organização, escrevendo uma história, viajando ou seguindo seu trajeto de vida. Liberdade é muito importante.

Como usar a perspectiva da ciência holística nas nossas vidas?
Philip Franses: Hoje, nós pensamos que ciência tem a ver com desenvolver tecnologias, tornar a vida mais fácil, trazer alguém do outro lado do mundo, esquentar seu jantar no micro-ondas. A nossa relação com a ciência é muito passiva. Nós permitimos que o entendimento que temos faça coisas para nós que são atalhos em nossa relação com o mundo. Claro que muito disso tem sido bem valioso, mas para mim, o que a ciência holística traz não é sobre como usamos a ciência para nosso próprio benefício, mas como nós melhor entendemos o mundo onde vivemos e como ela melhor nos permite criar coerência e forma, particularmente, no que estamos fazendo. Então, por exemplo, a ciência holística nos ensina como a forma surge na natureza de uma maneira holística. Portanto, como uma árvore expressa seu caráter essencial e isso não significa tentar pegar um atalho para entender o que as proteínas fazem ou que as células fazem, mas como elas expressam seu caráter essencial de ser uma castanheira ou um carvalho. Da mesma forma, a ciência holística nos permite trabalhar a questão de como nos tornamos nós mesmos verdadeiramente e o que significa nós nos tornarmos nós mesmos verdadeiramente neste mundo. Não é uma tarefa fácil, mas temos que trabalhá-la. É uma tarefa que existe no mundo, não é uma tarefa em que podemos ir à igreja e achar uma resposta num domingo e voltar ao trabalho na segunda. É algo que precisamos trabalhar o tempo todo.

Como você desenvolveu a ciência holística ao longo de sua vida?
Philip Franses: Na época, quando eu estava na livraria, eu era programador de computadores. Depois daquela experiência, eu passei a desenvolver programas que eram bem holísticos, que tentavam coordenar as escolhas de planejamento de uma organização. Eu costumava chamar isto de unidade de propósito: como você apoia a unidade de propósito em uma organização por meio do entendimento, primeiramente, do que une todos na organização e, em segundo, por meio do desenvolvimento de um software que suporte esta visão de que todos estão trabalhando para atingir o mesmo objetivo. Então, este anseio por unidade é algo que está em mim, não foi algo que eu descobri na ciência. A ciência holística está perguntando como podemos trazer a ciência tradicional para o holismo, para o todo. Ensinar aqui na faculdade e em outros lugares no exterior tem sido uma chance para desafiar esta noção de que podemos fragmentar o mundo cada vez mais sem qualquer tipo de custo ou sem levar em conta o que estamos fazendo. Quanto mais eu entendia este processo no mundo, mais eu entendia este processo em mim mesmo. A nossa tarefa é permitir que o todo reapareça tanto no mundo, através da ciência, e na minha própria vida. É preciso disciplina para ir além de ver a si mesmo simplesmente como uma entidade separada no mundo, mas encontrar uma forma de responder e estar com o mundo holisticamente.

Como as pessoas podem ter uma vida holística?
Stephan Harding: A questão chave para viver de maneira holística é trabalhar a si mesmo para perceber até que ponto você está ou não sendo controlado por esta visão mecanicista de mundo. Acho que todos nós estamos, inclusive bastante. E então trabalhar aos poucos ou rapidamente para dissolver esta visão de mundo e começar a perceber uma visão mais antiga de mundo, que é a do universo e da natureza como um todo, como um grande ser vivo cheio de significado, de propósito, de personalidade e de mistério. Todos os melhores cientistas fazem isso, de qualquer forma. Mas acho que é isso que uma pessoa pode fazer para desenvolver uma vida holística. Desenvolver um senso experiencial de pertencimento dentro do organismo da Terra e dentro do organismo do seu ecossistema local. E eu acho que isso naturalmente leva a pessoa a consumir menos para não prejudicar o grande organismo vivo do qual somos parte. Então a pessoa começa a pensar com cuidado antes de comprar qualquer coisa ou viajar para qualquer lugar. Em outras palavras, você se torna muito mais local e claro que isso envolve criar comunidade com pessoas que vivem ao seu redor e com os mais que humanos que vivem ao seu redor (as pedras, o ar, a água, todos os seres vivos, os ecossistemas). Viver holisticamente significa descobrir sua própria sabedoria ecológica profunda, nutrir e ajudar a criar um senso de comunidade e, em terceiro, por causa dos dois primeiros, a pessoa iria natural e espontaneamente consumir muito menos e apoiar a criação da economia local muito mais.

