O que é ética ambiental? Reflexões ediscussões da abertura do Junho Verde

Por Letícia Maria Klein •
01 junho 2016
O mês do meio ambiente, o Junho Verde, começou nesta segunda-feira, 30 de maio, e começou muito bem! A mesa redonda sobre “A possibilidade de uma ética ambiental” teve a participação dos professores Adaltro Prochnov Nunes (IFC), Nicolau Cardoso Neto (FURB) e Luciano Felix Florit (FURB). Das áreas da filosofia, direito e sociologia, respectivamente, os três comentaram sobre o histórico, as definições e as realidades da ética ambiental.

O professor Nicolau é especialista em Direito Ambiental, área em que tem experiência com os temas: meio ambiente, saúde, cidade, política ambiental municipal, recursos hídricos, legislação ambiental e áreas naturais/ambientais. Ele abriu as reflexões e teve uma fala indagadora e provocativa. Ele começou contando uma situação que costuma apresentar em sala de aula, quando desenha no quadro um homem “das cavernas” e um homem com dinheiro e pergunta qual dos dois está certo. O que você acha? Os dois estão certos, mas para que ambos possam conviver é preciso um meio termo. O equilíbrio é essencial em mundo sustentável. Como achá-lo sem ferir a ética dos diferentes grupos sociais?

Para o professor, ética ambiental está relacionada à qualidade de vida, só que as políticas públicas que versam sobre a qualidade do ambiente e na sociedade não se conversam. Aí está um problema que precisa ser resolvido. O sistema político precisa de leis coerentes e convergentes para agir. O poder público precisa dos seus cidadãos para funcionar. Nós como munícipes devemos nos manifestar, participar ativamente das ações na cidade, se queremos uma cidade sustentável e que proporcione vida de qualidade para todos. Por isso, a ética ambiental, concluiu o professor, começa em mim, em você, em cada um nós.

Da esquerda para direita: José Sommer, educador ambiental da Faema,
prof. Adaltro, prof. Nicolau e prof. Luciano

O professor Luciano atua na universidade nas áreas de sociologia do desenvolvimento, sociologia ambiental e ética ambiental, focando atualmente na temática da ética ambiental e o desenvolvimento regional com os sub-temas: consideração moral de seres vivos não humanos e padrões de desenvolvimento, justiça ambiental e padrões de desenvolvimento e modelos de desenvolvimento, região, sistemas de valores e bem-estar.

A mensagem inicial do professor foi bem clara: o futuro será pior. Para alguns grupos, em determinados locais, será bem pior. Para alguns grupos já é pior do que há algumas décadas. A grande questão, disse ele, é deixar de ter uma visão antropocêntrica, que vê a natureza como um recurso que está lá para servir à humanidade, e passar a tratar a natureza e sua biodiversidade como um todo e um fim em si mesma, com valor intrínseco, dignidade e direitos.

A reflexão ética implica refletir sobre os diferentes valores dos grupos sociais e dos indivíduos e não apenas reproduzir valores passados de geração a geração. Neste aspecto, ele pergunta: até onde se estende nossa responsabilidade moral? As gerações futuras são importantes, obviamente, mas não devemos nos esquecer dos que habitam o planeta neste momento. Precisamos nos preocupar com os seres que existem e vivem hoje.

Por fim, o professor Adaltro, de filosofia, fez uma linha do tempo da ética ambiental nos pensamentos filosóficos. Ele começou com definições. Ética é a investigação filosófica sobre os fundamentos e princípios da moral. Existem três éticas: meta ética (sobre conceitos fundamentais), ética normativa (sobre os diferentes modos de ser) e ética prática (aplicação da normativa). As discussões sobre ética ambiental vêm desde a antiguidade. Os estoicos (adeptos do Estoicismo, escola de filosofia helenística fundada em Atenas no início do século 3 a.C) falavam em viver de acordo com a natureza, controlando as próprias paixões e guiando-se pela razão. Um exemplo atual de descontrole das paixões e desejos é o consumismo.

