Loading Quotes...
20 set
2017

Design para harmonia, resiliência e adaptação às mudanças

O Ecological Design Thinking (algo como pensamento de desenho ecológico) é uma das modalidades mais recentes do design e tem tudo a ver com empatia. No terceiro vídeo da série “Da Schumacher para o mundo”, o tema é o papel do Ecological Design Thinking (EDT) no mundo e como podemos aplicá-lo nas nossas vidas. Conversei com Seaton Baxter, ex-coordenador do curso de mestrado em EDT da Schumacher College (ele se aposentou no fim de 2016) e com Mona Nasseri, que trabalha na faculdade como pesquisadora em design e membro da equipe do mestrado. As entrevistas completas e recheadas de informações interessantes estão abaixo. Como eu fico muito curiosa para saber o que você achou, deixe seu comentário no fim da postagem e nós vamos conversando. 

Como Ecological Design e Design Thinking se combinam em Ecological Design Thinking?
Seaton Baxter: A ideia de Ecological Design é muito mais velha do que Ecological Design Thinking. Provavelmente, os primeiros usos de Ecological Design datam de 1980, quando começou com pessoas como John e Nancy Todd e David Orr. Eu comecei Ecological Design como um curso de mestrado em Aberdeen in 1992. Na época, Ecological Design era visto como uma extensão do trabalho dos projetistas, era orientado a pessoas que tinham habilidade de projetar e foi apenas estendido pela dimensão ecológica. Nossa preocupação era que, enquanto vimos muitos exemplos de lindos projetos, também vimos muitos maus exemplos pela perspectiva ecológica. Um exemplo clássico seria o projeto lindo de carros motorizados, mas a dimensão ecológica da poluição que sai da exaustão nunca havia sido considerada. Então, os carros são um exemplo de bela engenharia, mas ninguém pensou nas consequências dos gases saindo dos canos de exaustão. Se tivessem pensado, teriam considerado a perspectiva ecológica. Então, em 1992 começamos um curso de mestrado em Ecological Design em Aberdeen e acho que foi um dos primeiros cursos do gênero no mundo. A ideia era que reuniríamos estudantes de design e também de biologia e ecologia. Mas tivemos dificuldades: os estudantes de design não tinham nenhum conhecimento de biologia ou ecologia, portanto, eles achavam muito difícil lidar com ecologia no nível de mestrado. Eles teriam conseguido lidar em nível de graduação, mas não de mestrado. Em contraste, os cientistas que vieram dos campos de biologia e ecologia conseguiam lidar com design. Eles nunca seriam bons projetistas, pois leva tempo para isso acontecer, mas eles conseguiam lidar bem com os conceitos. Este foi o começo e Ecological Design era a matéria de então. Eu achei na época que nós não tínhamos realmente material de base para resolver a questão. Em outras palavras, era muito fácil pensar que era apenas design com “ecologia” colocada na frente. O que isso significaria? Nós ainda não tínhamos descoberto. Cerca de 10 anos depois, eu fui convidado pela Universidade de Dundee, onde eu reuni um pequeno grupo de acadêmicos de PhD e criei um centro para estudo de Design Natural. Durante os 10 anos seguintes, nós criamos 10 ou 15 teses de PhD que analisaram o que é Ecological Design [desenho/projeção ecológico]. Estávamos construindo toda uma plataforma de informação sobre esse assunto. Então a universidade quis que eu me aposentasse e três anos depois a Schumacher College decidiu criar um mestrado em Ecological Design Thinking, não apenas Ecological Design, e perguntou se eu estaria disposto a colaborar. Então esta é a diferença: Ecological Design, num nível de mestrado, realmente precisa ser voltado para pessoas treinadas em design, é uma elaboração das suas técnicas de design. É uma elaboração significativa, pois é ecológica. Porém, a Schumacher queria trazer pessoas que não necessariamente têm habilidades de design. Nos últimos 10 anos, desenvolveu-se a ideia de Design Thinking, que não precisa ser feito por designers, mas é uma técnica que designers têm usado para lidar com problemas complexos. A Schumacher decidiu que a forma com que se trabalharia aqui era desenvolver um mestrado em Ecological Design Thinking, que permitiria a participação de estudantes vindos de múltiplas disciplinas. Então, EDT é a aplicação de uma técnica de pensamento de design vista pela perspectiva ecológica.

