Não é lixo até que seja desperdiçado - IV Encontro Internacional Juventude Lixo Zero

Por Letícia Maria Klein •
27 outubro 2017
De 20 a 22 de outubro aconteceu o IV Encontro Internacional Juventude Lixo Zero, na Unisul Pedra Branca, em Palhoça/SC. Participei com minha amiga e colega de JLZ Blumenau e este é o primeiro de três posts em que vou contar tudo que rolou no evento. Para adiantar: foi magnífico! Este post fala sobre o panorama dos resíduos no mundo hoje, o segundo será sobre pessoas que são exemplo quando se fala em lixo zero e o terceiro trará muita inspiração para a vida.

O primeiro palestrante foi Jonathon Hannon, coordenador do Zero Waste Academy (ZWA) na Nova Zelândia, que fica no Instituto de Recursos Naturais da Universidade Massey. Ele trabalha com ensino, pesquisa e participa do Grupo de Direção à Sustentabilidade da universidade. Jonathon mostrou algumas dimensões dos resíduos, como situações de desastres, equipamentos tecnológicos, plástico nos oceanos, telefones celulares, medicamentos e outras.

De acordo com o Global Waste Management Outlook – Summary for Decision-Makers, relatório sobre o panorama dos resíduos no mundo, produzido pela UNEP (autoridade das Nações Unidas para o meio ambiente) e ISWA (Associação Internacional de Resíduos Sólidos), hoje são gerados de 7 a 10 bilhões de toneladas de resíduos sólidos no mundo por ano, dos quais 2 bilhões de toneladas são resíduos sólidos municipais (os orgânicos, recicláveis e rejeitos que produzimos todos os dias); o restante se divide em construção e demolição e comércio e indústria.

Os oceanos estão poluídos com 150 milhões de toneladas de plástico! Há 3.5 bilhões de pessoas (52% da população mundial) sem acesso a instalações para disposição final ou tratamento de resíduos, convivendo diretamente com poluição e risco de doenças. O custo de deixar tudo do jeito como está é de 5 a 10 vezes maior do que o custo de resolver os problemas causados pelo lixo e trabalhar na prevenção e tratamento.


Segundo o documento, as metas são:
- Até 2020: garantir acesso de todos a serviços de coleta de resíduos sólidos que sejam adequados, seguros e acessíveis e acabar com lixões e queima de resíduos a céu aberto.
- Até 2030: alcançar a gestão sustentável e ambientalmente saudável de todos os resíduos, particularmente os perigosos; reduzir substancialmente a geração de resíduos através da não geração e dos 3 Rs (reduzir, reutilizar, reciclar) e criar empregos verdes; reduzir pela metade o desperdício de alimentos globais per capita no varejo e níveis de consumo e reduzir as perdas de alimentos na cadeia de fornecimento.

Um dado muito interessante que Jonathon mostrou, presente no relatório, é que a quantidade de alimentos desperdiçados hoje no mundo por ano (1,3 bilhão de toneladas) daria para alimentar todas as pessoas subnutridas duas vezes. Se não houvesse esse desperdício, 9% do total de emissões de gases de efeito estufa em nível mundial deixariam de ser emitidos. Além disso, a economia circular (que prevê o reaproveitamento de tudo) tem o potencial mundial de gerar de 9 a 25 milhões de empregos verdes. Por fim, a mensagem é de que nada é lixo até que seja desperdiçado e se agirmos como nossa mãe natureza, que é um sistema lixo zero por excelência, podemos reaproveitar tudo.

Além disso, como disse Nury Morales, da Fundación Basura, do Chile, mais vale prevenir do que gerenciar resíduos, porque os impactos são bem menores e se economiza dinheiro. A fundação presta assessoria a empresas e capacita pessoas para uma vida lixo zero e para a economia circular, em que o valor dos resíduos é recuperado através da sua reinserção em novos ciclos de operação por meio do ecodesign, reutilização, reciclagem, compostagem e biodigestão.



Tião Santos apresentou vários dados nacionais. Ele cresceu no lixão do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, considerado o maior da América Latina e que foi fechado em 2012. Tião se tornou catador de materiais recicláveis e presidente da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho e participou do documentário Lixo Extraordinário, lançado em 2007. Eu já o tinha visto no I Congresso Nacional Juventude Lixo Zero, em 2014. Uma curiosidade que Tião trouxe é a origem da palavra lixo, que vem de lix, em latim, e significa cinza, alusivo a uma época quando o que mais sobrava nas casas era a cinza do fogão. No extinto lixão, os mais de mil catadores coletavam 200 toneladas por dia de material reciclável, o equivalente aos resíduos diários de uma cidade de 400 mil habitantes e a previsão é que sejam gerados 70% mais resíduos em 2030 no Brasil.

Hoje, 60% dos catadores brasileiros vivem em situações degradantes, similares ao que acontecia em Gramacho. O país perde R$ 8 bilhões anualmente por não reaproveitar os resíduos, pagando para coletar, transportar e enterrar. Tião explica que, infelizmente, a reciclagem no país surge a partir da exclusão social e da pobreza, como uma fonte de renda. E neste contexto, os catadores não são reconhecidos por seu trabalho (que é fundamental!). Empresas de garrafas PET que contratam cooperativas para mediar a logística reversa dos seus produtos pagam cerca de R$ 1,00 por dia para o catador. Foram 294 mil toneladas de garrafas PET coletadas em 2012 e 341 mil toneladas em 2016. Como disse Tião, “consciência não se vende, se constrói com educação”.



Essa consciência vai nos fazer entender que precisamos gerenciar recursos e eliminar a ideia de lixo e de desperdício, diz Pål Mårtensson. Em São Paulo, por exemplo, são desperdiçadas 10 mil toneladas de comida por dia, que poderiam ser reaproveitadas de várias formas ou mesmo poderiam ser evitadas. Ele diz que lixo zero é sobre pessoas, pois os humanos são a única espécie que produz lixo, coisas que a natureza não consegue compostar nem reciclar. Por isso lixo zero é uma visão, precisa de tempo para acontecer, paixão e persistência sempre. Pål fundou o maior parque de reciclagem do mundo, localizado em Gotemburgo, na Suécia, coordena o departamento de gestão de resíduos e recursos hídricos da cidade e integra a Aliança Internacional Lixo Zero. É mentor do movimento Let’s do It (Movimento Limpa Brasil, por aqui), que pretende reunir mais de 300 milhões de pessoas para limpar praias no ano que vem. O World Clean Up Day está marcado para 15 de setembro de 2018.