Como você faz isso na sua rotina?
Stephan Harding: Para mim é fácil, pois eu vivo e trabalho aqui na Schumacher College. Apesar de ter um carro, quase nunca o uso. Eu parei de viajar em grande parte e eu realmente penso muito antes de comprar qualquer coisa. Eu tento reparar, reutilizar e reciclar o máximo possível. Eu tenho relações de amor muito poderosas com todos os organismos ao meu redor, com as árvores, com as aves, com a terra, os fungos, o solo, o ar, as pedras. Eu cultivo uma relação de amor profunda com eles e com as pessoas ao meu redor aqui na comunidade. Mas, mais importante, eu estou continuamente trabalhando em mim mesmo para descobrir minha própria conexão com a sabedoria profunda que está ali mesmo no cerne da matéria, no cerne do universo.
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Meditação e seus reflexos no ambiente

Por Letícia Maria Klein •
27 março 2017
As relações de alguém com os outros e o ambiente onde vive é um reflexo da sua relação consigo mesmo. Venho pensando sobre isso faz um tempo e percebi que se a pessoa está mal consigo mesmo, a chance dela não se preocupar com outras pessoas, outros seres e o local que habita aumenta consideravelmente. Quanto melhor eu estou comigo mesma, com mais saúde e bem-estar, melhor minha relação com as pessoas do meu convívio e melhor minha relação com o planeta. Se eu estou mal, em estado depressivo, doente, sem respeito e amor próprio, que diferença faz se eu jogar alguma coisa no chão ou brigar com alguém? Faz sentido, né?

Satish Kumar, cofundador da Schumacher College, fala em cuidar de si, cuidar do outro, cuidar do meio (soil, soul, society - solo, alma e sociedade). Mahatma Gandhi disse que a mudança deve começar em cada um. Ensinamentos como esses mostram a importância, ou melhor, a necessidade, de cuidarmos de nós mesmos mental, espiritual e fisicamente para que também possamos cuidar bem da família, dos amigos, dos outros seres, dos bens naturais e do meio onde vivemos. E quando o meio em que vivemos está bem cuidado e mantemos relações harmônicas e amorosas com nossos entes queridos, acabamos querendo cuidar ainda mais de nós mesmos. São relações de feedback positivo, que se reforçam mutuamente. Uma bola de neve do bem!



Ter uma alimentação saudável, fazer exercícios físicos e intelectuais, realizar leituras edificantes e ouvir música boa são exemplos de cuidados consigo mesmo. Neste post quero falar de uma prática que comecei a fazer quando estava na Schumacher College e que incorporei à minha rotina quando voltei: meditação. Sempre tive curiosidade em relação ao que é meditação, como fazer, quais os resultados, mas estava naquele grupo de pessoas que achava que meditação é não pensar em nada. Não é bem assim. Na verdade, é muito mais do que isso e pode levar bastante tempo para que se chegue ao estado meditativo a la monges.

A Robin, acadêmica egressa da Schumacher e que estava trabalhando como auxiliar dos professores no curso, é psicóloga e terapeuta e me deu uma aulinha sobre meditação. Minha primeira dúvida foi: como não pensar em nada? Daí veio toda a explicação. Um dos objetivos da meditação é o foco no agora, no presente. Ter consciência plena de si mesmo naquele momento, prestar atenção no próprio corpo, na respiração e se acalmar. Devido à ansiedade generalizada, à nossa agenda corrida e a vários outros fatores, os pensamentos vão surgindo, claro, o que acaba nos deixando mais ansiosos e faz com que muitos desistam da prática logo no começo.