A ética ambiental também apareceu no Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, que faz um louvor a Deus pela natureza e os elementos do universo. Jean-Jacques Rousseau foi um crítico da humanidade, disse que os humanos deformam a natureza e a si mesmos. Defendia que a origem da ganância está na propriedade privada, na ideia que de que pessoas podem possuir a terra que não foi criada por elas. Contemporaneamente, a ética ambiental volta com os autores chamados utilitaristas, que defendem o “agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar” (a todos os seres). Neste aspecto, Jeremy Bentham aborda a senciência dos animais (a capacidade de sentir dor), por exemplo.



O professor concluiu dizendo que a ética ambiental demanda a valorização intrínseca da natureza e de todos os seres e não considerá-los instrumentos, meios para um fim. A natureza e a biodiversidade têm valor em si mesmas, independente dos interesses humanos. “Age de tal forma que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a manutenção e a valorização da vida na Terra”, foi a mensagem final de Adaltro. É uma ótima referência para nossas atitudes, não é mesmo?

As reflexões dos professores foram muito interessantes e provocaram perguntas, comentários e mais reflexões da platéia. A partir de tudo que foi falado, entendo que a ética ambiental começa em cada um de nós a partir da percepção e da compreensão da visão sistêmica da vida, entender que o nosso planeta é vivo e que cada elemento desse sistema é uma parte importante e com valor em si mesma. Cada um dos seres vivos e dos bens naturais é um nó na teia da vida, que contribui para a sua sustentação.

E você, já parou para pensar em ética ambiental? Qual o seu entendimento? Comente e contribua para a discussão! Veja também os outros eventos da agenda do Junho Verde neste post.
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Inspiração para a vida - TEDxBlumenau 2016

Por Letícia Maria Klein •
25 abril 2016
Blumenau recebeu sua segunda edição do TEDx, no dia 03 de abril, e eu tive a felicidade de participar. Foram 12 palestrantes, um mais inspirador que o outro. Sinceramente, não tem como descrever o evento, ou melhor, a experiência. Só mesmo estando lá para entender como o TEDx mexe com a gente. São as palestras, são as conversas nos intervalos, são a aura e a vibração do local e das pessoas. A grande mensagem, muito resumida, que ficou pra mim deste encontro maravilhoso foi esta: seja protagonista da própria vida.

Então, faça um favor a si mesmo a reserve um tempinho dos seus dias nesta semana para assistir a estas mensagens e relatos de vida que vão te dar aquela sacudida.

Gustavo Brito – sócio proprietário da Extramuros.Educação baseada em projetos integradores. “Educação para que as cidades vivam.”



Marcos Oap – desenvolver de tecnologias para deficientes.As tecnologias são sobre pessoas e para pessoas. “Temos necessidade de ouvir o outro para poder ajudar.”



Cristal Muniz – autora do projeto e do blog Um ano sem lixo.Designer com vida lixo zero. “Reciclar é muito pouco quando apenas 17% das cidades reciclam. Precisamos parar de produzir lixo.”



Eduardo Boorhem – cofundador do Clube Orgânico.“Comida de verdade para pessoas de verdade. Quem nos alimenta é a natureza, não a indústria.”



Talita Ribeiro – jornalista e autora do livro “Turismo de empatia: refugiados no Oriente Médio”.“Empatia é se tratar e ser tratado. Sentir a dor do outro e ter coragem de seguir em frente.”



Maynara Fanucci – autora do projeto EmpodereConverse com duas mulheres sobre o feminismo e ajude a espalhar a igualdade.
Clique aqui para assistir.

Noemi Kellermann – Professora e diretora artístico-pedagógica da Escola de Música do Teatro Carlos GomesSobre uma história de amor e preconceitos.



Marcello Gugu – Mc do hip hop.Sobre como o hip hop o ajudou e como ele ajuda outros através da música.
Clique aqui para assistir.

Susan Liesenberg – jornalista e especialista em convergência de mídias.“Energização é a energia da ação. A mobilização que se dá pelas redes sociais deve refletir na pele, no cotidiano. Não adianta se comover sem se mover.”



Roberto Pascoal – empreendedor social junto à Omunga Grife Social e Presidente do Instituto Omunga.“Não existem crianças carentes, existem crianças com potencial aprisionadas pelas vulnerabilidades em que se encontram.” Esta a gente precisa se perguntar: “Você está disposto a ser o que o mundo precisa?”
Clique aqui para assistir.