Por falar em datas, até o dia 30 de outubro acontece a Semana Lixo Zero em 30 cidades brasileiras, com cerca de 1500 eventos. A Semana é um produto do Instituto Lixo Zero Brasil, presidido por Rodrigo Sabatini, que falou rapidamente sobre a confusão que a indústria provoca para legitimar o rejeito que vai para o aterro. A Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê uma ordem de prioridade na gestão dos resíduos: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamentos para reaproveitamento (como compostagem) e, como último recurso, a disposição em aterro sanitário dos rejeitos. A mistura de resíduos recicláveis e orgânicos, que impossibilita ou no mínimo dificulta o reaproveitamento de ambos, é tida como rejeito e Rodrigo afirma que a indústria vai fazer de tudo para legitimar o rejeito para que possa mandá-lo para o aterro. A mesma coisa acontece com os conceitos de “lixo úmido” e “lixo seco”, que não são claros. Uma casca de banana é úmida ou seca? Assim, lixo zero é uma meta ética, econômica, eficiente e visionária. Para Rodrigo, não existe nada mais revolucionário no mundo do que ser lixo zero, pois é contrário ao sistema linear de produção, consumo e descarte vigente hoje.

O lixo, para Leslie Lukacs, é uma falha no sistema, pois se as entradas (insumos) são controladas, as saídas (resíduos) também são. A consultora e coordenadora de programas de sustentabilidade dos Estados Unidos, que também foi uma das fundadoras da Juventude Lixo Zero EUA, disse que a noção de “jogar fora” surgiu depois da Segunda Guerra Mundial, acalentada pela obsolescência programada. Ela mostrou artes de propagandas de antes e durante o período bélico que alertavam justamente para a importância de conservar e ter bens duráveis. A cada dois anos, os estadunidenses são estimulados a trocar de celular, por melhor que esteja o atual, e a manutenção não é incentivada. Por isso, surgiram no país movimentos clamando pelo direito de reparar e reutilizar as coisas.

No seu trabalho, ela orienta empresas e governos a gerenciar seus resíduos sólidos, priorizando a reciclagem e a compostagem. Um dos exemplos que ela mostrou foi um projeto feito nos estádios de futebol de Ohio, que após dois anos, conseguiram reduzir em 61% os resíduos que os torcedores produziam, através da separação correta e campanhas de conscientização. O que eles também fizeram foi eliminar determinados itens dos produtos à venda, como o papel alumínio que embalava um salgado (que já vinha numa embalagem de papel) e as tampas e canudos dos copos de refrigerante. Como ela disse, se as pessoas tomam cerveja direto do copo, porque precisam de canudo para outras bebidas? Outro exemplo que ela compartilhou foi a pesquisa de um agricultor, que descobriu que o composto aplicado no pasto aumentou a absorção de gás carbônico pelas gramíneas. Assim, os resíduos orgânicos, que são a terceira maior fonte mundial de emissão de metano nos aterros sanitários, o que contribui para as mudanças climáticas, podem ser compostados e ajudar a eliminar o mesmo problema que causam quando aterrados.



Leslie viajou ao Brasil com seu filho adolescente Nathan, que falou sobre a escola sustentável de Ensino Médio que frequente, a Credo High School, a primeira escola a seguir os 10 princípios da iniciativa One Planet Living, criada em 2003 pela empresa Bioregional, na Inglaterra. Os princípios são: carbono zero, lixo zero, transporte sustentável, materiais sustentáveis, alimentos locais e sustentáveis, água sustentável, uso da terra e vida selvagem, cultura e patrimônio, equidade e economia local, saúde e felicidade. A escola, localizada na Califórnia, tem vários projetos para cada princípio. Os relacionados ao lixo zero são: estudo de caracterização dos resíduos, feira lixo zero (feira de trocas, em que cada item vale pontos e quanto mais bem cuidado o item a ser trocado, mais pontos o estudante ganha para trocar por outra coisa), dia de limpeza de praia e dia do surfe, limpeza da bacia hidrográfica da região, tijolos feitos a partir da compactação dos resíduos do Dia das Bruxas, estação de hidratação para as pessoas encherem suas garrafas, programa de redução de papel, desafio dos potes, Juventude Lixo Zero EUA, compostagem e agricultura.

A JLZ EUA também participou do evento. Quatro jovens representantes (Alina Bekkerman, Allie Lalor, Dennis Uyat e Greg Dudish e) vieram da área da baía de São Francisco para contar sua experiência com o movimento. Duas delas aconteceram na Universidade Berkeley, onde foi feito um evento mostrando toda a comida desperdiçada num dia (um total de 200kg), e a criação de uma loja de roupas usadas a partir de peças que os estudantes deixam nos alojamentos quando vão embora. Outro exemplo foi o da Universidade do Texas em Austin, que fez um evento para coletar resíduos eletroeletrônicos. Eles também falaram sobre algumas metas do governo. A prefeitura de São Francisco pretende deixar de enviar 50% dos resíduos orgânicos para os aterros até 2020 e reduzir o volume dos aterros em 75%, redirecionando resíduos para compostagem e reciclagem e trabalhando a redução. A equipe fez o convite para a Zero Waste Youth USA Convergence, que será realizada em 06 de março de 2018 e deixou um recado para todos: use sua voz sempre que puder!




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O papel da alimentação num mundo sustentável

Por Letícia Maria Klein •
19 outubro 2017
No quarto e último vídeo da série “Da Schumacher para o mundo”, a conversa gira em torno da alimentação como fundamento de um mundo sustentável, a alimentação orgânica e a importância de nos conectamos com a comida, do cultivo ao consumo. Para esta conversa muito interessante, entrevistei a agricultora chefe Jane Gleeson, a cozinheira chefe Julia Ponsonby, as chefes vegetarianas Ruth Rae e Tara Vaughan-Hughes e a colaboradora Voirrey Watterson, que faz o pão de fermentação natural consumido todos os dias na Schumacher College. O vídeo com o principal das entrevistas e as entrevistas completas estão abaixo. A discussão rendeu!



