As belezas e os horrores do mundo pelos olhos de um menino em busca dopai

Por Letícia Maria Klein •
18 abril 2016
A animação brasileira “O menino e o mundo”, dirigida por Alê Abreu, concorreu ao Oscar 2016 e, posso dizer?, merecia ter ganhado. É classificada como infantil, mas quem prestou atenção mesmo à sessão de cinema ao ar livre, durante o lançamento do movimento 100em1DiaBlumenau, foram os jovens e adultos. Em uma hora e vinte minutos e sem nenhuma fala compreensível, o filme faz um retrato do sistema econômico e político e seus impactos negativos sobre as pessoas e o ambiente.

O filme venceu na categoria de melhor animação independente do Annie Awards,
uma das premiações mais importantes do gênero de animação

Sociedade de consumo, malefícios da indústria de massa, prejuízos socioambientais das lavouras convencionais de algodão, impacto social da maquinização de processos, desemprego, poluição do ambiente, aumento do lixo, apagão de individualidades, opressão do sistema capitalista, trabalho em regime de escravidão, desestrutura familiar, militarização. Tudo isso é exposto com traços minimalistas, sonsjogo de cores para sentimentos e sensações. A riqueza do filme está na sua singeleza, na sua simplicidade. Os diálogos eventuais, em português de trás para frente, são meros enfeites à história que se faz entender totalmente através das imagens, da trilha musical e dos efeitos sonoros.

A história mostra a trajetória de Oninem (menino, ao contrário), que parte em busca do pai depois de vê-lo deixar o campo para trabalhar na cidade. Do seu recanto de áreas verdes, água cristalina e diversidade de vidas em abundância de cores, o menino segue a linha do trem em direção à cidade pálida, de aspecto doentio, opaca e sufocante, passando pelas lavouras convencionais de algodão onde milhares de trabalhadores estão sujeitos a doenças e até à morte causadas por agrotóxicos (mais sobre isto neste post sobre guarda-roupa sustentável). Nelas, e também na cidade, os indivíduos não têm individualidade, são apenas números em planilhas econômicas. E quando estes números significam menos lucro ao patrão, são facilmente substituídos por máquinas.


Na luta contra este modelo industrializado e superficial de existência, está um jovem que busca na música e nas cores a liberdade de uma vida plena de significado, de paz, em harmonia com a natureza, com o meio, com os outros e consigo mesmo. Ele não está sozinho. Há centenas, milhares de pessoas que pensam e agem como ele e se unem contra o sistema opressor da violência, das armas, do capitalismo cego e do poder desvirtuado.

No fim, “O menino e o mundo” é um filme sobre esperança. Sobre acreditar no sonho e colocá-lo em prática, crer na nossa capacidade de mudar a realidade, não se acomodar e lutar pelo que consideramos certo e justo. É sobre manter a inocência, a curiosidade e a espontaneidade da criança interior sempre vivas nas nossas vidas. O menino é um reflexo de quem fomos e do potencial que temos para fazer a diferença. O mundo é tanto uma representação real das circunstâncias atuais do planeta Terra quanto dos conflitos internos que devemos resolver para nos tornarmos seres humanos melhores.

A partir do olhar de quem está de fora, o menino do mundo nos convida a uma viagem para dentro, para reavaliar hábitos e pré-conceitos em busca da essência da vida.


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