O segredo está, segundo a Robin, em agradecer o pensamento quando ele vem e deixá-lo ir embora, dizendo, por exemplo, “obrigada, pensamento, mas agora não é momento” e então voltar o foco para o presente e si mesmo. Assim devemos proceder com todos os pensamentos que chegam, sempre os deixando ir e nunca nos apegando a eles. Quanto mais se faz, mais fácil vai ficando. O que também se indica é, quando um pensamento chegar, “dizer” na mente a palavra “pensando”, como um mantra. Isso porque, se você está focado no mantra, não pensa em outra coisa.



Além da conversa esclarecedora que tive com ela, encontrei uma revista temática sobre meditação durante uma das faxinas de ano novo depois da volta pra casa. Foi o que faltava para eu começar a meditar na minha rotina. Tenho feito três vezes por semana (nos dois dias em que tenho natação de manhã eu não faço, pois acordo bem cedo), por nove minutos (o tempo da soneca do celular). Sento geralmente numa almofada no chão, com as pernas cruzadas (existem várias posições de meditação, na verdade, até caminhando) e me concentro bastante na respiração e na postura. Pensamentos vêm, mas deixo-os ir e por vezes consigo focar inteiramente naquele momento, sem pensar em nada em particular, apenas respirando, sentido e ouvindo, com foco total.

Tenho gostado bastante da experiência e sinto falta nos dias em que não pratico. É uma forma de me conectar comigo mesma e me acalmar, pois o silêncio que eu tinha na escola tem me feito muita falta nesta cidade, grande para mim. São alguns minutos que me ajudam a despertar e me preparar para o dia que inicia. Com o tempo, vou aumentando o tempo de meditação. Na Schumacher, a prática era de 30 minutos e tem pessoas que ficam até uma hora meditando, talvez mais. Pode levar anos até que se consiga chegar no estado meditativo descrito pelos orientais como aquele em que a pessoa se conecta com o todo e tudo. É o nirvana, “um estado de paz e tranqüilidade alcançado através da sabedoria”, segundo a monja Coen Murayama, da Comunidade Zen-Budista de São Paulo.

Por possibilitar uma forte conexão consigo mesmo, a meditação é uma terapia, pois nos ajuda a identificar problemas que temos (e que às vezes queremos esconder) e dificuldades pessoais que precisamos superar. Além disso, por ajudar a aumentar a concentração, manter o foco e ficar mais atento, tanto no momento da prática quando ao longo do dia, a meditação é fantástica para atingir e manter o bem-estar pessoal e nos orientar para relações mais harmônicas e amorosas com os outros e o ambiente. Estou amando e recomendo de olhos fechados, sem nem pensar (o trocadilho foi inevitável). Dê uma chance! Ou várias! Quem sabe era o que você estava procurando para começar a mudar?
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Sustentabilidade para jovens espíritas no Carnaval

Por Letícia Maria Klein •
01 março 2017
Este ano foi o primeiro que passei o feriado de Carnaval num evento espírita (já comentei algumas vezes aqui que sigo a doutrina) e foi a melhor forma de celebrar esta data! (Na verdade, nunca participei de festa; não gosto por vários motivos, inclusive ambientais). Foi a primeira vez também que estive em um evento para jovens espíritas e foi como facilitadora de um grupo na faixa etária de 15 a 17 anos. O tema, claro, só podia ter a ver com sustentabilidade: “Ser sustentável: amor de cocriador”, que estudamos por um ano antes do evento.

A CONJESC – Confraternização de Jovens Espíritas de Santa Catarina é realizada a cada dois anos, sempre no Carnaval. Nos anos em que não ocorre são realizados outros eventos espíritas locais ou regionais. Quando eu soube que o tema seria ecologia e Espiritismo, ofereci-me para participar da organização e em todos os meses de 2016 a equipe se reuniu em Balneário Camboriú para estudar o tema e planejar o evento (participei até agosto, quando viajei para a Schumacher College).

