Design para harmonia, resiliência e adaptação às mudanças

Por Letícia Maria Klein •
20 setembro 2017
O Ecological Design Thinking (algo como pensamento de desenho ecológico) é uma das modalidades mais recentes do design e tem tudo a ver com empatia. No terceiro vídeo da série “Da Schumacher para o mundo”, o tema é o papel do Ecological Design Thinking (EDT) no mundo e como podemos aplicá-lo nas nossas vidas. Conversei com Seaton Baxter, ex-coordenador do curso de mestrado em EDT da Schumacher College (ele se aposentou no fim de 2016) e com Mona Nasseri, que trabalha na faculdade como pesquisadora em design e membro da equipe do mestrado. As entrevistas completas e recheadas de informações interessantes estão abaixo. Como eu fico muito curiosa para saber o que você achou, deixe seu comentário no fim da postagem e nós vamos conversando. 



Como Ecological Design e Design Thinking se combinam em Ecological Design Thinking?Seaton Baxter: A ideia de Ecological Design é muito mais velha do que Ecological Design Thinking. Provavelmente, os primeiros usos de Ecological Design datam de 1980, quando começou com pessoas como John e Nancy Todd e David Orr. Eu comecei Ecological Design como um curso de mestrado em Aberdeen in 1992. Na época, Ecological Design era visto como uma extensão do trabalho dos projetistas, era orientado a pessoas que tinham habilidade de projetar e foi apenas estendido pela dimensão ecológica. Nossa preocupação era que, enquanto vimos muitos exemplos de lindos projetos, também vimos muitos maus exemplos pela perspectiva ecológica. Um exemplo clássico seria o projeto lindo de carros motorizados, mas a dimensão ecológica da poluição que sai da exaustão nunca havia sido considerada. Então, os carros são um exemplo de bela engenharia, mas ninguém pensou nas consequências dos gases saindo dos canos de exaustão. Se tivessem pensado, teriam considerado a perspectiva ecológica. Então, em 1992 começamos um curso de mestrado em Ecological Design em Aberdeen e acho que foi um dos primeiros cursos do gênero no mundo. A ideia era que reuniríamos estudantes de design e também de biologia e ecologia. Mas tivemos dificuldades: os estudantes de design não tinham nenhum conhecimento de biologia ou ecologia, portanto, eles achavam muito difícil lidar com ecologia no nível de mestrado. Eles teriam conseguido lidar em nível de graduação, mas não de mestrado. Em contraste, os cientistas que vieram dos campos de biologia e ecologia conseguiam lidar com design. Eles nunca seriam bons projetistas, pois leva tempo para isso acontecer, mas eles conseguiam lidar bem com os conceitos. Este foi o começo e Ecological Design era a matéria de então. Eu achei na época que nós não tínhamos realmente material de base para resolver a questão. Em outras palavras, era muito fácil pensar que era apenas design com “ecologia” colocada na frente. O que isso significaria? Nós ainda não tínhamos descoberto. Cerca de 10 anos depois, eu fui convidado pela Universidade de Dundee, onde eu reuni um pequeno grupo de acadêmicos de PhD e criei um centro para estudo de Design Natural. Durante os 10 anos seguintes, nós criamos 10 ou 15 teses de PhD que analisaram o que é Ecological Design [desenho/projeção ecológico]. Estávamos construindo toda uma plataforma de informação sobre esse assunto. Então a universidade quis que eu me aposentasse e três anos depois a Schumacher College decidiu criar um mestrado em Ecological Design Thinking, não apenas Ecological Design, e perguntou se eu estaria disposto a colaborar. Então esta é a diferença: Ecological Design, num nível de mestrado, realmente precisa ser voltado para pessoas treinadas em design, é uma elaboração das suas técnicas de design. É uma elaboração significativa, pois é ecológica. Porém, a Schumacher queria trazer pessoas que não necessariamente têm habilidades de design. Nos últimos 10 anos, desenvolveu-se a ideia de Design Thinking, que não precisa ser feito por designers, mas é uma técnica que designers têm usado para lidar com problemas complexos. A Schumacher decidiu que a forma com que se trabalharia aqui era desenvolver um mestrado em Ecological Design Thinking, que permitiria a participação de estudantes vindos de múltiplas disciplinas. Então, EDT é a aplicação de uma técnica de pensamento de design vista pela perspectiva ecológica.

Qual é a importância do Ecological Design Thinking para o mundo hoje?Seaton Baxter: Uma forma de analisar é olhar para trás e perguntar quais são todas as coisas que fizemos de errado. A maioria das coisas que fazemos neste mundo é projetada/desenhada. Não necessariamente profissionalmente projetadas, mas quando você pensa sobre isso, quando acorda de manhã e decide qual será seu café da manhã, você projetou sua refeição. Então, estamos sempre projetando de alguma forma. Um designer muito famoso, Victor Papanek, disse que todos somos designers, só que não todos são profissionais. A questão é que todos precisamos ser designers ecológicos, ou, pelo menos, pensadores de design ecológico. Porque quando voltamos aos problemas que criamos, nós os criamos porque nunca pensamos nas consequências de um impacto ecológico, em seu maior sentido. Pense em todas as coisas que nós aqui na Schumacher falaríamos que são terríveis: quais seriam elas? A maioria delas teriam sido decisões projetadas ou pensadas sem levar em conta as consequências ambientais. Então, a maioria dos problemas que temos são problemas para os quais poderíamos ter encontrado solução se tivéssemos tido Ecological Design Thinking. Esta é uma forma de abordagem: ver todos os erros que cometemos, aplicar o Ecological Design Thinking e pensar o que teríamos feito se o tivéssemos usado. É como um desenho do passado. Mas, claro, o que temos que lembrar é: porque tudo está mudando e evoluindo, haverá novos problemas que não têm precedentes. O mais interessante destes problemas é que todos são muito complexos, problemas que você não consegue resolver ao dividi-los em partes. Na verdade, no passado, essa é que foi nossa dificuldade. Fomos muito bons em reduzir problemas a pedaços, apenas para futuramente perceber que os reduzir a partes não é igual a quando tentamos lidar com o problema inteiro, de uma forma holística. Então, agora, nós temos que ir em frente e pensar. Estes problemas complexos e perversos, como as mudanças climáticas, pobreza, obesidade, são problemas que você não consegue retirar um pedaço dele sem entender que ele está ligado a todo o resto. Então precisamos olhar para estes problemas de novas formas. E essas formas, atualmente, nos parecem associadas a Design Thinking, a técnica de lidar com problemas complexos. O interessante do Design Thinking é que não se acredita que você consiga achar uma resposta para um problema complexo. Esta é uma ideia velha de design: “aqui está o problema, esta é forma como lidamos com ele, esta é a resposta”. Essa é uma forma muito simples de abordagem. E você não conseguiria lidar com um problema complexo dessa forma. A essência de lidar com problemas complexos é o entendimento de que não existe uma única resposta; é essencialmente sobre como você lida com o problema e não como você o resolve, porque ele sempre vai evoluir. Então tem a ver com aprender a lidar com o problema, o que significa que mais design participativo. Mais design trabalhando com comunidades pequenas significa trabalhar com a comunidade de forma que ela continue evoluindo, porque o problema está constantemente mudando e não há uma única resposta. E a única coisa que constantemente muda com o problema é a comunidade. Design Thinking é uma ótima técnica, mas precisamos ter a dimensão ecológica, caso contrário, vamos acabar com Design Thinking resolvendo problemas, mas que não são ecológicos, o que gera mais problemas. Não seria uma técnica de solução em longo prazo. E ainda, a dimensão ecológica é difícil, porque toda a noção de ecologia é em si mesma um processo em constante evolução. O ecossistema a nossa volta não é o mesmo hoje do que foi ontem, está continuamente evoluindo. Ecological Design Thinking precisa ser um sistema dinâmico em constante evolução e para fazer isso não faz sentido dizer que o designer é o solucionador de problemas, as pessoas que têm o problema é que precisam lidar com ele.