Iara Xavier – Caçadora de bons exemplos junto com seu marido.“Coragem é fazer o que o coração manda. O que eu estou fazendo para mudar o mundo? O que você está fazendo para mudar o mundo? Qual a riqueza que vale a pena na vida? Quais tesouros estamos distribuindo?”
Clique aqui para assistir.

Tiago Senden – fundador da ONG Grande Roda de Tambores.Para vibrar no peito e sacudir a gente em prol da caridade e do bem aos outros.


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O menino e o mundo, de Alê Abreu [Resenha]

Por Letícia Maria Klein •
18 abril 2016
A animação brasileira “O menino e o mundo”, dirigida por Alê Abreu, concorreu ao Oscar 2016 e, posso dizer?, merecia ter ganhado. É classificada como infantil, mas quem prestou atenção mesmo à sessão de cinema ao ar livre, durante o lançamento do movimento 100em1DiaBlumenau, foram os jovens e adultos. Em uma hora e vinte minutos e sem nenhuma fala compreensível, o filme faz um retrato do sistema econômico e político e seus impactos negativos sobre as pessoas e o ambiente.

O filme venceu na categoria de melhor animação independente do Annie Awards,
uma das premiações mais importantes do gênero de animação

Sociedade de consumo, malefícios da indústria de massa, prejuízos socioambientais das lavouras convencionais de algodão, impacto social da maquinização de processos, desemprego, poluição do ambiente, aumento do lixo, apagão de individualidades, opressão do sistema capitalista, trabalho em regime de escravidão, desestrutura familiar, militarização. Tudo isso é exposto com traços minimalistas, sons e jogo de cores para sentimentos e sensações. A riqueza do filme está na sua singeleza, na sua simplicidade. Os diálogos eventuais, em português de trás para frente, são meros enfeites à história que se faz entender totalmente através das imagens, da trilha musical e dos efeitos sonoros.

A história mostra a trajetória de Oninem (menino, ao contrário), que parte em busca do pai depois de vê-lo deixar o campo para trabalhar na cidade. Do seu recanto de áreas verdes, água cristalina e diversidade de vidas em abundância de cores, o menino segue a linha do trem em direção à cidade pálida, de aspecto doentio, opaca e sufocante, passando pelas lavouras convencionais de algodão onde milhares de trabalhadores estão sujeitos a doenças e até à morte causadas por agrotóxicos (mais sobre isto neste post sobre guarda-roupa sustentável). Nelas, e também na cidade, os indivíduos não têm individualidade, são apenas números em planilhas econômicas. E quando estes números significam menos lucro ao patrão, são facilmente substituídos por máquinas.


Na luta contra este modelo industrializado e superficial de existência, está um jovem que busca na música e nas cores a liberdade de uma vida plena de significado, de paz, em harmonia com a natureza, com o meio, com os outros e consigo mesmo. Ele não está sozinho. Há centenas, milhares de pessoas que pensam e agem como ele e se unem contra o sistema opressor da violência, das armas, do capitalismo cego e do poder desvirtuado.

No fim, “O menino e o mundo” é um filme sobre esperança. Sobre acreditar no sonho e colocá-lo em prática, crer na nossa capacidade de mudar a realidade, não se acomodar e lutar pelo que consideramos certo e justo. É sobre manter a inocência, a curiosidade e a espontaneidade da criança interior sempre vivas nas nossas vidas. O menino é um reflexo de quem fomos e do potencial que temos para fazer a diferença. O mundo é tanto uma representação real das circunstâncias atuais do planeta Terra quanto dos conflitos internos que devemos resolver para nos tornarmos seres humanos melhores.

A partir do olhar de quem está de fora, o menino do mundo nos convida a uma viagem para dentro, para reavaliar hábitos e pré-conceitos em busca da essência da vida.


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O passo a passo do guarda-roupa sustentável: na moda com o consumoconsciente (parte 2)

Por Letícia Maria Klein •
04 abril 2016
Depois de fazer um tour pelos setores da produção de roupas com tecidos de fibras naturais e orgânicas, agora é hora de andar na passarela do consumo consciente e se tornar um modelo de sustentabilidade quando o assunto é moda.