Qual a importância de ter acesso à comida orgânica?Jane Gleeson: Eu acho que o acesso à comida orgânica é fundamental. Não deveria ser privilégio dos que podem comprar. E esta situação doida em que nos metemos [em termos de alimentação com agrotóxico e industrial] é de que geralmente nos custa mais do que a alimentação não orgânica. Mas, claro que há muitos fatores que não são inseridos nessa equação. Na realidade, a produção de alimentos orgânicos não é mais cara. Se feita da forma adequada, pode ser mais barata, na verdade, porque você não gasta com pesticidas e fertilizantes etc. Então, a questão dos custos é falsa. Há também outro ponto: nós teremos que mudar de opinião sobre o preço que pagamos pela comida. Precisamos pagar o valor apropriado pela nossa comida, que no momento é tão fortemente subsidiada. E claro que, se você for um pequeno agricultor, você não se beneficia com essa situação. Na verdade, é bem difícil ganhar a vida se as pessoas não estão dispostas a valorizar a comida e pagar por ela. Em termos de alimentação humana, nossa nutrição é uma necessidade básica. Porém, estamos dispostos a pagar bem mais caro por coisas mais distantes na hierarquia de necessidades. Gastamos muito mais com a nossa casa do que com a nossa comida. Por isso ela foi barateando ao longo dos anos. Até que essa visão de mundo mude, as pessoas vão considerar a comida orgânica cara, e na verdade, ela não é. Até termos um entendimento completo do nosso sistema alimentar e do seu valor, vai ser difícil convencer as pessoas, especialmente as de baixa renda, que vale a pena consumir orgânicos.

Qual a importância de se conectar com a comida?Jane Gleeson: Eu penso que é muito importante que as pessoas tenham uma conexão forte com a comida e de onde ela vem. É chocante pensar, por exemplo, que tem pessoas que não sabem qual é a aparência de um pé de brócolis. Também acho que produzir alimentos numa escala pequena, sem grandes maquinários e insumos pesados, se você se afasta do modelo industrial, é um trabalho intenso, mas se todos vissem o cultivo de alimentos como parte do seu dia a dia, de alguma forma, eu penso que isso dividiria o peso e tornaria a tarefa agradável. Algumas pessoas acabam tendo um alto ideal do que é a alimentação orgânica e pode parecer difícil às vezes, se há poucas pessoas fazendo isso. Quanto mais pessoas fizerem isso, é uma situação ganha-ganha. As pessoas se conectam com a comida, veem de onde ela vem e veem a importância do desenvolvimento dos vegetais e como eles crescem bem. Se as pessoas dividem a tarefa, a tarefa se torna agradável. É uma pena que muitas pessoas nunca tenham visto uma planta germinar. A realidade é que muitas pessoas moram em cidades e não têm acesso à terra, mas viver no campo não é a única forma de ser sustentável, tem que haver outras maneiras de as pessoas fazerem isso. Então, eu penso que todos os movimentos de permacultura e sustentabilidade urbana e como pensar e criar espaços de produção de alimentos orgânicos nas cidades são fundamentais.

Como podemos reduzir o desperdício de alimentos?Julia Posonby: Quando você cozinha, considere a quantidade de pessoas que vão comer. Se você faz uma receita para seis pessoas, mas só uma vai comer, congele o restante. Outra forma é consumir alimentos orgânicos, pois não há necessidade de descascá-los. Você também pode ver o desperdício de comida não como lixo, mas como recurso que retorna através da compostagem, que vai produzir um solo muito rico para as frutas e verduras que você produz. Com o restante dos alimentos você também pode alimentar animais, como galinhas. É mais difícil em larga escala, quando se pensa em termos de comércio e grandes mercados. Na Schumacher College nós lidamos bem com o desperdício, pois fazemos compostagem, congelamos bem os alimentos e temos o dia das sobras, em que as pessoas comem o que sobrou da semana. Você pode ser criativo ou só esquentar as sobras como estão. Não fique comprando comida nova, saiba sempre quantas sobras tem na geladeira. Não tenha vários potes com pouca comida dentro, que são empurrados para o fundo da geladeira e ficam mofados.

Como podemos nos reconectar com a comida no nosso dia a dia com nossas agendas lotadas?Julia Posonby: Com as nossas agendas lotadas, nós precisamos priorizar a comida. Preparar a comida e comer junto é muito importante para nos conectamos, compartilhar a comida é muito importante. Se mesmo nas nossas próprias rotinas nós não conseguirmos ter tempo de cultivar alimentos e cozinhar todos os dias, talvez nós possamos fazer um grupo com outras pessoas, nos revezar para cozinhar e compartilhar a comida. Talvez tenhamos algum produtor local envolvido em nosso círculo. Também podemos cultivar alguns vegetais no peitoril da janela. Há cada vez mais iniciativas relacionadas à comida. Podemos participar de um sistema de recebimento de caixa de alimentos. Precisamos encontrar um perto de onde moramos e nos inscrevermos. Você se conecta com a comida quando você vê como ela se parece e se envolve na sua preparação, em vez de comprá-la direto do mercado embalada em plástico, geralmente já um pouco velha, então o valor nutricional não é tão alto como quando você come comida fresca. E então sentir o bem-estar que os alimentos frescos, orgânicos, te dão. Reconectar com o alimento da terra à mesa, com uma atividade compartilhada.

Ruth Rae: uma das melhores formas de se conectar com a comida é vê-la de uma ponta à outra da jornada, seja indo ao mercado comprar ingredientes ou cultivando-a na sacada ou indo à feira de produtores locais. E então cozinhar em casa, juntar a família, mesmo se for uma vez por semana para fazer alguma receita. Outra forma é ter acesso a restaurantes, talvez trabalhar na cozinha por uma semana para ver como é a jornada do alimento. Ter essa questão nas escolas também é importante. Nós costumávamos ensinar as crianças a cozinhar nas escolas aqui na Inglaterra e isso acabou por um tempo, mas agora está voltando aos poucos.

Qual é o papel da comida num mundo sustentável?Julia Posonby: A alimentação é um dos fundamentos de um mundo sustentável. Quando pensamos em comida local, em um mundo sustentável, em que há menos carbono sendo emitido em viagens aéreas e marítimas, isso implica que precisamos produzir alimentos localmente. A produção local de alimentos é fundamental para um mundo sustentável, em que as pessoas possam comer onde produzem. Não estou dizendo que não pode haver comida indo de um lugar a outro, porque é muito bom poder ter alguns temperos de outras partes do mundo que não conseguimos cultivar aqui, mas eles são pequenos e leves. Podemos ter essas coisas que não têm alto custo para o ambiente, mas ter a principal parcela da sua dieta produzida localmente. Isso é muito importante num mundo sustentável. Também porque nos incentiva a nos envolver com a produção local de alimentos e isso aumenta a conexão entre as pessoas e estimula a ideia do faça você mesmo e se envolver na colheita e ver como as coisas acontecem.