Quais são as implicações de EDT para o mundo sustentável?Mona Nasseri: Primeiro, precisamos definir o que é EDT. É uma área muito nova que estamos explorando. Até agora sabemos que EDT é uma evolução do design e do Design Thinking. Temos que ter conhecimento de como o design evoliu ao longo dos últimos 30 anos. Design não é mais só sobre criar objetos e comunicar aos clientes. Até a década de 1970, era a rentabilidade do design que definia seu sucesso. Mas, gradualmente, isso mudou. Os designers perceberam que para tornar o design bem sucedido, eles precisavam satisfazer as necessidades dos usuários. Então, o design evoluiu do foco no lucro para o foco no usuário. Por volta de 1980, um novo campo do design começou a surgir. Design Thinking tem a ver com ser empático ao usuário. Não é mais sobre obter um produto num período curto de tempo com menos dinheiro, é sobre entender o usuário. Design Thinking tem sido aplicado em gestão, negócios e até na política. Nos últimos 10 anos, Design Thinking entrou na área da sustentabilidade e teve um grande papel na expansão do design para outras áreas, especialmente inovação social. Há também design de transição nos EUA, que começou há cinco ou seis anos, que tem uma visão sustentável de sociedade em curto e longo prazo. Em EDT, tentamos incorporar tudo isso, ter uma conexão profunda com ecologia e aprender com os ecossistemas. Nós não projetamos para ecossistemas. Ecossistemas não precisam do nosso design. A natureza tem um design perfeito. Mas nós podemos aprender com a natureza e fazer design para pessoas de uma forma que a natureza possa prosperar junto com os humanos. Ao invés de explorarmos o ambiente natural, nós podemos ter uma relação sinérgica com o ambiente natural e tanto a sociedade quanto os ecossistemas prosperam. Esta é a nossa missão em EDT. No passado, era sobre resolver problemas. Agora, design é sobre ver o potencial nos problemas e ver problemas não só como problemas, mas como oportunidades de fazer as coisas de forma melhor para as pessoas e o ambiente.

Cite alguns exemplos de EDT aplicados à realidade.Mona Nasseri: Alguns dos nossos estudantes pós-graduados têm se envolvido com educação. Dois deles estão trabalhando em Woodstock School (uma escola internato), na Índia, onde estão construindo um centro para a imaginação, usando os princípios do EDT para educar jovens, instigando-os a usar a imaginação e a criatividade para liderar movimentos em prol de sociedades sustentáveis. Outro estudante trabalhou no governo de Mallorca (ou Majorca) para desenvolver uma nova logomarca para o Estado e o processo foi bem interessante. Um pensador de design ecológico sabe que tudo que ele cria ou produz, basicamente tudo que ele faz, gera uma mudança no sistema. O trabalho dele consistiu em restabelecer o que estava por trás daquela logo e criar um sistema a partir de um material real, como a cor que ele usou na logo, que foi natural. Outro exemplo com o qual me envolvi recentemente é a colaboração em pesquisa com a Universidade Plymouth no nordeste da Tanzânia para explorar a resiliência ecológica e social de uma área em particular naquela região. A ideia é ter cientistas sociais explorando o lado social de impactos ambientais, cientistas naturais explorando o aspecto natural e pensadores de design ecológico para criar pontes entre esses dois com o objetivo de usar a sabedoria local para resolver problemas locais.

Como podemos aplicar conceitos de EDT nas nossas vidas?Seaton Baxter: Tudo que eu disse até agora implica que design tem a ver com como nós nos esforçamos em mudar o mundo lá fora. Esta é visão corriqueira do design, que se aplica ao mundo externo. Mas a chave, na minha visão, se as situações estão continuamente evoluindo, é mudar a si mesmo. Se conseguirmos mudar a nós mesmos, seremos capazes de sempre responder aos problemas. Acho que até agora em nosso curso nós temos sentido muita falta deste forte elemento. Em outras palavras, investimos muito tempo em dar conhecimento e habilidades aos estudantes em relação a como eles mudam o mundo lá fora. O que precisamos fazer é ter um esforço igual em termos de conhecimento e habilidade que você precisa para mudar a si mesmo. Porque, quando fizermos isto, quando estes pensadores saírem daqui, eles também vão tentar converter, não brutalmente, as comunidades com as quais vão trabalhar para mudarem internamente tanto quanto externamente. As ideias mais significativas começam com uma pessoa e esta pessoa precisa ter total comprometimento com o que vai fazer. Este comprometimento total vem de dentro. Como alguns dizem, “você é tolo ao achar que pode mudar o mundo, a única coisa que realmente pode mudar é a si mesmo”. É verdade, mas, ao mudar a si mesmo, você começa a influenciar outras pessoas. A chave para esta mudança interna para os pensadores de design ecológico é mudar a mentalidade, a maneira de ver o mundo. O lado bom disso é que você pode usar uma variedade de técnicas para mudar sua mentalidade, as quais você pode aplicar a um problema externo. Pense, por exemplo, em David Abram e sua abordagem fenomenológica das coisas. Então, se você muda sua mentalidade, não há mal algum em imaginar você como uma ave, pois isso te ajuda a mudar sua mentalidade. Apenas imaginar você como uma ave não necessariamente te ajuda a aplicar isso à solução de um problema no mundo. Mas se você mudou sua mentalidade, você já começou a mudar de posição em relação ao mundo. Portanto, algumas coisas vão mudar sua mentalidade e algumas destas podem ser altamente imaginativas e totalmente impraticáveis. Você não pode usá-las para resolver problemas do dia a dia, mas elas mudam a forma como você vê o mundo.