Durante os três dias do evento, que aconteceu em Lages, a equipe pedagógica se dividiu em trios e ficou responsável por uma turma, com faixa etária determinada (havia jovens de 12 a 25 anos, divididos em grupos de mais ou menos 20 pessoas). Além de facilitadora do grupo 8, com 18 jovens, ministrei uma oficina de soluções caseiras para 22 pessoas. Nos grupos, cada facilitador ficou responsável por aplicar três técnicas que abordavam ecologia, sustentabilidade e Espiritismo. Na oficina, fizemos um minhocário e a pasta de dente caseira, ambos sorteados ao final, e passei outras dicas para limpeza e higiene sustentáveis.

Simplesmente adorei! Foi uma experiência fantástica, enriquecedora e gratificante. Aprendi muito com meus colegas facilitadores Malu e Vini e com jovens tão espertos, sinceros e determinados. Foram mais de 80 trabalhadores, todos empenhados em oportunizar momentos de aprendizado, emoção e alegria com mensagens de amor, respeito e cuidado com os outros seres vivos e elementos da teia da vida, preservando assim o nosso planeta.

Foto oficial do evento. Estou bem no fundo, de blusa lilás.
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Receitas para diminuir os resíduos e aumentar a saúde

Por Letícia Maria Klein •
07 fevereiro 2017
Desde a minha viagem para a Romênia em 2015, com direito a um intensivo na Schumacher College, minha vontade de cozinhar e praticar o “faça você mesmo” só vem aumentando. Preparar pratos, consertar roupas e objetos, fazer produtos de higiene e limpeza caseiros são ações que me conectam mais comigo mesma e com o planeta e geram vários benefícios. Quando eu compro ingredientes para fazer receitas culinárias e de produtos caseiros, eu acabo produzindo menos resíduos (principalmente quando consigo comprar a granel, levando meus potes e sacolas) e mantenho minha saúde muito bem, obrigada (orgânicos sempre têm preferência). Trocar os produtos industrializados por caseiros também faz bem para a saúde e evita a poluição de rios e mares, especialmente por causa dos microplásticos presentes nestes produtos. Consertar o que estraga aumenta a utilidade dos produtos e deixa de lado a necessidade de comprar um novo. Por isso, aqui vão algumas receitas que são minhas melhores amigas no dia a dia.

Pasta de dente caseira

2 colheres de sopa de óleo de coco
1 colher de sopa de bicarbonato de sódio
7 a 10 gotas de óleo essencial do aroma que preferir
(Receita da Lauren Singer, do Trash is for tossers)

2 colheres de sopa de óleo de coco
½ colher de café de bicarbonato de sódio
6 gotas de óleo essencial de cravo
8 gotas de óleo essencial de menta
1 colher de café de raspas de juá
(Receita da Alana Rox, do Diário de uma vegana)

Misture tudo e guarde num potinho de vidro. Como o óleo de coco solidifica abaixo de 25ºC, é só colocar na geladeira antes de usar quando o tempo estiver quente. A receita da Alana leva ingredientes com propriedades anti-inflamatórias, que são bons  para a gengiva e os dentes. Ela recomenda colocar menos bicarbonato de sódio, pois sua abrasividade pode danificar o esmalte do dente em longo prazo.



Barrinha de cereal

2 bananas amassadas
2 xícaras de aveia em flocos médios ou grossos
¼ xícara de melado
½ xícara de açúcar mascavo
¼ xícara de castanha-do-Pará
¼ xícara de castanha-de-caju
¼ xícara de amêndoa
¼ xícara de nozes
¼ de xícara de gergelim
1 colher de sopa de óleo de coco
1 colher de café de canela em pó

Esta receita foi minha amiga do trabalho que me passou. Você pode adicionar quaisquer sementes que quiser, (totalizando uma xícara) além de blueberry, cranberry ou passas, se quiser. Já fiz com e sem açúcar. Sem, a barrinha fica mais quebradiça (e menos doce), então é bom colocar mais melado ou banana para dar liga. O óleo de coco também pode ser usado para untar a forma. Rende 10 barrinhas.

Leites vegetais

Eles substituem o de origem animal e são rápidos e fáceis de fazer, além de muito nutritivos. Já fiz quatro aqui em casa: de coco, amêndoas, castanha-do-Pará e aveia. Existem outros tipos ainda, como de arroz e amendoim. Os resíduos do leite podem ser usados para fazer pães, bolos, tortas e docinhos.