Como comer bem causando o menor impacto ambiental?Tara Vaughan-Hughes: Comer orgânicos, alimentos locais e da época. Outra forma muito útil é aprender a cozinhar. Assim, você consegue fazer uma ótima refeição a partir do que tem em casa e se sentir satisfeito, porque satisfação e saciedade são uma das coisas mais importantes quando você come. Nessas condições, você consegue fazer um banquete a partir de repolhos e nabos.

Quais as diferenças entre o fermento pronto para pão e a fermentação natural?Voirrey Watterson: O fermento pronto remonta ao início da produção industrial de pão, por isso se tornou tão popular. Nos países do leste europeu ainda se usa o sourdough [fermento para fazer pão que consiste numa massa de fermentação feita a partir de farinha e água, que é produzida uma única vez e a cada receita de pão é retirado um pouco e acrescida com uma parte da mistura da nova receita, sendo “refrescada”], como Rússia e Polônia. Eles comem muito pão de sourdough e conseguem fazer numa escala industrial. Agora este processo está voltando aqui na Inglaterra e as pessoas estão querendo mais este tipo de pão. Em parte porque há muitas questões de saúde em torno do trigo, as pessoas não conseguem digeri-lo apropriadamente. Há um argumento que diz que é devido ao modo como fazemos pão, pois há muito glúten não processado no produto final. Quando você tem o processo do sourdough, o glúten é muito mais processado e há outras coisas nos grãos que também são processadas dessa forma. O processo ocidental de fermentação é muito rápido e não dá tempo para as coisas acontecerem. É preciso tempo para a massa úmida e os grãos neste processo. O processo de fazer pão é uma ciência.

O que significa para você fazer seu próprio pão? Qual é a importância de fazer o próprio pão?Voirrey Watterson: Quando você faz o sourdough, tem a ver com sintonizar com um processo que conecta você a outros processos, pequenos e grandes. Seu pote de sourdough está repleto de vida e tudo interage, é uma cultura incrível que existe lá dentro. Se você pode usar isso para fazer seu pão, você começa a conhecer como é o processo. Quando estou mexendo a massa e a deixo descansar, ela começa a soltar bolhas, podemos ver que está respirando, que há vida ali. Eu vou deixá-la descansando à noite e amanhã de manhã a massa terá perdido peso. A massa está expirando gás carbônico, assim como nós, e absorvendo oxigênio. Há todas estas trocas acontecendo, produtos diferentes de diferentes organismos, que são consumidos por outros organismos. Assim a farinha contém mais organismos e fica bem feliz dentro do seu pote na geladeira. Fazer pão significa sintonizar com a vida e com vidas misteriosas, pois sei que existem organismos e que eles estão fazendo essas trocas, não sei precisamente como eles são. Não conheço os detalhes, mas me beneficio do processo. Isso acontece em nosso estômago, no nosso corpo, no solo, no ar e nós somos parte disso. Há diferentes níveis de sistemas mágicos e misteriosos. Podemos estudar as partes e saber os detalhes, mas no todo nós esperamos que tudo funcione da maneira que é.
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Design para harmonia, resiliência e adaptação às mudanças

Por Letícia Maria Klein •
20 setembro 2017
O Ecological Design Thinking (algo como pensamento de desenho ecológico) é uma das modalidades mais recentes do design e tem tudo a ver com empatia. No terceiro vídeo da série “Da Schumacher para o mundo”, o tema é o papel do Ecological Design Thinking (EDT) no mundo e como podemos aplicá-lo nas nossas vidas. Conversei com Seaton Baxter, ex-coordenador do curso de mestrado em EDT da Schumacher College (ele se aposentou no fim de 2016) e com Mona Nasseri, que trabalha na faculdade como pesquisadora em design e membro da equipe do mestrado. As entrevistas completas e recheadas de informações interessantes estão abaixo. Como eu fico muito curiosa para saber o que você achou, deixe seu comentário no fim da postagem e nós vamos conversando. 



Como Ecological Design e Design Thinking se combinam em Ecological Design Thinking?Seaton Baxter: A ideia de Ecological Design é muito mais velha do que Ecological Design Thinking. Provavelmente, os primeiros usos de Ecological Design datam de 1980, quando começou com pessoas como John e Nancy Todd e David Orr. Eu comecei Ecological Design como um curso de mestrado em Aberdeen in 1992. Na época, Ecological Design era visto como uma extensão do trabalho dos projetistas, era orientado a pessoas que tinham habilidade de projetar e foi apenas estendido pela dimensão ecológica. Nossa preocupação era que, enquanto vimos muitos exemplos de lindos projetos, também vimos muitos maus exemplos pela perspectiva ecológica. Um exemplo clássico seria o projeto lindo de carros motorizados, mas a dimensão ecológica da poluição que sai da exaustão nunca havia sido considerada. Então, os carros são um exemplo de bela engenharia, mas ninguém pensou nas consequências dos gases saindo dos canos de exaustão. Se tivessem pensado, teriam considerado a perspectiva ecológica. Então, em 1992 começamos um curso de mestrado em Ecological Design em Aberdeen e acho que foi um dos primeiros cursos do gênero no mundo. A ideia era que reuniríamos estudantes de design e também de biologia e ecologia. Mas tivemos dificuldades: os estudantes de design não tinham nenhum conhecimento de biologia ou ecologia, portanto, eles achavam muito difícil lidar com ecologia no nível de mestrado. Eles teriam conseguido lidar em nível de graduação, mas não de mestrado. Em contraste, os cientistas que vieram dos campos de biologia e ecologia conseguiam lidar com design. Eles nunca seriam bons projetistas, pois leva tempo para isso acontecer, mas eles conseguiam lidar bem com os conceitos. Este foi o começo e Ecological Design era a matéria de então. Eu achei na época que nós não tínhamos realmente material de base para resolver a questão. Em outras palavras, era muito fácil pensar que era apenas design com “ecologia” colocada na frente. O que isso significaria? Nós ainda não tínhamos descoberto. Cerca de 10 anos depois, eu fui convidado pela Universidade de Dundee, onde eu reuni um pequeno grupo de acadêmicos de PhD e criei um centro para estudo de Design Natural. Durante os 10 anos seguintes, nós criamos 10 ou 15 teses de PhD que analisaram o que é Ecological Design [desenho/projeção ecológico]. Estávamos construindo toda uma plataforma de informação sobre esse assunto. Então a universidade quis que eu me aposentasse e três anos depois a Schumacher College decidiu criar um mestrado em Ecological Design Thinking, não apenas Ecological Design, e perguntou se eu estaria disposto a colaborar. Então esta é a diferença: Ecological Design, num nível de mestrado, realmente precisa ser voltado para pessoas treinadas em design, é uma elaboração das suas técnicas de design. É uma elaboração significativa, pois é ecológica. Porém, a Schumacher queria trazer pessoas que não necessariamente têm habilidades de design. Nos últimos 10 anos, desenvolveu-se a ideia de Design Thinking, que não precisa ser feito por designers, mas é uma técnica que designers têm usado para lidar com problemas complexos. A Schumacher decidiu que a forma com que se trabalharia aqui era desenvolver um mestrado em Ecological Design Thinking, que permitiria a participação de estudantes vindos de múltiplas disciplinas. Então, EDT é a aplicação de uma técnica de pensamento de design vista pela perspectiva ecológica.