Atitudes do slow fashionista

O movimento slow fashion segue a tendência de outros, como o slow food, que querem nos tirar do ritmo alucinado das cidades e do movimento de manada da sociedade capitalista. Menos consumismo e mais qualidade. Peças duráveis, feitas artesanalmente e em baixa escala, com tecidos de fibras naturais, trocas de roupas entre amigos e familiares e compras em brechós são os objetivos do movimento.pensar antes de comprar. Controle o impulso antes que ele controle você. Uma técnica que ajuda muito é contar quantas peças você tem. Isso pode te fazer ver que já tem roupa demais no seu guarda-roupa e você não precisa de mais uma. Tem gente até que afirma que 100 é o número máximo de peças que você precisa. A qualidade importa mais que a quantidade: quanto melhor a matéria-prima e a composição da peça, mais tempo ela dura, então a frequência de compra diminui.


Como praticar o slow fashion? É muito importante

Falando nela, a compra deve ser um ato consciente, em que a gente deve considerar não apenas o preço e a composição da peça, mas a cadeia de produção, o perfil da empresa e suas práticas socioambientais. Tem muitas marcas que empregam mão de obra em regime de escravidão, com locais de trabalho insalubres, jornadas extensas de trabalho e baixa remuneração. Outro fator importante a considerar é o local em que as peças são fabricadas. A roupa produzida no outro lado do mundo tem uma pegada de carbono bem maior do que aquela que foi feita no Brasil. Quanto mais perto, menos combustível será usado para que o produto chegue até aqui, então menos gases de efeito estufa serão emitidos na atmosfera, sem contar as avarias de veículos e suas partes.

Outra forma de exercer o slow fashion é trocar roupas com amigos ou parentes, praticando o consumo colaborativo. Você dá aquela peça que já não agrada ou não cabe mais e tem uma nova sem gastar nada. Também dá para ganhar muito, em termos abstratos, quando a doação entra em cena. A gente tem muitas roupas no armário que tendem a ficar lá por muito tempo sem serem usadas. Eu uso a regra dos dois anos: se não usei a peça nem uma vez nos últimos 24 meses, é porque ela não chamou mais a minha atenção, então não vou mais usar. O melhor a fazer é doar para quem precisa.



E quando a peça é nova, você usa de vez em quando, mas ela rasga? AHHH! Xô, desespero! Pegue já seu kit de socorros têxteis e mãos ao conserto. Um furinho, um rasgo, um enfeite faltando não devem ser motivo para abandonar a roupa ou o calçado. Uma costura, um corte ou um enfeite sobre a parte danificada já restaura a peça e ela fica como nova. Só não faça que nem uns e outros que doam a roupa danificada achando que é caridade. Ninguém gosta de ganhar coisa estragada. Se a peça furou e também não te agrada mais, pegue a caixa de costura ou passe na costureira antes de doar, assim a pessoa no outro lado vai receber uma peça inteira.

O slow fashion também está no uso e abuso da criatividade. Uma peça pode ser usada de várias maneiras e em várias combinações. Às vezes é só dobrar de um jeito diferente e a peça se transforma ou usar em conjunto com outra roupa ou acessório para ter um look diferente. A Bea Johnson, do Zero Waste Home, conseguiu fazer 50 looks com uma camisa masculina! Verdade, mesmo. Vale a pena dar uma lida nos posts dela sobre como usar uma peça de várias formas e em combinações diversas.

Por fim, mas não menos importante, está o brechó. Os brechós são muito valorizados no exterior e meio depreciados por aqui. Não vejo por que. Comprar o que é usado e que ainda está em boas condições diminui a pressão sobre os bens naturais utilizados para fazer roupas (água, matéria-prima, energia) e diminui os impactos negativos da confecção sobre o meio ambiente. Além disso, é uma forma de aumentar a vida útil das roupas. Tem peças em brechós que vem até com etiqueta, pois nunca chegaram a ser usadas!

A gente encontra muitas peças boas no brechó, inclusive vintage e de estilos bem variados, só precisa garimpar. Outro lado ótimo: ao comprar roupas usadas, você diz não à montanha de resíduos gerados pela indústria da moda, que descarta de 10% a 15% dos tecidos usados para fazer peças. Cada peça usada que entra na sua vida é um peso a mais que sai da sua pegada ecológica. Juntando as peças do quebra-cabeça, a composição da roupa continua parte importante do guarda-roupa, mesmo comprando em brechó. Fibras naturais, sempre. Se você é fã de jeans, atenção. As peças podem ser feitas tanto com algodão quanto com fibras sintéticas, então fique atento às informações da etiqueta.