Mona Nasseri: EDT não é estranho às nossas existências. Design Thinking basicamente significa ter empatia para com os outros. Ecological Design Thinking significa ter empatia para com outros e os ecossistemas. É uma prática de estar constantemente consciente de outros seres, basicamente, e ter certeza que com cada ação nossa, não estamos comprometendo seu bem-estar. Parece abstrato, mas a realidade disso é que basta ver as conexões que temos, sentindo que somos parte deste grande sistema e que estamos conectados a tudo que acontece a nossa volta. Em termos de prática, eu diria que é muito importante fazer coisas [com as mãos], fabricar coisas, conectar-se com a terra, com o lugar onde estamos. Permacultura é uma parte importante disso. EDT não é só plantar e colher vegetais, é entender a sinergia entre seres vivos e sua conexão com a terra, com o solo. É um ecossistema perfeito e nós podemos utilizar princípios ecológicos ou da permacultura nas nossas rotinas. O mesmo se aplica aos nossos relacionamentos. Design Thinking é feito de uma série de processos interativos, que basicamente diz que a cada coisa que fazemos na vida, precisamos refletir sobre ela. Você não pode simplesmente fazer as coisas e passar reto. Não existe nada pronto, tudo está sempre evoluindo, é parte de um fluxo de evolução. Precisamos parar e refletir sobre tudo que fazemos na vida, aprender com isso e levar adiante.

Fale sobre sua transição profissional, quando você começou a aplicar EDT.Seaton Baxter: Foi uma transição interessante, pois eu passei 15 anos trabalhando no setor agrícola com design de equipamentos e prédios e estudando comportamento animal na agricultura. Por um período, eu trabalhei principalmente com produção intensiva de gado, galinhas e porcos, onde eu desenvolvia soluções técnicas muito interessantes (porque as pessoas me diziam que eram). Então, finalmente me ocorreu que havia algo errado, eu tinha esquecido que era sobre os animais. Em outras palavras, eu era um verdadeiro designer técnico, que só via as mudanças técnicas. Então eu escrevi um livro sobre todo o trabalho que eu fiz de soluções técnicas e na parte dos reconhecimentos, no início do livro, eu escrevi “Eu gostaria de agradecer a todos os porcos com quem trabalhei. Deve haver um caminho melhor”. Este foi o ponto de virada para mim, que veio através dos animais. Voltei para a universidade e comecei a estudar ética e filosofia animal. Então, a minha transição foi de ser um tecnologista puro através de um lado muito técnico da agricultura para a ideia de animais, plantas, plantações em termos de posições éticas e morais no design. Isso me coloca numa posição interessante com os meus estudantes, aqui na Schumacher, porque eu levanto questões e mostro-lhes imagens de produção intensiva de animais e isso é quase banido aqui na escola, porque, você sabe, somos vegetarianos aqui. Mas vivemos num mundo real e precisamos confrontar alguns destes problemas tão difíceis. Podemos não gostar, mas está aí. Milhões de animais sofrem nesta indústria e precisamos tratar deste assunto. Não basta saber sobre isso, entrar em negação e só virar vegetariano. Precisamos ir além e encarar estas questões como bons pensadores de design ecológico.

Mas se tornar vegetariano e posteriormente vegano tem a ver com a mudança interna que você mencionou antes.Exatamente, muito bem colocado, porque apesar de não ser estruturalmente uma mudança interna, é um passo para a mudança interna. Você acharia muito difícil fazer uma viagem interna profunda se ainda comesse carne. O fato de comer ou não carne não é a mudança interna, mas é o trampolim para a mudança interna e se você não fizer ambos, você está vivendo uma vida de dissonância, é incoerente. Você é confrontado com um conjunto de conflitos internos. “Por que eu tento acreditar nisto profundamente?” enquanto eu sento e como um bife. Não faz sentido. É difícil, a mudança interna é a mais difícil, porque é muito fácil quando você luta com uma mudança interna e depois desiste, pensando que ninguém vai notar.

A não ser a própria pessoa.Exatamente, o que nos leva de volta à questão de que a única coisa que você pode mudar no mundo é você mesmo.
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Ambientalista: um ser contraditório?

Por Letícia Maria Klein •
16 agosto 2017
Uma das formas de exercer a empatia e a compreensão é pensar que existem coisas para as quais os outros despertaram e nós ainda não e vice-versa. Nessa lógica, se existem questões para as quais eu já despertei em termos de sustentabilidade e vida holística e outras questões ainda não, isso me torna uma pessoa incoerente? Será que o ambientalista é uma pessoa em constante contradição?

A jornalista Madeleine Somerville fala sobre isso neste artigo do The Guardian, intitulado “Como lido com a insuportável hipocrisia de ser uma ambientalista”. Madeleine começa dizendo que se considera ambientalista, mas ainda assim foi a uma concessionária comprar um carro novo no fim de semana anterior. Ela diz que defende o consumo de coisas de segunda mão e encoraja as pessoas a utilizarem o transporte público e andarem a pé (o que ela também faz regularmente), “mas lá estava ela pegando a chave e saindo num veículo novo brilhante e uma sensação de desconforto”.



Essa dissonância entre o falar e o viver também aconteceu com um advogado que ela conheceu naquela época. Ele trabalhava para proteger os rios e lagos que tanto ama no Canadá, mas este trabalho (importantíssimo, diga-se de passagem) não permitia que ele aproveitasse estas paisagens naturais, ficando de 50 a 70 horas por semana no escritório. “Ele está dividido entre a mudança que quer criar e sua capacidade de ver o mundo natural além dos fins de semana entre os casos”, conta Madeleine.

A maioria dos ambientalistas, ela coloca, se vê tendo que lidar com essa tensão, pois alguns têm seus próprios carros, outros ainda comem carne e os mais famosos voam longas distâncias para falar sobre os impactos das emissões de carbono. “Todos nós existimos dentro do próprio sistema que esperamos mudar. Eu uso um laptop, um smartphone, internet, eletricidade. A maioria das publicações em que escrevo artigos anticonsumismo são apoiadas e pagas por propagandas”, expõe.