Qual é a importância do Ecological Design Thinking para o mundo hoje?Seaton Baxter: Uma forma de analisar é olhar para trás e perguntar quais são todas as coisas que fizemos de errado. A maioria das coisas que fazemos neste mundo é projetada/desenhada. Não necessariamente profissionalmente projetadas, mas quando você pensa sobre isso, quando acorda de manhã e decide qual será seu café da manhã, você projetou sua refeição. Então, estamos sempre projetando de alguma forma. Um designer muito famoso, Victor Papanek, disse que todos somos designers, só que não todos são profissionais. A questão é que todos precisamos ser designers ecológicos, ou, pelo menos, pensadores de design ecológico. Porque quando voltamos aos problemas que criamos, nós os criamos porque nunca pensamos nas consequências de um impacto ecológico, em seu maior sentido. Pense em todas as coisas que nós aqui na Schumacher falaríamos que são terríveis: quais seriam elas? A maioria delas teriam sido decisões projetadas ou pensadas sem levar em conta as consequências ambientais. Então, a maioria dos problemas que temos são problemas para os quais poderíamos ter encontrado solução se tivéssemos tido Ecological Design Thinking. Esta é uma forma de abordagem: ver todos os erros que cometemos, aplicar o Ecological Design Thinking e pensar o que teríamos feito se o tivéssemos usado. É como um desenho do passado. Mas, claro, o que temos que lembrar é: porque tudo está mudando e evoluindo, haverá novos problemas que não têm precedentes. O mais interessante destes problemas é que todos são muito complexos, problemas que você não consegue resolver ao dividi-los em partes. Na verdade, no passado, essa é que foi nossa dificuldade. Fomos muito bons em reduzir problemas a pedaços, apenas para futuramente perceber que os reduzir a partes não é igual a quando tentamos lidar com o problema inteiro, de uma forma holística. Então, agora, nós temos que ir em frente e pensar. Estes problemas complexos e perversos, como as mudanças climáticas, pobreza, obesidade, são problemas que você não consegue retirar um pedaço dele sem entender que ele está ligado a todo o resto. Então precisamos olhar para estes problemas de novas formas. E essas formas, atualmente, nos parecem associadas a Design Thinking, a técnica de lidar com problemas complexos. O interessante do Design Thinking é que não se acredita que você consiga achar uma resposta para um problema complexo. Esta é uma ideia velha de design: “aqui está o problema, esta é forma como lidamos com ele, esta é a resposta”. Essa é uma forma muito simples de abordagem. E você não conseguiria lidar com um problema complexo dessa forma. A essência de lidar com problemas complexos é o entendimento de que não existe uma única resposta; é essencialmente sobre como você lida com o problema e não como você o resolve, porque ele sempre vai evoluir. Então tem a ver com aprender a lidar com o problema, o que significa que mais design participativo. Mais design trabalhando com comunidades pequenas significa trabalhar com a comunidade de forma que ela continue evoluindo, porque o problema está constantemente mudando e não há uma única resposta. E a única coisa que constantemente muda com o problema é a comunidade. Design Thinking é uma ótima técnica, mas precisamos ter a dimensão ecológica, caso contrário, vamos acabar com Design Thinking resolvendo problemas, mas que não são ecológicos, o que gera mais problemas. Não seria uma técnica de solução em longo prazo. E ainda, a dimensão ecológica é difícil, porque toda a noção de ecologia é em si mesma um processo em constante evolução. O ecossistema a nossa volta não é o mesmo hoje do que foi ontem, está continuamente evoluindo. Ecological Design Thinking precisa ser um sistema dinâmico em constante evolução e para fazer isso não faz sentido dizer que o designer é o solucionador de problemas, as pessoas que têm o problema é que precisam lidar com ele.

Quais são as implicações de EDT para o mundo sustentável?Mona Nasseri: Primeiro, precisamos definir o que é EDT. É uma área muito nova que estamos explorando. Até agora sabemos que EDT é uma evolução do design e do Design Thinking. Temos que ter conhecimento de como o design evoliu ao longo dos últimos 30 anos. Design não é mais só sobre criar objetos e comunicar aos clientes. Até a década de 1970, era a rentabilidade do design que definia seu sucesso. Mas, gradualmente, isso mudou. Os designers perceberam que para tornar o design bem sucedido, eles precisavam satisfazer as necessidades dos usuários. Então, o design evoluiu do foco no lucro para o foco no usuário. Por volta de 1980, um novo campo do design começou a surgir. Design Thinking tem a ver com ser empático ao usuário. Não é mais sobre obter um produto num período curto de tempo com menos dinheiro, é sobre entender o usuário. Design Thinking tem sido aplicado em gestão, negócios e até na política. Nos últimos 10 anos, Design Thinking entrou na área da sustentabilidade e teve um grande papel na expansão do design para outras áreas, especialmente inovação social. Há também design de transição nos EUA, que começou há cinco ou seis anos, que tem uma visão sustentável de sociedade em curto e longo prazo. Em EDT, tentamos incorporar tudo isso, ter uma conexão profunda com ecologia e aprender com os ecossistemas. Nós não projetamos para ecossistemas. Ecossistemas não precisam do nosso design. A natureza tem um design perfeito. Mas nós podemos aprender com a natureza e fazer design para pessoas de uma forma que a natureza possa prosperar junto com os humanos. Ao invés de explorarmos o ambiente natural, nós podemos ter uma relação sinérgica com o ambiente natural e tanto a sociedade quanto os ecossistemas prosperam. Esta é a nossa missão em EDT. No passado, era sobre resolver problemas. Agora, design é sobre ver o potencial nos problemas e ver problemas não só como problemas, mas como oportunidades de fazer as coisas de forma melhor para as pessoas e o ambiente.