Leite de castanhasAs sementes precisam sempre ficar de molho antes de serem consumidas, então deixe-as em uma vasilha com água por oito horas. Escorra a água e bata as castanhas no liquidificador com três copos de água. Depois é só usar um coador de café ou um pano fino, tipo fraldinha, para coar.

Leite de cocoEm um supermercado perto da minha casa tem uma empresa que vende água de coco direto do coco. Como eles não reaproveitam a casca, pedi alguns e me deram. Tirei a polpa de quatro cocos e bati no liquidificador com ¼ de copo de água quente. Pode usar mais se quiser um leite mais fino. Depois coei na peneira e usei para fazer esta receita deliciosa de brigaipim da Alana. A Paula Lumi, do Presunto Vegetariano, ensina a fazer este leite com coco seco.

Leite de aveia
É o mais fácil de fazer. Coloque uma xícara de aveia no liquidificador com dois copos de água e deixe por uma hora. Antes de bater, acrescente cinco pedras de gelo (para diminuir a viscosidade do leite). Depois é só passar na peneira.
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Demain, de Melanie Laurent e Cyril Dion [Resenha] - Soluções de hoje para o amanhã que queremos

Por Letícia Maria Klein •
24 janeiro 2017
Amanhã é o título de um documentário francês lançado em 2016 que aborda a crise planetária que estamos vivendo. Mas, ao contrário de outros documentários que priorizam os problemas, Demain (no original) foca as soluções que estão sendo colocadas em prática ao redor do globo para um mundo bem melhor. O filme foi produzido por Melanie Laurent e Cyril Dion, junto com um time de quatro pessoas, e rodado em 10 países.

Assisti a este documentário na Schumacher College e, quando a sessão terminou, era palpável a esperança elevada e renovada. No filme, as soluções não são simplesmente apresentadas. Elas vêm com uma história, uma narrativa relacionada ao contexto daquelas pessoas, daquelas culturas e daqueles lugares. Em cada local que a equipe gravou, somos apresentados a pessoas e organizações que estão mudando sua economia, reinventando a democracia, recriando a educação, fortalecendo a agricultura sustentável e investindo em novas fontes de energia.



O documentário é dinâmico e bem desenvolvido, dividido em cinco blocos, cada um relacionado a um tema citado acima. Em duas horas de conversas com cerca de 20 personagens e passeios pelos projetos e programas, entendemos como é um sistema alimentar justo, limpo e sem desperdício, vemos como chegar à transição energética, reaprendemos sobre economia e o poder do “localizing” (local x global), conhecemos uma nova democracia e nos encantamos com a verdadeira e criativa educação escolar.

Estas histórias e suas respostas para combater as crises ecológica, econômica e social (ou crise ambiental, pois tudo está no ambiente) são retratos dos cenários do futuro sustentável que almejamos e buscamos – e que muitos já estão construindo. Inclusive nós mesmos, em cada atitude e ação em prol de um planeta próspero. Fica claro que um dos objetivos do documentário é não apenas mostrar soluções que estão funcionando, mas também inspirar e incentivar outras pessoas e grupos a agirem em prol da sustentabilidade. E não é difícil.

Entrevistados pela equipe

Quando passeamos por uma estrada, temos uma vista do céu. Ao fazermos uma curva, aquele céu de antes já não é mais o mesmo, a vista do horizonte mudou. Assim é com a gente. Cada curva que fazemos na estrada da vida nos mostra um novo horizonte e novas formas de agir. O nosso amanhã será o reflexo do nosso hoje e das nossas atitudes no dia a dia. O site do filme até nos ajuda nisso, sugerindo mudanças que podemos fazer enquanto indivíduos, coletividade e poder público. Aqui estão elas, em tradução livre (a introdução foi resumida a partir do site):

AÇÕES INDIVIDUAIS

Cinco ações diárias que podem realmente fazer a diferença:

Coma mais alimentos orgânicos e menos carne
Por quê? A agricultura industrial tem responsabilidade pela destruição ecológica do planeta, extinção de milhares de espécies, ruína de milhões de pequenos agricultores (relatório da FAO), esgotamento dos bens hídricos e mudanças climáticas. A pecuária responde por 18% da emissão de gases de efeito estufa. Todos os anos, 65 bilhões de animais são criados em condições sofríveis ​​para o abate. Para alimentá-los, milhões de hectares de floresta são cortados para cultivar soja e milho, desgastando e poluindo o solo (por causa dos pesticidas).
Como? Cultive e aprenda sobre permacultura ou agroecologia. Em mercados e feiras, procure por pequenos produtores independentes ou lojas orgânicas, junte-se a uma associação de produtores e consumidores, participe ou crie um grupo Incredible Edible [que objetiva o ativismo alimentar e a resiliência comunitária], use sistemas diretos de abastecimento com pequenos produtores.

Opte por um fornecedor de eletricidade renovável
Por quê? Os combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás) contribuem ativamente para as mudanças climáticas. A extração vai se tornar mais cara e os preços vão aumentar, enfraquecendo drasticamente a economia. A luta pelo controle dos combustíveis fósseis é (e será) a causa de numerosos conflitos e situações geopolíticas.
Como? Instale sistemas de energia renovável em casa (painéis fotovoltaicos, minimoinhos de vento, energia geotérmica). Reduza o consumo de energia e use transportes “suaves” como a bicicleta!

Compre em lojas locais e independentes
Por quê? Estudos mostram que comprar de uma empresa local e independente cria três vezes mais empregos, o dinheiro circula três vezes mais rápido, cria três vezes mais impostos locais e trazem três vezes mais doações para as associações locais.
Como? Saiba quem é dono das empresas das quais você compra e sua política social e ambiental.

Mude seu banco
Por quê? A maioria dos bancos franceses tem filiais em paraísos fiscais, incentivando assim seus clientes a fazer o mesmo e ocultar sua fortuna. A maioria dos bancos está envolvida na especulação financeira, visivelmente sobre a fome e a maioria dos bancos franceses financia a indústria do carvão, o pior emissor de CO2.
Como? Alguns bancos são mais éticos e responsáveis [pesquise as opções brasileiras, entre bancos e cooperativas de crédito, antes de abrir uma conta].

Reduza, reutilize, repare, compartilhe, recicle
Por quê? Em todo o mundo, 10 milhões de toneladas de resíduos são descartadas todos os dias. Aterros, rios, florestas e oceanos são saturados com o desperdício dos países ocidentais. Na África, cidades inteiras estão obstruídas com computadores antigos, TVs, veículos que não usamos mais. Descartamos um terço da comida que produzimos.
Como? Compartilhar coisas ao invés de possuí-las nos permite reduzir tremendamente nossas necessidades em matérias-primas. Aprenda ou reaprenda sobre a triagem de resíduos na sua cidade. Faça compostagem (minhocário, composteira seca, sistemas de compostagem coletivo, enterrar no jardim). Compartilhe ao invés de comprar.

AÇÕES COLETIVAS

Transforme sua vizinhança, sua aldeia, sua cidade em uma horta. Como?
Crie uma comunidade de cidadãos para produzir energia renovável. Como?
Crie uma moeda complementar (local ou em sua empresa). Como?
Crie uma escola alternativa. Como?
Candidate-se ao poder público na sua cidade e obtenha o poder de volta! Como?

AÇÕES POLÍTICAS

Cinco ações que podemos repassar aos nossos representantes:

Redirecionar os subsídios agrícolas para facilitar a mudança para a agricultura orgânica, agroecologia, permacultura.
Mudar o sistema fiscal de trabalho em relação ao carbono.
Liberar a criação de moeda [local].
Criar uma segunda câmara ou senado com cidadãos selecionados aleatoriamente.
Incluir pedagogia e formação in situ no currículo dos professores.
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Vida pós-Schumacher e ação de ano novo

Por Letícia Maria Klein •
16 janeiro 2017
Feliz 2017! Passei dezembro aproveitando minhas duas últimas semanas na Schumacher College e as outras duas semanas viajando com meu namorado por algumas cidades europeias. Cheguei no Brasil no dia 1º e no dia seguinte já comecei A arrumação aqui em casa, desapegando de muitas coisas e organizando as que ficaram. Que sensação boa! Depois de quatro meses vivendo com uma mala, vi o tamanho do meu essencial. Neste ano, desejo a você, querido leitor que acompanha o blog, muitas sensações boas que provêm do desapego, do contato com a natureza, das celebrações, da alimentação saudável, do autoconhecimento, do consumo consciente e do que mais torne sua relação com você mesmo e com o planeta melhor.