Agora, se me dá licença, vou ali fazer uma limpa no meu guarda-roupa.
Com informações de: Lab Fashion Blog, Mulher UOL, The Greenest Post, Trash is for Tossers, Zero Waste Home.
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O passo a passo do guarda-roupa sustentável: da natureza à roupa (parte1)

Por Letícia Maria Klein •
29 março 2016
“Pelado, pelado, nu com a mão no bolso”. Esta música da banda Ultraje a Rigor, que embalou a abertura de uma novela, traz fortemente a questão do uso de roupas na sociedade. Falar de moda dá tanto pano pra manga, com perdão do trocadilho, que nós vamos focar na parte ambiental da coisa: fazer roupas gera um impacto negativo danado no meio ambiente. Grande consumo de água, de energia, de produtos químicos e tóxicos, de metais pesados, de agrotóxicos e pesticidas, geração de toneladas de resíduos. Nossa, pesou mais que armadura. Então, como é possível ser sustentável no guarda-roupa sem passar a andar pelado? Nesta série sobre o tema, vamos sair do padrão linear e predatório de produção e consumo, esquecer as promoções e entrar no país das maravilhas do consumo têxtil consciente.



Por que as fibras naturais orgânicas são o melhor do mercado?

Entre fibras sintéticas e naturais, nem precisa pensar duas vezes. As fibras sintéticas (poliéster, acrílico, elastano, poliamida, nylon e lycra) vêm do petróleo, um recurso não renovável, e são tratadas com produtos químicos durante e depois do processamento, além de usarem grandes quantidades de água e energia. Estes produtos e também metais pesados vazam para o ambiente, prejudicando corpos d’água, solo, ar e animais, além de causarem alergias a algumas pessoas e até câncer! Tem mais: 1) as estações de tratamento de água não conseguem eliminar estes químicos, que seguem rumo aos rios e mares; 2) a cada vez que uma peça sintética é lavada, ela libera de centenas a milhares de partículas de microplástico no sistema de água, que não são filtradas e acabam indo parar nos oceanos, contribuindo para a formação das gigantes ilhas de plástico que matam 1 milhão de aves marinhas e 100 mil animais aquáticos todos os anos! Neste impacto negativo também entram as fibras artificiais, como viscose e acetato. Camiseta feita a partir de PET? Esqueça, passe reto.

Qual a melhor composição, então? Fibras naturais, como algodão, lã, seda, linho, cânhamo e outras, cultivadas de modo orgânico (sem agrotóxicos e produtos químicos, entre outras regrinhas) e inseridas numa cadeia de produção que respeita as pessoas, abolindo o trabalho escravo, por exemplo. Acho que é bom reforçar: orgânico, tá? Como informa este estudo sobre o ciclo de vida do algodão orgânico, o cultivo deste, em comparação à plantação poluente, consome 91% menos água, emite 46% menos gases de efeito estufa, reduz em 70% as emissões responsáveis pela acidificação dos oceanos, diminui em 26% a eutrofização (excesso de nutrientes na água, o que leva a um aumento excessivo de algas) e usa 62% menos energia primária.

Do outro lado, o cultivo dito “convencional” do algodão é responsável por 25% do consumo de agrotóxicos e pesticidas no mundo e pelo maior índice de intoxicação e morte de trabalhadores em lavouras. Além disso, por não ser um alimento, os produtores têm permissão para usar até oito vezes mais pesticidas nas lavouras. Assim, o cultivo orgânico do algodão e processos de tecelagem e tingimento sem químicos tóxicos e metais pesados contribui para a preservação dos corpos d’água, do solo e do ar e para a manutenção da a saúde dos trabalhadores e consumidores.


Lã orgânica

Para garantir que é orgânica, a produção é inspecionada e recebe um certificado. No Brasil, a certificação é feita por uma agência acreditada pela IFOAM – International Federation of Organic Agriculture Movements (Federação Internacional de Movimentações de Agricultura Orgânica). Como o sistema orgânico tem rotação de culturas, que é quando espécies diferentes são alternadas no mesmo local para que os nutrientes do solo não se esgotem, e não usa agrotóxicos, a oferta de empregos é maior e os trabalhadores são melhor capacitados. Além disso, a produção orgânica utiliza adubo natural, como esterco de animais, faz controle biológico de pragas e doenças (nada de pesticidas) e mantém a estrutura e a profundidade do solo sem usar produtos químicos e sintéticos. Resumindo: sustentabilidade pura. Pessoas felizes, economia girando e meio preservado.