Cite alguns exemplos de EDT aplicados à realidade.Mona Nasseri: Alguns dos nossos estudantes pós-graduados têm se envolvido com educação. Dois deles estão trabalhando em Woodstock School (uma escola internato), na Índia, onde estão construindo um centro para a imaginação, usando os princípios do EDT para educar jovens, instigando-os a usar a imaginação e a criatividade para liderar movimentos em prol de sociedades sustentáveis. Outro estudante trabalhou no governo de Mallorca (ou Majorca) para desenvolver uma nova logomarca para o Estado e o processo foi bem interessante. Um pensador de design ecológico sabe que tudo que ele cria ou produz, basicamente tudo que ele faz, gera uma mudança no sistema. O trabalho dele consistiu em restabelecer o que estava por trás daquela logo e criar um sistema a partir de um material real, como a cor que ele usou na logo, que foi natural. Outro exemplo com o qual me envolvi recentemente é a colaboração em pesquisa com a Universidade Plymouth no nordeste da Tanzânia para explorar a resiliência ecológica e social de uma área em particular naquela região. A ideia é ter cientistas sociais explorando o lado social de impactos ambientais, cientistas naturais explorando o aspecto natural e pensadores de design ecológico para criar pontes entre esses dois com o objetivo de usar a sabedoria local para resolver problemas locais.

Como podemos aplicar conceitos de EDT nas nossas vidas?Seaton Baxter: Tudo que eu disse até agora implica que design tem a ver com como nós nos esforçamos em mudar o mundo lá fora. Esta é visão corriqueira do design, que se aplica ao mundo externo. Mas a chave, na minha visão, se as situações estão continuamente evoluindo, é mudar a si mesmo. Se conseguirmos mudar a nós mesmos, seremos capazes de sempre responder aos problemas. Acho que até agora em nosso curso nós temos sentido muita falta deste forte elemento. Em outras palavras, investimos muito tempo em dar conhecimento e habilidades aos estudantes em relação a como eles mudam o mundo lá fora. O que precisamos fazer é ter um esforço igual em termos de conhecimento e habilidade que você precisa para mudar a si mesmo. Porque, quando fizermos isto, quando estes pensadores saírem daqui, eles também vão tentar converter, não brutalmente, as comunidades com as quais vão trabalhar para mudarem internamente tanto quanto externamente. As ideias mais significativas começam com uma pessoa e esta pessoa precisa ter total comprometimento com o que vai fazer. Este comprometimento total vem de dentro. Como alguns dizem, “você é tolo ao achar que pode mudar o mundo, a única coisa que realmente pode mudar é a si mesmo”. É verdade, mas, ao mudar a si mesmo, você começa a influenciar outras pessoas. A chave para esta mudança interna para os pensadores de design ecológico é mudar a mentalidade, a maneira de ver o mundo. O lado bom disso é que você pode usar uma variedade de técnicas para mudar sua mentalidade, as quais você pode aplicar a um problema externo. Pense, por exemplo, em David Abram e sua abordagem fenomenológica das coisas. Então, se você muda sua mentalidade, não há mal algum em imaginar você como uma ave, pois isso te ajuda a mudar sua mentalidade. Apenas imaginar você como uma ave não necessariamente te ajuda a aplicar isso à solução de um problema no mundo. Mas se você mudou sua mentalidade, você já começou a mudar de posição em relação ao mundo. Portanto, algumas coisas vão mudar sua mentalidade e algumas destas podem ser altamente imaginativas e totalmente impraticáveis. Você não pode usá-las para resolver problemas do dia a dia, mas elas mudam a forma como você vê o mundo.

Mona Nasseri: EDT não é estranho às nossas existências. Design Thinking basicamente significa ter empatia para com os outros. Ecological Design Thinking significa ter empatia para com outros e os ecossistemas. É uma prática de estar constantemente consciente de outros seres, basicamente, e ter certeza que com cada ação nossa, não estamos comprometendo seu bem-estar. Parece abstrato, mas a realidade disso é que basta ver as conexões que temos, sentindo que somos parte deste grande sistema e que estamos conectados a tudo que acontece a nossa volta. Em termos de prática, eu diria que é muito importante fazer coisas [com as mãos], fabricar coisas, conectar-se com a terra, com o lugar onde estamos. Permacultura é uma parte importante disso. EDT não é só plantar e colher vegetais, é entender a sinergia entre seres vivos e sua conexão com a terra, com o solo. É um ecossistema perfeito e nós podemos utilizar princípios ecológicos ou da permacultura nas nossas rotinas. O mesmo se aplica aos nossos relacionamentos. Design Thinking é feito de uma série de processos interativos, que basicamente diz que a cada coisa que fazemos na vida, precisamos refletir sobre ela. Você não pode simplesmente fazer as coisas e passar reto. Não existe nada pronto, tudo está sempre evoluindo, é parte de um fluxo de evolução. Precisamos parar e refletir sobre tudo que fazemos na vida, aprender com isso e levar adiante.

Fale sobre sua transição profissional, quando você começou a aplicar EDT.Seaton Baxter: Foi uma transição interessante, pois eu passei 15 anos trabalhando no setor agrícola com design de equipamentos e prédios e estudando comportamento animal na agricultura. Por um período, eu trabalhei principalmente com produção intensiva de gado, galinhas e porcos, onde eu desenvolvia soluções técnicas muito interessantes (porque as pessoas me diziam que eram). Então, finalmente me ocorreu que havia algo errado, eu tinha esquecido que era sobre os animais. Em outras palavras, eu era um verdadeiro designer técnico, que só via as mudanças técnicas. Então eu escrevi um livro sobre todo o trabalho que eu fiz de soluções técnicas e na parte dos reconhecimentos, no início do livro, eu escrevi “Eu gostaria de agradecer a todos os porcos com quem trabalhei. Deve haver um caminho melhor”. Este foi o ponto de virada para mim, que veio através dos animais. Voltei para a universidade e comecei a estudar ética e filosofia animal. Então, a minha transição foi de ser um tecnologista puro através de um lado muito técnico da agricultura para a ideia de animais, plantas, plantações em termos de posições éticas e morais no design. Isso me coloca numa posição interessante com os meus estudantes, aqui na Schumacher, porque eu levanto questões e mostro-lhes imagens de produção intensiva de animais e isso é quase banido aqui na escola, porque, você sabe, somos vegetarianos aqui. Mas vivemos num mundo real e precisamos confrontar alguns destes problemas tão difíceis. Podemos não gostar, mas está aí. Milhões de animais sofrem nesta indústria e precisamos tratar deste assunto. Não basta saber sobre isso, entrar em negação e só virar vegetariano. Precisamos ir além e encarar estas questões como bons pensadores de design ecológico.