“Essa hipocrisia é um delicado equilíbrio. Ele fala para a realidade aparentemente inescapável desta máquina norte-americana que construímos e que agora administra nossa vida. Para evitar isso, é preciso escapar para a floresta, sair do sistema. Você subtrairá a maior parte do seu impacto ambiental ao fazê-lo. Eu acho que todo mundo fantasia sobre isso de vez em quando (eu certamente faço), mas você também perderá conexão humana e cultura inestimáveis, junto com a capacidade de educar ou inspirar mudanças nos outros.”

Isso me fez lembrar de Christopher Johnson McCandless, um jovem viajante dos Estados Unidos cuja história de vida virou o livro e filme “Na natureza selvagem” (Into the wild), de Jon Krakauer. Uma de suas frases memoráveis é que a “felicidade só [é] real quando compartilhada”. Como seres sociais que somos, é muito importante estar em sociedade, pois é nos relacionamentos e situações sociais do dia a dia que muito aprendemos e nos melhoramos como pessoa. Mas, com toda a certeza do mundo, é sim necessário ter contato direto e frequente com a natureza, para o bem do corpo, da alma e da mente. Então, o ideal é você encontrar o equilíbrio que satisfaça suas necessidades e te deixe bem.



Madeleine termina o texto dizendo que se sente mal por ter um carro, mas ela se deu conta de que escolher tentar [ter hábitos sustentáveis] significa também aceitar que você vai falhar algumas vezes. “Você pode aceitar o status quo ou você pode trabalhar por algo melhor. Fazer isso se parece menos com mudar-se para uma cabana na floresta e mais com encontrar uma forma de existir numa uma sociedade desconfortavelmente insustentável enquanto também tenta mudá-la”.

No fim, tudo se resume a ser coerente consigo mesmo e mudar seus hábitos na medida da sua consciência e na velocidade que lhe permita ter leveza nas decisões. Comportamentos baseados na obrigação de agir diferente não duram muito. A mudança precisa fazer sentido. A compreensão das causas e consequências e sua ligação com aquilo que quer mudar precisam ser a base sólida que vão manter firme o seu propósito de viver e agir diferente do que antes. Não fazer nada para mudar as situações ruins é fazer parte do problema. Quem quer um mundo melhor precisa ser parte da solução e isso se faz começando em algum lugar. Não dá para fazer tudo de uma vez.

Conforme vamos adotando hábitos sustentáveis que não se enquadram no sistema e mudando de estilo de vida, ficamos mais suscetíveis a críticas e é justamente isso, analisa Madeleine, que previne as pessoas de adotarem mais práticas verdes. “Te pedem para justificar sua decisão de mudar qualquer coisa quando você não está se comprometendo a mudar tudo.” O quanto você quer mudar, como vai fazer isso e até onde quer ir diz respeito à sua consciência. Sempre haverá pessoas apontando o que o outro não está fazendo em prol do ambiente. Já pensou como seria se essas pessoas empregassem a energia e o tempo para criticar em determinação de agir sustentavelmente?

A crítica e a estranheza estão bem presentes na minha vida. Tem vezes que sou incompreendida por minhas crenças e hábitos (como de carregar meus próprios talheres) e vejo pessoas me olhando como se tivessem visto um ser de outro mundo. Outras olham com curiosidade. O que de fato importa pra mim é que estou sendo coerente com o meu pensamento de que precisamos parar de produzir lixo, porque isso faz sentido pra mim. Mas se eu falasse (como faço aqui no blog e em palestras) e saísse por aí usando copos e talheres descartáveis? Na minha cabeça eu estaria sendo incoerente.

Pode ser difícil mudar de hábitos quando vivemos no sistema, talvez para uns mais do que para outros. Porém, não conseguir adaptar tudo não significa que não possamos adaptar algumas coisas, mudar alguns hábitos ou no mínimo tentar. Como li esses dias por aí, “não tenha medo de ir devagar, tenha medo de ficar parado”. O que importa é agir, respeitando seu ritmo e vivendo de acordo com o que faz sentido pra ti. O universo está em constate movimento, nada é estático ou permanentemente imutável. Aceitar isso é entender que a mudança é inerente à vida. Quem hoje critica, eventualmente vai mudar de opinião. O que você não faz hoje pode eventualmente vir a fazer. Uma coisa vai ligando à outra, cada uma na sua hora.

Cada ação em prol da sustentabilidade é um ato de valorização da vida, como escrevi neste artigo para o Conexão Planeta, e a cada despertar, mais conectados e responsáveis nos sentimos com o todo que nos envolve.
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What the health, de Kip Andersen [Resenha] - Saúde de dentro para fora

Por Letícia Maria Klein •
08 julho 2017
A alimentação é a relação mais íntima que temos com nosso próprio corpo. Algumas vezes por dia, ingerimos substâncias e compostos que vão passar por órgãos digestores e entrar na corrente sanguínea. Parece óbvio que tudo que comemos influencia a constituição física, a saúde, o emocional, estados de humor e da mente, mas este fato costuma passar batido ou até é deixado de lado de propósito. O documentário What the health, dos mesmos produtores de Cowspiracy, aborda essa questão e vai além.



Com o relato de médicos, pesquisadores e profissionais de defesa do consumidor, o cineasta Kip Andersen revela o segredo para prevenção e reversão de doenças crônicas e investiga por que os principais organismos de saúde dos Estados Unidos não querem que as pessoas descubram-no. Estes órgãos foram contatados, mas se recusaram a gravar entrevista ou falar sobre a relação entre dieta e doença.

Além disso, o documentário mostra os diversos malefícios causados por comida industrializada e processada, como câncer, diabetes e doenças cardíacas. Para explicar o que ocorre com a comida dentro do corpo e como ela afeta a saúde, são exibidos gráficos bem elucidativos e a linguagem dos profissionais entrevistados é didática e clara.

Os dados científicos, conseguidos em entrevistas e artigos, apontam ainda os benefícios de uma dieta baseada em vegetais (com todas as proteínas a que temos direito!), como mais disposição, restauração do equilíbrio hormonal e suspensão do uso de fármacos. Kip acompanhou pacientes com doenças crônicas severas que mudaram seus hábitos alimentares e são prova viva disso. Não só a dieta vegetariana fortalece a saúde, como também respeita os animais e preserva o ambiente.

Similar a Cowspiracy, o site de What the health apresenta as fontes de todos os dados fornecidos no filme e te convida a participar do desafio de ser vegano por 30 dias. O filme está disponível para assinantes do Netflix e para compra no Vimeo. Se você já é vegetariano ou vegano, quer melhorar sua saúde de forma natural e/ou conhecer um dos maiores jeitos de contribuir para a conservação do nosso planeta, este documentário vai te ajudar e muito! Veja uma provinha no trailer abaixo.