Foram tantas emoções, aprendizados e experiências que tive na Schumacher que não consigo expressar em palavras o quanto viver lá por três meses e meio me marcou. Espero ter conseguido passar um pouco do que é a magia da Schumacher (como diz um bastão de madeira esculpido por um estudante) na série de vídeos que fiz sobre a faculdade. É um local de transformação pessoal por meio da vida em comunidade, da imersão na floresta, dos momentos diários com árvores e animais, da tranquilidade e do silêncio da vida no interior, dos diálogos interculturais, de novos conhecimentos e perspectivas, da liberdade de ser quem você é e da abertura para experimentar quem você quer ser.

Brinquedos e ursinhos de pelúcia para doação

Um dos últimos momentos de profunda emoção na escola foi quando participamos do "conselho de todos os seres", um espaço para ser outro além de humano. Se você pudesse se colocar no lugar de outro ser ou elemento da teia vida e enxergar o mundo através dos olhos dele, como seria? Foi isso que fizemos naquela tarde, uma atividade integrante do “trabalho que reconecta”, de Joanna Macy, estudiosa e ativista do budismo, pensamento sistêmico e ecologia profunda. O trabalho que reconecta não tem este nome à toa. Uma reconexão profunda com a terra, outros seres vivos e elementos do planeta acontece ali e a experiência é tão forte que leva a reflexões sobre atitudes pessoais que podemos mudar em prol de um mundo de paz, justiça e sustentabilidade.

Antes de entrar no conselho em si, fizemos uma atividade também de reconexão, mas com os seres humanos mesmo, com os colegas do grupo. Aquele momento de olhar no olho, perceber e sentir o outro e o que o outro sente e percebe, de ter empatia e enxergar a profundidade da pessoa a sua frente. Este exercício expandiu nossa sensibilidade para começar o conselho e olhar o mundo pelos olhos de qualquer elemento ou outro ser vivo que não humano.

No conselho, primeiro cada um escolhe quem ou o que quer ser (ou melhor, deixa este quem ou o que vir a si), dando-se um momento para expressar este ser. Depois o conselho começa (as duas pessoas ministrando a sessão permanecem como humanas) e são feitas três rodadas de perguntas: o que te faz feliz e o que te alimenta; o que te preocupa; que conselhos você daria aos humanos para melhorar o planeta. É uma experiência muito profunda e emocional, em que ficam evidentes questões como dignidade e valor inerentes à vida na Terra e no universo, pois cada elemento e ser vivo tem valor em si mesmo independente de qualquer uso ou finalidade que tenha para seres humanos.

Livros para venda e doação

Depois de tudo que eu vi, ouvi e vivi na Schumacher College, não tem como voltar ao que era antes. Então, para começar as mudanças na minha vida aqui, nada como uma mega limpeza e organização. Nestas duas primeiras semanas de janeiro, minha prioridade foi arrumar meu quarto e o “quarto de depósito” para tirar o que pode ser repassado, reusado ou reciclado e organizar o que ficou. Tinha coisas demais estocadas por tempo demais aqui em casa. Foi muito bom ter feito isso para começar bem o ano, com energias renovadas. Ainda falta passar um pente fino nas minhas roupas, mas pelo menos duas vezes por ano eu reviso meu armário para doar peças. Livros, CDs e DVDs são coisas que eu também reorganizo ocasionalmente, passando alguns para outras mãos. Essas arrumações sacodem as energias, abrem espaço e nos ajudam a ver como precisamos de menos para viver.

Mais materiais para doação e reciclagem

O ano está só começando, cheio de oportunidades para colocar alguns planos e projetos em prática... E você, quais as boas novas que trazes para sua vida neste ano?
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