Mas se tornar vegetariano e posteriormente vegano tem a ver com a mudança interna que você mencionou antes.Exatamente, muito bem colocado, porque apesar de não ser estruturalmente uma mudança interna, é um passo para a mudança interna. Você acharia muito difícil fazer uma viagem interna profunda se ainda comesse carne. O fato de comer ou não carne não é a mudança interna, mas é o trampolim para a mudança interna e se você não fizer ambos, você está vivendo uma vida de dissonância, é incoerente. Você é confrontado com um conjunto de conflitos internos. “Por que eu tento acreditar nisto profundamente?” enquanto eu sento e como um bife. Não faz sentido. É difícil, a mudança interna é a mais difícil, porque é muito fácil quando você luta com uma mudança interna e depois desiste, pensando que ninguém vai notar.

A não ser a própria pessoa.Exatamente, o que nos leva de volta à questão de que a única coisa que você pode mudar no mundo é você mesmo.
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Ambientalista: um ser contraditório?

Por Letícia Maria Klein •
16 agosto 2017
Uma das formas de exercer a empatia e a compreensão é pensar que existem coisas para as quais os outros despertaram e nós ainda não e vice-versa. Nessa lógica, se existem questões para as quais eu já despertei em termos de sustentabilidade e vida holística e outras questões ainda não, isso me torna uma pessoa incoerente? Será que o ambientalista é uma pessoa em constante contradição?

A jornalista Madeleine Somerville fala sobre isso neste artigo do The Guardian, intitulado “Como lido com a insuportável hipocrisia de ser uma ambientalista”. Madeleine começa dizendo que se considera ambientalista, mas ainda assim foi a uma concessionária comprar um carro novo no fim de semana anterior. Ela diz que defende o consumo de coisas de segunda mão e encoraja as pessoas a utilizarem o transporte público e andarem a pé (o que ela também faz regularmente), “mas lá estava ela pegando a chave e saindo num veículo novo brilhante e uma sensação de desconforto”.



Essa dissonância entre o falar e o viver também aconteceu com um advogado que ela conheceu naquela época. Ele trabalhava para proteger os rios e lagos que tanto ama no Canadá, mas este trabalho (importantíssimo, diga-se de passagem) não permitia que ele aproveitasse estas paisagens naturais, ficando de 50 a 70 horas por semana no escritório. “Ele está dividido entre a mudança que quer criar e sua capacidade de ver o mundo natural além dos fins de semana entre os casos”, conta Madeleine.

A maioria dos ambientalistas, ela coloca, se vê tendo que lidar com essa tensão, pois alguns têm seus próprios carros, outros ainda comem carne e os mais famosos voam longas distâncias para falar sobre os impactos das emissões de carbono. “Todos nós existimos dentro do próprio sistema que esperamos mudar. Eu uso um laptop, um smartphone, internet, eletricidade. A maioria das publicações em que escrevo artigos anticonsumismo são apoiadas e pagas por propagandas”, expõe.

“Essa hipocrisia é um delicado equilíbrio. Ele fala para a realidade aparentemente inescapável desta máquina norte-americana que construímos e que agora administra nossa vida. Para evitar isso, é preciso escapar para a floresta, sair do sistema. Você subtrairá a maior parte do seu impacto ambiental ao fazê-lo. Eu acho que todo mundo fantasia sobre isso de vez em quando (eu certamente faço), mas você também perderá conexão humana e cultura inestimáveis, junto com a capacidade de educar ou inspirar mudanças nos outros.”

Isso me fez lembrar de Christopher Johnson McCandless, um jovem viajante dos Estados Unidos cuja história de vida virou o livro e filme “Na natureza selvagem” (Into the wild), de Jon Krakauer. Uma de suas frases memoráveis é que a “felicidade só [é] real quando compartilhada”. Como seres sociais que somos, é muito importante estar em sociedade, pois é nos relacionamentos e situações sociais do dia a dia que muito aprendemos e nos melhoramos como pessoa. Mas, com toda a certeza do mundo, é sim necessário ter contato direto e frequente com a natureza, para o bem do corpo, da alma e da mente. Então, o ideal é você encontrar o equilíbrio que satisfaça suas necessidades e te deixe bem.



Madeleine termina o texto dizendo que se sente mal por ter um carro, mas ela se deu conta de que escolher tentar [ter hábitos sustentáveis] significa também aceitar que você vai falhar algumas vezes. “Você pode aceitar o status quo ou você pode trabalhar por algo melhor. Fazer isso se parece menos com mudar-se para uma cabana na floresta e mais com encontrar uma forma de existir numa uma sociedade desconfortavelmente insustentável enquanto também tenta mudá-la”.

No fim, tudo se resume a ser coerente consigo mesmo e mudar seus hábitos na medida da sua consciência e na velocidade que lhe permita ter leveza nas decisões. Comportamentos baseados na obrigação de agir diferente não duram muito. A mudança precisa fazer sentido. A compreensão das causas e consequências e sua ligação com aquilo que quer mudar precisam ser a base sólida que vão manter firme o seu propósito de viver e agir diferente do que antes. Não fazer nada para mudar as situações ruins é fazer parte do problema. Quem quer um mundo melhor precisa ser parte da solução e isso se faz começando em algum lugar. Não dá para fazer tudo de uma vez.

Conforme vamos adotando hábitos sustentáveis que não se enquadram no sistema e mudando de estilo de vida, ficamos mais suscetíveis a críticas e é justamente isso, analisa Madeleine, que previne as pessoas de adotarem mais práticas verdes. “Te pedem para justificar sua decisão de mudar qualquer coisa quando você não está se comprometendo a mudar tudo.” O quanto você quer mudar, como vai fazer isso e até onde quer ir diz respeito à sua consciência. Sempre haverá pessoas apontando o que o outro não está fazendo em prol do ambiente. Já pensou como seria se essas pessoas empregassem a energia e o tempo para criticar em determinação de agir sustentavelmente?

A crítica e a estranheza estão bem presentes na minha vida. Tem vezes que sou incompreendida por minhas crenças e hábitos (como de carregar meus próprios talheres) e vejo pessoas me olhando como se tivessem visto um ser de outro mundo. Outras olham com curiosidade. O que de fato importa pra mim é que estou sendo coerente com o meu pensamento de que precisamos parar de produzir lixo, porque isso faz sentido pra mim. Mas se eu falasse (como faço aqui no blog e em palestras) e saísse por aí usando copos e talheres descartáveis? Na minha cabeça eu estaria sendo incoerente.

