O que é ética ambiental? Ela existe? Como aplicar? Reflexões ediscussões da abertura do Junho Verde

Por Letícia Maria Klein •
01 junho 2016
O mês do meio ambiente, o Junho Verde, começou nesta segunda-feira, 30 de maio, e começou muito bem! A mesa redonda sobre “A possibilidade de uma ética ambiental” teve a participação dos professores Adaltro Prochnov Nunes (IFC), Nicolau Cardoso Neto (FURB) e Luciano Felix Florit (FURB). Das áreas da filosofia, direito e sociologia, respectivamente, os três comentaram sobre o histórico, as definições e as realidades da ética ambiental.

O professor Nicolau é especialista em Direito Ambiental, área em que tem experiência com os temas: meio ambiente, saúde, cidade, política ambiental municipal, recursos hídricos, legislação ambiental e áreas naturais/ambientais. Ele abriu as reflexões e teve uma fala indagadora e provocativa. Ele começou contando uma situação que costuma apresentar em sala de aula, quando desenha no quadro um homem “das cavernas” e um homem com dinheiro e pergunta qual dos dois está certo. O que você acha? Os dois estão certos, mas para que ambos possam conviver é preciso um meio termo. O equilíbrio é essencial em mundo sustentável. Como achá-lo sem ferir a ética dos diferentes grupos sociais?

Para o professor, ética ambiental está relacionada à qualidade de vida, só que as políticas públicas que versam sobre a qualidade do ambiente e na sociedade não se conversam. Aí está um problema que precisa ser resolvido. O sistema político precisa de leis coerentes e convergentes para agir. O poder público precisa dos seus cidadãos para funcionar. Nós como munícipes devemos nos manifestar, participar ativamente das ações na cidade, se queremos uma cidade sustentável e que proporcione vida de qualidade para todos. Por isso, a ética ambiental, concluiu o professor, começa em mim, em você, em cada um nós.

Da esquerda para direita: José Sommer, educador ambiental da Faema,
prof. Adaltro, prof. Nicolau e prof. Luciano

O professor Luciano atua na universidade nas áreas de sociologia do desenvolvimento, sociologia ambiental e ética ambiental, focando atualmente na temática da ética ambiental e o desenvolvimento regional com os sub-temas: consideração moral de seres vivos não humanos e padrões de desenvolvimento, justiça ambiental e padrões de desenvolvimento e modelos de desenvolvimento, região, sistemas de valores e bem-estar. A mensagem inicial do professor foi bem clara: o futuro será pior. Para alguns grupos, em determinados locais, será bem pior. Para alguns grupos já é pior do que há algumas décadas. A grande questão, disse ele, é deixar de ter uma visão antropocêntrica, que vê a natureza como um recurso que está lá para servir à humanidade, e passar a tratar a natureza e sua biodiversidade como um todo e um fim em si mesma, com valor intrínseco, dignidade e direitos.

A reflexão ética implica refletir sobre os diferentes valores dos grupos sociais e dos indivíduos e não apenas reproduzir valores passados de geração a geração. Neste aspecto, ele pergunta: até onde se estende nossa responsabilidade moral? As gerações futuras são importantes, obviamente, mas não devemos nos esquecer dos que habitam o planeta neste momento. Precisamos nos preocupar com os seres que existem e vivem hoje.

Por fim, o professor Adaltro, de filosofia, fez uma linha do tempo da ética ambiental nos pensamentos filosóficos. Ele começou com definições. Ética é a investigação filosófica sobre os fundamentos e princípios da moral. Existem três éticas: meta ética (sobre conceitos fundamentais), ética normativa (sobre os diferentes modos de ser) e ética prática (aplicação da normativa). As discussões sobre ética ambiental vêm desde a antiguidade. Os estoicos (adeptos do Estoicismo, escola de filosofia helenística fundada em Atenas no início do século 3 a.C) falavam em viver de acordo com a natureza, controlando as próprias paixões e guiando-se pela razão. Um exemplo atual de descontrole das paixões e desejos é o consumismo.

A ética ambiental também apareceu no Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, que faz um louvor a Deus pela natureza e os elementos do universo. Jean-Jacques Rousseau foi um crítico da humanidade, disse que os humanos deformam a natureza e a si mesmos. Defendia que a origem da ganância está na propriedade privada, na ideia que de que pessoas podem possuir a terra que não foi criada por elas. Contemporaneamente, a ética ambiental volta com os autores chamados utilitaristas, que defendem o “agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar” (a todos os seres). Neste aspecto, Jeremy Bentham aborda a senciência dos animais (a capacidade de sentir dor), por exemplo.



O professor concluiu dizendo que a ética ambiental demanda a valorização intrínseca da natureza e de todos os seres e não considerá-los instrumentos, meios para um fim. A natureza e a biodiversidade têm valor em si mesmas, independente dos interesses humanos. “Age de tal forma que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a manutenção e a valorização da vida na Terra”, foi a mensagem final de Adaltro. É uma ótima referência para nossas atitudes, não é mesmo?

As reflexões dos professores foram muito interessantes e provocaram perguntas, comentários e mais reflexões da platéia. A partir de tudo que foi falado, entendo que a ética ambiental começa em cada um de nós a partir da percepção e da compreensão da visão sistêmica da vida, entender que o nosso planeta é vivo e que cada elemento desse sistema é uma parte importante e com valor em si mesma. Cada um dos seres vivos e dos bens naturais é um nó na teia da vida, que contribui para a sua sustentação.

E você, já parou para pensar em ética ambiental? Qual o seu entendimento? Comente e contribua para a discussão! Veja também os outros eventos da agenda do Junho Verde neste post.

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