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Mantra da teia da vida - Cuidar de si, cuidar do outro, cuidar do meio

Por Letícia Maria Klein •
27 junho 2017
Você já ouviu falar em teia da vida? É ela que rege a vida no planeta e no universo, conectando todos os seres vivos e elementos da natureza, como água, solo, atmosfera, minerais e corpos celestes como o Sol e a Lua. Estamos todos inseridos na teia da vida e dependemos desta rede de relações interdependentes em todos os momentos da nossa existência, do instante em que acordamos até acordar novamente no dia seguinte. Os gregos antigos já tinham esta visão, usando o conceito de physis para indicar as relações entre todas as coisas, vivas ou não.



Estamos tão embrenhados nesta teia de vida que não vivemos um mísero segundo fora dela. A começar por nós mesmos, que abrigamos uma colônia de trilhões de bactérias e outros microrganismos que nos ajudam nos processos fisiológicos que acontecem no nosso corpo. Porém, vivemos tão agitados, como se no piloto automático, que acabamos não percebendo as relações fundamentais. Por isso é tão importante cuidar do meu corpo, praticar exercícios, ter uma alimentação saudável, trabalhar com o que me satisfaz e dedicar um tempo diário ou semanal para me conhecer e me conectar comigo mesmo.

Os meus relacionamentos com os outros e com o ambiente onde vivo são um reflexo da minha relação comigo mesmo. Quanto melhor a minha relação comigo, melhor serão as minhas relações com os outros seres vivos e não vivos e melhor serão minhas atitudes, pois passo a desenvolver mais consciência de mim, do outro e do meio e de todas as inter-relações e interdependências que nos conectam. Práticas como a meditação, ioga e caminhada, entre outras, me permitem momentos de reflexão e autoconhecimento para uma vida com mais significado e propósito.



Quanto mais eu me conheço, mais entendo sobre meus desejos e necessidades, conseguindo identificar o que de fato eu preciso e o que é supérfluo, desde sentimentos, sensações, experiências e objetivos a coisas e bens materiais. Este conhecimento me torna um consumidor consciente e se reflete numa relação muito mais harmônica e equilibrada num planeta de proporções e bens naturais finitos, não renováveis em escala humana. A Terra consegue satisfazer a necessidade de todos os seres vivos, mas não a ambição e o orgulho de todos os seres humanos.

O consumo consciente diz respeito à maneira como eu uso meu tempo, minha energia, roupas, como eu me alimento, o que e como eu compro, como eu descarto os resíduos sólidos, entre tantas outras questões. A lógica minimalista de que menos é mais, neste contexto, se traduz em menos consumo de objetos materiais, de água, de eletricidade, de embalagens, menos geração de lixo, mais compostagem e reutilização, mais uso de transporte público ou bicicleta, mais consciência na alimentação, mais respeito e empatia a outros seres vivos e elementos da natureza, mais consciência ecológica, mais educação planetária.

Por viver numa teia da vida, é como se eu fosse um nó. Cada ação e atitude que tenho no meu dia a dia têm repercussões pelos fios invisíveis desta rede universal, de pequenas a grandes, locais a globais. Assim, sou as mudanças que quero ver no mundo.
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Sobre vida e experiências – TEDxBlumenau 2017

Por Letícia Maria Klein •
29 maio 2017
A terceira edição do TEDxBlumenau, Momentum, foi sobre vida, morte, experiências e o valor do tempo. Os três blocos de palestras foram construídos para contar uma narrativa sobre jornada interna, começo e fim da vida terrena, saúde e qualidade da existência. Participei pela segunda vez (relato do evento do ano passado aqui) e, assim como da outra vez, saí com uma sensação maravilhosa, feliz de ter presenciado 14 relatos de vida incríveis e emocionantes. Abaixo um pouquinho de cada palestra e seus vídeos. Assiste, vai, tenho certeza que o teu pensamento depois vai ser “que bom que eu vi!”.

Mauricio Louzada
Um segundo pode ser um vértice de mudança na sua vida, que pode te levar à tua caverna interna. Lá, é onde nos perdemos para que possamos encontrar nosso caminho.



Gabriela Muller
O parto é um momento lindo e intenso na vida da mulher e o parto humanizado vêm crescendo, assim como a presença da doula. Neste assunto, Blumenau foi pioneira ao ser a primeira cidade brasileira a permitir a presença de doulas em partos.



Rosane Martins
Por que ter medo de envelhecer?



Rogério Malveira
Se você não compreende saúde, sua capacidade de ser saudável fica restrita, por isso a compreensão em saúde é o sexto sinal vital. O limite do teu mundo depende da tua capacidade de compreensão. Portanto, médicos, vamos descomplicar, pois falar bonito é se fazer entender.



Luiz Fernando Roriz
Esperança e resistência são essenciais para sair da inércia. Todos têm potência para tal e ela é exponenciada com os relacionamentos pessoais. Ter um problema não é problema, afinal.



Cristina Tardáguila
Vemos e compartilhamos muitas notícias falsas. O fato não importa mais e isso é gravíssimo, pois a crença tem tido mais importância do que o fato. Compartilhamos o que acreditamos e quando corrigimos um post, ele não faz tanto sucesso quanto o primeiro. Para não cair em erro, sempre cheque fatos antes de compartilhar algo nas redes sociais que pode levar até a tragédias. Preste atenção à ausência de fonte, números relativos, dados em mutação, A causa B e "maior do mundo".



Thiago Rondon
A tecnologia pode transformar a política? A política é um financiamento em rede, mas hoje a rede é pequena. O que está em jogo é: moeda de poder x moeda de representatividade.



Marcelo Fett
Crescimento sem desenvolvimento. O que gera riquezas são o conhecimento e a inovação. O desenvolvimento de um estado está na capacidade de empreender, inovar e ser resiliente.



Kiko Kinslanski
O que o mundo perde se sua empresa deixar de existir? Existem dois tipos de empresas: as que melhoram e as que pioram o mundo. Por que ter uma empresa? Empresas devem olhar para dentro para encontrar as respostas às suas inquietações internas. “Ao invés de vencer na vida, vem ser na vida”. Ao invés de perguntar a uma criança o que ela quer ser quando crescer, pergunte à criança o que ela quer mudar quando crescer. Tríade da transformação: consciência (o que tu fazes afeta o todo e o todo afeta o trabalho), propósito, pessoas (humanização).



Hamilton Henrique
Alimentação saudável é direito, não privilégio. Por isso, o Saladorama faz o ciclo do cuidado: agricultores, cozinheiros, entregadores, consumidores.