Algumas marcas já são adeptas da moda verde, que mantém a sustentabilidade desde o plantio do algodão até a confecção da roupa, dispensando, como já citado, o uso de produtos químicos no cultivo das plantas e no tratamento e tingimento das fibras, o que evita as alergias que algumas pessoas têm, e também substituindo a graxa de parafina usada nos teares por cera de abelha (tá, cabem mais discussões sobre este último ponto). Para tingir, só corantes naturais, que vem de cascas de árvores, folhas e raízes, ao invés dos artificiais que são produzidos com substâncias químicas. O modelo sustentável da indústria da moda também reutiliza a água durante a produção, reduzindo o desperdício e a poluição. Como consequência destes cuidados, a peça dura mais tempo.

Nesta cadeia sustentável, tem um segmento que consegue ser ainda mais verde: o do algodão colorido. Como ele já nasce colorido, não precisa passar pelo processo de tingimento, cortando uma parte da produção que, mesmo usando corante natural, consome muita água e energia. A produção do algodão colorido também é orgânica e bem antiga – existe há mais de 6.500 anos!

Plantação de algodão colorido

Dá vontade de fazer uma limpa no armário, né? No próximo post, vamos analisar o guarda-roupa e ver como podemos torná-lo sustentável com consumo consciente e práticas de slow fashion.
Com informações de: Autossustentável, EcoDesenvolvimento, eCycle, Instituto de Economia Agrícola, Natural Fashion, Planeta Sustentável, Tania Neiva, Use Eco.
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Qual o seu impacto no planeta? Entenda o que é, como calcular e como compensar sua pegada de carbono

Por Letícia Maria Klein •
21 março 2016
As nossas atividades diárias, o que e quanto consumimos e a forma como vivemos emitem, direta ou indiretamente, gases de efeito estufa que provocam as mudanças climáticas. Questões relacionadas à sua casa, alimentação, locomoção pela cidade e hábitos de consumo constituem a sua pegada de carbono (carbon footprint, em inglês), que é a quantidade de CO2, ou gás carbônico, que você emite a cada ano, com base em todas estas variáveis. Emitir gases estufa na nossa rotina é inevitável, mas tem maneiras de reduzir e compensar a quantidade emitida. É aí que cada atitude faz a diferença.

O cálculo da pegada de carbono, que converte as emissões de vários gases de efeito estufa em CO2eq (equivalente em gás carbônico), pode ser relacionado a uma pessoa, organização, evento ou produto, segundo a Carbon Trust, um grupo de profissionais independentes que busca acelerar a transição para uma economia sustentável de baixo carbono, presente em vários países. Uma calculadora de carbono, como a CGD ou a da Iniciativa Verde, leva em conta o consumo médio de energia elétrica, de gás, tipos e quantidades de lâmpadas e eletrodomésticos, veículos de transporte, viagens aéreas e dieta alimentar para determinar as toneladas de CO2 emitidas.



As emissões podem ser diretas, quando, por exemplo, vamos de carro ao invés de ir a pé, ou indiretas, que são as emitidas durante algum serviço que usamos ou processo produtivo de algo que consumimos, como, por exemplo, a gasolina do carro, que teve sua origem no petróleo, que foi extraído, transportado e refinado. É por isso que quando compramos alimentos orgânicos de produtores locais, investimos em energia solar ou eólica, adquirimos eletrodomésticos eficientes, compramos lâmpadas econômicas, reduzimos ou paramos o consumo de carne, produzimos menos resíduos, entre outras atitudes, temos uma pegada de carbono menor.

A pegada de carbono faz parte do cálculo da pegada ecológica, uma metodologia que quantifica a terra necessária para sustentar o estilo de vida de cada um. Isso acontece porque o gás carbônico é absorvido por oceanos e florestas, que são áreas bioprodutivas. Por isso, desde a década de 1970, a pegada de carbono vem ocupando cada vez mais espaço dentro da pegada ecológica.