Pode ser difícil mudar de hábitos quando vivemos no sistema, talvez para uns mais do que para outros. Porém, não conseguir adaptar tudo não significa que não possamos adaptar algumas coisas, mudar alguns hábitos ou no mínimo tentar. Como li esses dias por aí, “não tenha medo de ir devagar, tenha medo de ficar parado”. O que importa é agir, respeitando seu ritmo e vivendo de acordo com o que faz sentido pra ti. O universo está em constate movimento, nada é estático ou permanentemente imutável. Aceitar isso é entender que a mudança é inerente à vida. Quem hoje critica, eventualmente vai mudar de opinião. O que você não faz hoje pode eventualmente vir a fazer. Uma coisa vai ligando à outra, cada uma na sua hora.

Cada ação em prol da sustentabilidade é um ato de valorização da vida, como escrevi neste artigo para o Conexão Planeta, e a cada despertar, mais conectados e responsáveis nos sentimos com o todo que nos envolve.
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What the health, de Kip Andersen [Resenha] - Saúde de dentro para fora

Por Letícia Maria Klein •
08 julho 2017
A alimentação é a relação mais íntima que temos com nosso próprio corpo. Algumas vezes por dia, ingerimos substâncias e compostos que vão passar por órgãos digestores e entrar na corrente sanguínea. Parece óbvio que tudo que comemos influencia a constituição física, a saúde, o emocional, estados de humor e da mente, mas este fato costuma passar batido ou até é deixado de lado de propósito. O documentário What the health, dos mesmos produtores de Cowspiracy, aborda essa questão e vai além.



Com o relato de médicos, pesquisadores e profissionais de defesa do consumidor, o cineasta Kip Andersen revela o segredo para prevenção e reversão de doenças crônicas e investiga por que os principais organismos de saúde dos Estados Unidos não querem que as pessoas descubram-no. Estes órgãos foram contatados, mas se recusaram a gravar entrevista ou falar sobre a relação entre dieta e doença.

Além disso, o documentário mostra os diversos malefícios causados por comida industrializada e processada, como câncer, diabetes e doenças cardíacas. Para explicar o que ocorre com a comida dentro do corpo e como ela afeta a saúde, são exibidos gráficos bem elucidativos e a linguagem dos profissionais entrevistados é didática e clara.

Os dados científicos, conseguidos em entrevistas e artigos, apontam ainda os benefícios de uma dieta baseada em vegetais (com todas as proteínas a que temos direito!), como mais disposição, restauração do equilíbrio hormonal e suspensão do uso de fármacos. Kip acompanhou pacientes com doenças crônicas severas que mudaram seus hábitos alimentares e são prova viva disso. Não só a dieta vegetariana fortalece a saúde, como também respeita os animais e preserva o ambiente.

Similar a Cowspiracy, o site de What the health apresenta as fontes de todos os dados fornecidos no filme e te convida a participar do desafio de ser vegano por 30 dias. O filme está disponível para assinantes do Netflix e para compra no Vimeo. Se você já é vegetariano ou vegano, quer melhorar sua saúde de forma natural e/ou conhecer um dos maiores jeitos de contribuir para a conservação do nosso planeta, este documentário vai te ajudar e muito! Veja uma provinha no trailer abaixo.


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Mantra da teia da vida - Cuidar de si, cuidar do outro, cuidar do meio

Por Letícia Maria Klein •
27 junho 2017
Você já ouviu falar em teia da vida? É ela que rege a vida no planeta e no universo, conectando todos os seres vivos e elementos da natureza, como água, solo, atmosfera, minerais e corpos celestes como o Sol e a Lua. Estamos todos inseridos na teia da vida e dependemos desta rede de relações interdependentes em todos os momentos da nossa existência, do instante em que acordamos até acordar novamente no dia seguinte. Os gregos antigos já tinham esta visão, usando o conceito de physis para indicar as relações entre todas as coisas, vivas ou não.



Estamos tão embrenhados nesta teia de vida que não vivemos um mísero segundo fora dela. A começar por nós mesmos, que abrigamos uma colônia de trilhões de bactérias e outros microrganismos que nos ajudam nos processos fisiológicos que acontecem no nosso corpo. Porém, vivemos tão agitados, como se no piloto automático, que acabamos não percebendo as relações fundamentais. Por isso é tão importante cuidar do meu corpo, praticar exercícios, ter uma alimentação saudável, trabalhar com o que me satisfaz e dedicar um tempo diário ou semanal para me conhecer e me conectar comigo mesmo.

Os meus relacionamentos com os outros e com o ambiente onde vivo são um reflexo da minha relação comigo mesmo. Quanto melhor a minha relação comigo, melhor serão as minhas relações com os outros seres vivos e não vivos e melhor serão minhas atitudes, pois passo a desenvolver mais consciência de mim, do outro e do meio e de todas as inter-relações e interdependências que nos conectam. Práticas como a meditação, ioga e caminhada, entre outras, me permitem momentos de reflexão e autoconhecimento para uma vida com mais significado e propósito.



Quanto mais eu me conheço, mais entendo sobre meus desejos e necessidades, conseguindo identificar o que de fato eu preciso e o que é supérfluo, desde sentimentos, sensações, experiências e objetivos a coisas e bens materiais. Este conhecimento me torna um consumidor consciente e se reflete numa relação muito mais harmônica e equilibrada num planeta de proporções e bens naturais finitos, não renováveis em escala humana. A Terra consegue satisfazer a necessidade de todos os seres vivos, mas não a ambição e o orgulho de todos os seres humanos.

O consumo consciente diz respeito à maneira como eu uso meu tempo, minha energia, roupas, como eu me alimento, o que e como eu compro, como eu descarto os resíduos sólidos, entre tantas outras questões. A lógica minimalista de que menos é mais, neste contexto, se traduz em menos consumo de objetos materiais, de água, de eletricidade, de embalagens, menos geração de lixo, mais compostagem e reutilização, mais uso de transporte público ou bicicleta, mais consciência na alimentação, mais respeito e empatia a outros seres vivos e elementos da natureza, mais consciência ecológica, mais educação planetária.

Por viver numa teia da vida, é como se eu fosse um nó. Cada ação e atitude que tenho no meu dia a dia têm repercussões pelos fios invisíveis desta rede universal, de pequenas a grandes, locais a globais. Assim, sou as mudanças que quero ver no mundo.
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