Felipe Colvara
O projeto Kombina com foto mostra o poder da fotografia como memória registrada.



Maria Lujan Tubio
A roda da vida tem oito elementos da felicidade e a espiritualidade é o mais importante, pois é sobre o significado da vida, conexão. Para isso, educação de verdade.



Quiteria Peres
As pessoas clamam o direito de pertencer. Vivemos a lógica perversa da velocidade e o tempo é bálsamo, mas na dose errada pode ser veneno. Somos todos juízes na nossa família, por isso é importante aprender o verdadeiro significado de cada conflito. Assim, pais, incentivem os filhos a ter empatia, analisar alternativas e buscar soluções. Nada melhor do que a sensação de ter ajudado a solucionar o próprio problema.



Karina Barreto
Expressar sua verdade aumenta a chance de se conectar com alguém. Então, ao conhecer alguém, ouse, faça perguntas diferentes, interessantes. Sem pré-conceitos, tome consciência do julgamento e evite a sentença.

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Transição para a economia do bem-estar

Por Letícia Maria Klein •
10 maio 2017
No segundo vídeo da série “Da Schumacher para o mundo”, o tema é economia para transição (o primeiro foi sobre ciência holística). Nesta série, estou mostrando um pouco do que é debatido e conversado nos cursos da Schumacher College e que podemos aplicar na nossa vida para o cultivo de hábitos e atitudes sustentáveis. Foram mais de trinta minutos de conversa com o coordenador e professor Jonathan Dawson e o professor Tim Crabtree, do curso de Economia para Transição, sobre economia holística, o que é a nova economia, exemplos da nova economia no Brasil, vida em comunidades intencionais, conexão entre economia e espiritualidade e passos para quem quer fazer a diferença e empreender seguindo os novos paradigmas econômicos. Como no vídeo não cabe tudo, as entrevistas completas seguem abaixo. Depois de assistir e ler, comente aqui para trocarmos algumas ideias.



O que é a economia vista de uma maneira holística?
Jonathan Dawson: Uma definição convencional de economia seria o que passa pelo mercado, sujeito a trocas monetárias. Começaríamos com a suposição de que, na verdade, há muitas coisas que passam pelo mercado que não contribuem para o nosso bem-estar. Acidentes de trânsito, derramamento de óleo, usinas nucleares, guerra; todos estes contribuem para o valor econômico e monetário. Similarmente, há muitas coisas que não passam pelo mercado que são essenciais ao nosso bem-estar, como criar filhos, trabalho comunitário, voluntariado e a quantidade crescente de trocas acontecendo pela internet que não conectadas a dinheiro e mercados. Então, uma visão muito mais aberta inclui uma quantidade muito maior de atividades humanas do que apenas o que passa pelo mercado.

O que é a nova economia?
Jonathan Dawson: Acredito que não existe só um tipo de pensamento sobre a nova economia. Há muitas ideias e paradigmas emergentes que estão desafiando as formas convencionais de fazer as coisas. Mas acho que provavelmente o que a maioria destes novos pensamentos tem em comum é que, ao invés de ter o crescimento como propriedade central da economia, o foco é em bem-estar e felicidade. Fundamentalmente, supõe-se que no sistema atual o crescimento econômico representa o bem-estar, o que não é verdade. Para além de um nível bastante baixo de bem-estar material, o relacionamento entre mais consumo e bem-estar deixa de existir. A ideia de que a melhor maneira de nós agirmos é simplesmente aumentar o consumo de bens materiais é uma suposição muito rasa. Então, se realocarmos o bem-estar para o centro, o propósito da economia, teremos todo o tipo de novas possibilidades e áreas.

Como foi sua experiência como presidente do Global Ecovillage Network (Rede Global de Ecovilas)?
Jonathan Dawson: Minha experiência como presidente foi muito interessante. Foi um verdadeiro privilégio poder viajar por tantas iniciativas diferentes. No começo, foi um pouco confuso, pois, pelo menos no mundo industrializado na época que o GEN foi criado, o número de ecovilas sendo criadas era relativamente baixo. A maioria das grandes ecovilas foi criada nas décadas de 1960, 70 e início de 80. No começo foi confuso, pois achávamos que nossa missão era criar muitas ecovilas, o que não estava acontecendo apesar do grande trabalha que estávamos fazendo. Acho que para mim, a ficha caiu quando eu percebi que, na verdade, o objetivo não era necessariamente replicar novas ecovilas, mas usar as existentes como centros de treinamento, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento. Esta visão nos trouxe mais significado e mais satisfação com o trabalho.

Como tem sido sua experiência de viver em comunidades?
Jonathan Dawson: Eu vivi em três comunidades diferentes nos últimos 20 anos, começando em uma pequena em Dorset, depois em Findhorn por 11 anos e há cinco anos na comunidade Bowden House, perto de Totnes. Para mim, é um esforço muito grande viver fora de comunidades intencionais. Ao longo dos anos as pessoas me perguntavam se não era difícil viver em comunidade e eu respondo “Você acha fácil viver por sua conta?” ou “Você acha fácil viver numa unidade nuclear?”, porque eu não acho fácil. Nunca achei. Coisas como o potencial para espaço e generosidade são muito maiores em comunidade. Eu encontrei meu habitat natural. Todas as comunidades são diferentes, provavelmente a maior diferença é o tamanho. Findhorn se tornou mesmo uma vila, cerca de 500 habitantes. Onde eu estou agora, somos em 35 adultos e 10 crianças. Findhorn tem os atributos de uma vila, então você pode chegar e comprar uma casa, enquanto que Bowden House tem seu próprio processo de para se tornar membro e é muito claro quem é membro e quem não é. Eu gosto muito de viver em comunidade.

Quais são os benefícios de viver em comunidade?
Jonathan Dawson: A melhor forma de ilustrar as vantagens de viver em comunidade é descrever o que aconteceu em Bowden House na semana passada. A comunidade é musical, então na quinta houve uma noite de canto, então vieram pessoas de fora. O fim de semana foi de Halloween, então tivemos festa para as crianças com gostosuras ou travessuras. Tivemos um almoço coletivo e à noite, por ser o último domingo do mês, houve um grande coral com pessoas de dentro e fora da comunidade, cantando juntas. Também temos um centro comunitário. Em todas as quintas temos atividades de jardinagem e de apicultura abertas ao público externo. Temos 10 acres de terra, pomares, jardins, oficinas (eventos) e espaços que podemos usar para enriquecer nossas comunidades vizinhas. Claro que também pode haver desafios. Precisamos estabelecer limites, estruturar como tomar decisões, regras para quem quer usar os espaços e sob quais condições. Conflitos quase sempre acontecem, mas viver em comunidade nos dá a oportunidade de resolvê-los conscientemente, ao invés de fugir deles. Então, há desvantagens, claro, mas sou um grande fã.