Conhecer a nossa própria pegada de carbono nos ajuda a identificar como as nossas ações influenciam as mudanças climáticas e como podemos adaptar hábitos de vida e consumo, contribuindo para a desaceleração do aquecimento global e a sustentabilidade no planeta.




Existem normas e protocolos quanto ao cálculo dos GEE. Tem o Protocolo de Gases Poluentes (Greenhouse Gas Protocol), um método usado para formular inventários dos gases e analisar as emissões nas cadeias de valor das empresas, sendo compatível com normas ISO e com métodos de quantificação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC; o PAS 2050, que quantifica as emissões de gases estufa no ciclo de vida dos produtos e serviços de uma empresa para gerenciá-los e reduzi-los, permitindo a sua rotulagem. Há também duas normas ISO: a 14064, que fornece ferramentas para o desenvolvimento de programas de redução de emissões que podem ser aplicados na indústria e no governo; e a 14067, que especifica princípios, requisitos e orientações para quantificar e comunicar a pegada de carbono dos produtos (PCP).

Uma das formas de compensar a pegada de carbono é plantar árvores, visto que elas capturam carbono no seu processo de fotossíntese. A calculadora da Inciativa Verde já converte sua pegada na quantidade de árvores necessárias para compensar. É bem tranquilo para quem tem jardim em casa, mas como nem sempre é possível sair por aí com pá e muda na mão, outras formas de compensação, ou melhor, de diminuição da pegada, são as mudanças de hábitos em si.

No quesito alimentação, é importante se fazer as seguintes perguntas quando comprar qualquer alimento: como foi produzido? De onde veio? Como chegou até aqui? Produtos orgânicos dispensam agrotóxicos, que emitem GEE, e podem ser adquiridos de produtores locais, que viajam menos até os consumidores do que os produtos de grandes empresas, gerando, assim, menos gases no transporte. O que também ajuda muito é plantar algumas coisas em casa, como verduras, ervas e temperos. Consumir toda a comida que se compra, não deixando sobras, é outra maneira de contribuir, pois você vai enviar menos lixo para o aterro sanitário.


Charge de Jeff Parker, em que o personagem diz "Lembre-se, objetos no espelho estão
mais perto do que parece". Para nos lembrar o tamanho da nossa pegada de carbono.

Ou, melhor ainda! Como os aterros sanitários emitem muitos gases estufa, uma das formas de contribuir é reduzir a produção de lixo, compostando os resíduos orgânicos e encaminhando os materiais recicláveis para a reciclagem. Desta forma, você vai acabar enviando apenas resíduos de banheiro e rejeitos para o aterro sanitário, que é somente o que, de fato, este deveria receber.

Quando a questão é locomoção, é sempre melhor optar pelo transporte público do que pelo carro. Se puder ir a pé ou de bicicleta, fantástico. Mas o carro é bom quando utilizado sabiamente. Veículos híbridos e elétricos são melhores do que os outros modelos. Vamos combinar que um carro levando uma só pessoa é desperdício, então procure levar colegas, familiares e amigos ou ir de carona com alguém.

O carvão e o petróleo são as duas principais fontes de energia na matriz energética mundial, ambas não renováveis e poluentes. As fontes de energia solar e eólica, por exemplo, são renováveis e limpas. Quando possível, instalar painéis fotovoltaicos para geração de eletricidade e sistema solar para aquecimento de água contribui para o combate às mudanças climáticas. Ainda sobre eletricidade, adquirir eletrodomésticos com selo A do Inmetro e lâmpadas fluorescentes e LED fazem toda a diferença na fatura de energia elétrica e nas emissões de gases de efeito estufa.

Outros hábitos sustentáveis incluem: recusar o que gera lixo, optar por produtos com embalagens recicladas ou que são recicláveis quando não der para comprar a granel com seu próprio pote, utilizar sacolas retornáveis, trocar os produtos de limpeza convencionais por alternativas naturais, como vinagre, limão, bicarbonato de sódio e sabão de coco, pensar 20 vezes antes de comprar alguma coisa, considerando a real necessidade do objeto, como e quanto ele será usado e como será descartado, entre várias outras. O importante é fazer uma análise do seu dia e identificar como tornar sua vida e suas atitudes mais sustentáveis.

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