Você já viajou muito para o Brasil. Quais os exemplos de nova economia que existem lá?
Jonathan Dawson: É interessante que muitos brasileiros vêm aqui para Schumacher College aprender sobre nova economia, mas, na verdade, muitos dos bons exemplos de nova economia vêm do Brasil. E geralmente os brasileiros respondem com “Sério, nunca ouvi falar”. Um dos exemplos mais bem-sucedidos de moedas complementares é o Banco Palmas, com a moeda palmas, criado em Fortaleza, mas hoje há mais de 100 bancos de desenvolvimento comunitário replicando este modelo. Todo o experimento em Curitiba em relação à criação de empregos, à qualidade da alimentação, qualidade do sistema de transporte coletivo. O fenômeno dos orçamentos participativos, que começou em Porto Alegre, em que comunidades recebem uma parcela do orçamento municipal e decidem como utilizá-la; este modelo já se espalhou pelo mundo.

A lenda do mascate de Swaffham
Jonathan Dawson: Existe uma lenda sobre um rapaz fazendeiro de uma vila chamada Swaffham [a lenda chama-se The Pedlar of Swaffham, o Mascate de Swaffham], em Norfolk. Ele tinha sonhos repetitivos que lhe falavam para ir até a Ponte de Londres e que se ele ficasse lá, ficaria rico. Então ele deixa sua vila e vai para Londres, onde fica sentado na ponte por uma semana. Pessoas passam e nada acontece. Quando ele está prestes a ir embora, um homem chega e pergunta o que ele estava fazendo sentado na ponte. O jovem fazendeiro responde: “Bem, estou meio constrangido de dizer, mas eu tive sonhos poderosos que me diziam que se eu viesse até aqui e sentasse aqui, ficaria rico”. E o homem disse: “Não seja tolo, não acredite em sonhos. Um dia eu tive um sonho poderoso que me mostrou que se eu fosse até uma vila chamada Swaffham e cavasse debaixo de uma cerejeira atrás de uma casa, haveria um pote de ouro”. E o homem descreveu exatamente a casa do fazendeiro. Então o rapaz retorna para sua vila, cava sob a árvore, acha o pote de ouro e fica rico. A moral da história é que o tesouro estava lá o tempo todo, ele não precisava ter viajado. [O maior tesouro do mundo se encontra em nossas próprias casas, jardins, na nossa família, quando se sabe reconhecer; outra moral é que talvez seja preciso primeiro se afastar para depois voltar e encontrar o tesouro.]

Que conselhos você dá para aqueles que querem empreender, sair do velho paradigma e fazer algo novo?
Jonathan Dawson: Vou imitar Satish [Kumar, cofundador da escola] e dizer “Não consiga um emprego, a última coisa que você quer é conseguir um emprego, crie o seu próprio sustento, seu próprio trabalho". É claro que há trabalhos no sistema tradicional que são úteis, eu mesmo estou fazendo um deles. É possível achar um bom trabalho no sistema. Mas muito do bom trabalho que tem sido feito é através de pessoas que saíram do sistema e refletiram sobre como poderiam ocasionar mudanças, não supondo que seria um trabalho no sistema vigente, mas uma organização ou algo assim que elas mesmos criariam. Eu diria que uma coisa muito importante é que as pessoas parem de pensar em si como indivíduos e procurem colaboradores. Quando você encontra um time, um grupo, todo tipo de coisa se torna possível.

É possível relacionar economia e espiritualidade? Como?
Tim Crabtree: Sim, acredito que é possível. Eu cresci numa família que não tinha interesse em religião. Então, aconteceram duas coisas. Assisti ao filme Gandhi quando tinha 16 ou 17 anos e foi a primeira vez que vi alguém que ligava espiritualidade com ação no mundo, o que me impressionou bastante. Isso me fez repensar espiritualidade e religião. A segunda coisa foi a leitura de “Small is beautiful”, de E. F. Schumacher [em português o livro se chama “O negócio é ser pequeno”], quando tinha 17 ou 18 anos, e tem este capítulo chamado Economia budista. Fiquei impressionado por este capítulo, em que ele fala sobre a ideia de subsistência certa. Ele fala que na economia tradicional, o trabalho é visto como desagradável, algo que tentamos reduzir a um mínimo. Mas no budismo, trabalho é importante, visto como parte da vida espiritual. Quando eu estava na faculdade, em 1984, eu comecei a estudar aikido, que é uma arte marcial japonesa e foi a primeira vez que encontrei uma prática espiritual, a meditação. Então, escola de verão naquele ano, veio um monge zen que veio do Japão, que nos ensinava meditação de manhã e relacionava com aikido. Desde então tenho praticado o Budismo e me interessei muito sobre como relacionamos espiritualidade e nossa prática no mundo, que no meu caso é economia. Por um longo tempo, a minha ênfase estava em atenção plena [mindfulness], mas eu passei a entender que a prática não tem só a ver com atenção plena, porque esta pode ser muito focada no seu eu [self], em como uma pessoa é centrada ou atenta. Mas, na verdade, o cerne do Budismo é a ideia de interser [interbeing], de que não existe separação entre nós e o mundo ou entre nós e o ambiente, entre nós e outras pessoas. Portanto, à medida que vamos tendo esta experiência através da nossa prática, a ênfase vai mais para compaixão ou conexão com outros, e então querer ajudar os outros, fazer a diferença no mundo, porque este mundo é uma extensão de nós e certamente nós iríamos querer tentar cultivar generosidade, amor e bondade. Esta é uma mudança que tenho visto na minha prática e acho que aqui na Schumacher, o modo como eu tento trazer isto para minha atuação como professor é que eu trabalho com uma budista professora e nos últimos anos a tenho convidado para ensinar aqui, pois ela é uma profissional experiente e então tentamos ligar espiritualidade e economia.

Quais os passos para fazer uma diferença no mundo ou mudar algo que te perturba?
Tim Crabtree: Uma das coisas que exploramos na Schumacher é que nossa cultura dominada pelo ocidente tem essa ideia de que tudo é conduzido pelo lado cognitivo, pela abordagem racional. Então, podemos olhar para um problema, como o ambiental, e vê-lo bem racionalmente e então pensar “qual o método racional de abordar este problema?”. Meus estudos são em desenvolvimento de economias locais e de empresas sociais. Então, quando identificamos um problema, podemos pensar em fazer um plano de negócio, ter uma visão, mas é tudo bem cognitivo. Outra coisa que aprendi com Schumacher é que, na verdade, nós temos que começar na esfera efetiva, que é a esfera conectada com nossas emoções. Eu, por exemplo, estou sempre me envolvendo com coisas que me atraem. Nos últimos três anos, tenho feito muitos trabalhos em florestas, porque eu gosto de árvores e adoro estar em florestas. Na Inglaterra, temos poucas florestas e elas não são bem manejadas. Se eu abordo esta questão apenas pela perspectiva cognitiva, eu diria “Isto é um problema, temos que fazer algo a respeito”. Mas eu posso vir da perspectiva de gosto de estar na floresta, plantar árvores, trabalhar com madeira, então isso toca uma emoção positiva que eu tenho. Outro exemplo é que eu abri uma empresa social que faz refeições para crianças na escola. Há certos problemas; na cidade onde eu moro, muitos pais não conseguem dar uma boa alimentação para seus filhos. Mas cheguei até isto porque tenho filhos e eu adoro cozinhar para eles. Então nós começamos a ajudar escolas a criarem seus próprios jardins onde as crianças poderiam plantar. Começamos a organizar oficinas onde as crianças poderiam cozinhar. Foi uma ação que começou com esta dimensão positiva da comida. Também precisamos incorporar a dimensão criativa e imaginativa das coisas, porque se iniciarmos da perspectiva cognitiva, trata-se de separar as coisas, analisá-las. Porém, imaginação e criatividade são sobre unir as coisas em novas formas, pensar novas formas de fazer as coisas. Então, se pudermos unir o efetivo/emocional com o criativo/imaginativo, parece-me uma maneira melhor de começar, pois o ponto de partida é uma energia positiva que nos atrai, em vez de um problema com o qual nos preocupamos e precisamos fazer algo a respeito. Nem sempre é bom ser impulsionado pelo que sentimos raiva ou preocupação e então tentar lidar com isso racionalmente. A terceira coisa que aprendi com Schumacher foi que somos ensinados a nos ver como separados, observador e objeto, e que estamos tentando fazer algo para o mundo. Aqui na escola exploramos formas diferentes de ver o mundo não como separado, mas com o que estamos intimamente conectados e relacionados, seja através da fenomenologia, práticas contemplativas, ecologia profunda, a construção social (ramo da psicologia que fala sobre como criamos significado juntos e como nos desenvolvemos a partir da nossa relação com os outros), enfim, práticas que exploram esta conexão que temos com os outros e com o mundo. Acho que este é um conjunto de práticas com o qual nós podemos começar e que se torna a base do que fazemos ou do que nos atrai. Então nós podemos trazer o lado cognitivo, o pensamento complexo, o pensamento sistêmico, o plano de negócios, abrir uma empresa, fazer um projeto, mas temos que começar nestes outros lugares para que o que façamos tenha mais vida.

Como você reúne pessoas em torno de uma ideia ou projeto?
Tim Crabtree: Acho que é muito fácil ter uma ideia para um projeto, o desafio é como você reúne pessoas em torno desta ideia para que ela se torne um projeto compartilhado, um esforço compartilhado. Quando eu lembro os trabalhos que fiz, eles começaram com uma ideia. Uma que eu tive foi criar um centro para comida local onde eu moro. Então, nós alugamos um prédio, levantamos recursos financeiros, renovamos o prédio, criamos uma cozinha comercial e a nossa ideia era que os fazendeiros locais viriam até o prédio e transformariam seus produtos em outros alimentos. Nós vimos esta ideia funcionando muito bem nos Estados Unidos e pensamos que poderíamos fazê-la funcionar na Inglaterra. Então conseguimos o prédio, montamos a cozinha e ninguém veio. Bem, algumas pessoas vieram, mas não o suficiente para pagar o aluguel. Então começamos a pensar no que mais poderíamos fazer com a cozinha. Já estávamos trabalhando com escolas e uma das coisas que não se ensina na escola fundamental é cozinhar. Então decidimos começar a fazer aulas de culinária para crianças. Isto começou a funcionar muito bem e levou a mais conversas com crianças, pais e professores. Nestas conversas, surgiu a questão de que nestas escolas em Dorset, não há cozinha para fazer almoço quente para os estudantes. Crianças de família com baixa renda recebiam um almoço embalado, como sanduíche, e era horrível, feito em Londres e depois carregado por 140 milhas e as crianças não queriam aquela comida. Então nós pensamos que poderíamos usar a cozinha que montamos para fazer um almoço simples, como sopa e pães [lá na Inglaterra é costume almoçar sopa com pão] e começamos a tentar e se tornou popular. Isto levou a mais conversas sobre como nós poderíamos fazer isso em mais escolas e se poderíamos fazer mais do que sopa. Então, de repente, o governo fez uma mudança na política pública que obrigava escolas a oferecer refeições quentes e precisavam cumprir padrões nutricionais. Isto foi um problema duplo: as escolas com as quais tínhamos contato não tinham cozinha para fazer estas refeições quentes e as sopas que fazíamos não atendiam ao padrão nutricional exigido pelo governo. Então reunimos os diretores de oito escolas e dissemos: “por que não criamos um empreendimento social que faça refeições escolares para suas escolas?”. A alternativa era que eles teriam que ter um contrato com uma fábrica que ficava a 200km de distância e fazia refeições congeladas e a ideia era que as refeições seriam transportadas e esquentadas em micro-ondas nas escolas. Nenhum dos pais, professores e crianças quis isso. Então eles ficaram entusiasmados com a ideia de criar um empreendimento social. Conseguimos arrecadar mais dinheiro, montamos uma segunda cozinha no centro para comida local. Hoje, oito anos depois, a empresa possui saldo positivo e tem um volume de negócios de 1 milhão de libras por ano, empresa 30 pessoas e trabalha com 33 escolas. Quando olho para trás, esta empresa começou porque a ideia original do centro de comida local para fazendeiros não funcionou e por meio de conversas aleatórias e eventos, ela evolui de outra forma. Para mim isto é uma lição. É fácil ter uma ideia e dizer “eu farei isto”, mas, na verdade, sua ideia não vai funcionar exatamente como planejada, então é necessário perceber que o processo mais importante precisa estar aberto a conversas, tentar criar o máximo de conexões possível com as pessoas da comunidade para que você esteja aberto a possibilidades, porque você não tem como prever quais serão estas possibilidades, mas se você cria espaço para estas conversas, você tenta ao máximo criar conexões que possam levar a algo e algo vai surgir, mas você não necessariamente sabe o que é.
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