Qual é a importância do Ecological Design Thinking para o mundo hoje?
Seaton Baxter: Uma forma de analisar é olhar para trás e perguntar quais são todas as coisas que fizemos de errado. A maioria das coisas que fazemos neste mundo é projetada/desenhada. Não necessariamente profissionalmente projetadas, mas quando você pensa sobre isso, quando acorda de manhã e decide qual será seu café da manhã, você projetou sua refeição. Então, estamos sempre projetando de alguma forma. Um designer muito famoso, Victor Papanek, disse que todos somos designers, só que não todos são profissionais. A questão é que todos precisamos ser designers ecológicos, ou, pelo menos, pensadores de design ecológico. Porque quando voltamos aos problemas que criamos, nós os criamos porque nunca pensamos nas consequências de um impacto ecológico, em seu maior sentido. Pense em todas as coisas que nós aqui na Schumacher falaríamos que são terríveis: quais seriam elas? A maioria delas teriam sido decisões projetadas ou pensadas sem levar em conta as consequências ambientais. Então, a maioria dos problemas que temos são problemas para os quais poderíamos ter encontrado solução se tivéssemos tido Ecological Design Thinking. Esta é uma forma de abordagem: ver todos os erros que cometemos, aplicar o Ecological Design Thinking e pensar o que teríamos feito se o tivéssemos usado. É como um desenho do passado. Mas, claro, o que temos que lembrar é: porque tudo está mudando e evoluindo, haverá novos problemas que não têm precedentes. O mais interessante destes problemas é que todos são muito complexos, problemas que você não consegue resolver ao dividi-los em partes. Na verdade, no passado, essa é que foi nossa dificuldade. Fomos muito bons em reduzir problemas a pedaços, apenas para futuramente perceber que os reduzir a partes não é igual a quando tentamos lidar com o problema inteiro, de uma forma holística. Então, agora, nós temos que ir em frente e pensar. Estes problemas complexos e perversos, como as mudanças climáticas, pobreza, obesidade, são problemas que você não consegue retirar um pedaço dele sem entender que ele está ligado a todo o resto. Então precisamos olhar para estes problemas de novas formas. E essas formas, atualmente, nos parecem associadas a Design Thinking, a técnica de lidar com problemas complexos. O interessante do Design Thinking é que não se acredita que você consiga achar uma resposta para um problema complexo. Esta é uma ideia velha de design: “aqui está o problema, esta é forma como lidamos com ele, esta é a resposta”. Essa é uma forma muito simples de abordagem. E você não conseguiria lidar com um problema complexo dessa forma. A essência de lidar com problemas complexos é o entendimento de que não existe uma única resposta; é essencialmente sobre como você lida com o problema e não como você o resolve, porque ele sempre vai evoluir. Então tem a ver com aprender a lidar com o problema, o que significa que mais design participativo. Mais design trabalhando com comunidades pequenas significa trabalhar com a comunidade de forma que ela continue evoluindo, porque o problema está constantemente mudando e não há uma única resposta. E a única coisa que constantemente muda com o problema é a comunidade. Design Thinking é uma ótima técnica, mas precisamos ter a dimensão ecológica, caso contrário, vamos acabar com Design Thinking resolvendo problemas, mas que não são ecológicos, o que gera mais problemas. Não seria uma técnica de solução em longo prazo. E ainda, a dimensão ecológica é difícil, porque toda a noção de ecologia é em si mesma um processo em constante evolução. O ecossistema a nossa volta não é o mesmo hoje do que foi ontem, está continuamente evoluindo. Ecological Design Thinking precisa ser um sistema dinâmico em constante evolução e para fazer isso não faz sentido dizer que o designer é o solucionador de problemas, as pessoas que têm o problema é que precisam lidar com ele.

Quais são as implicações de EDT para o mundo sustentável?
Mona Nasseri: Primeiro, precisamos definir o que é EDT. É uma área muito nova que estamos explorando. Até agora sabemos que EDT é uma evolução do design e do Design Thinking. Temos que ter conhecimento de como o design evoliu ao longo dos últimos 30 anos. Design não é mais só sobre criar objetos e comunicar aos clientes. Até a década de 1970, era a rentabilidade do design que definia seu sucesso. Mas, gradualmente, isso mudou. Os designers perceberam que para tornar o design bem sucedido, eles precisavam satisfazer as necessidades dos usuários. Então, o design evoluiu do foco no lucro para o foco no usuário. Por volta de 1980, um novo campo do design começou a surgir. Design Thinking tem a ver com ser empático ao usuário. Não é mais sobre obter um produto num período curto de tempo com menos dinheiro, é sobre entender o usuário. Design Thinking tem sido aplicado em gestão, negócios e até na política. Nos últimos 10 anos, Design Thinking entrou na área da sustentabilidade e teve um grande papel na expansão do design para outras áreas, especialmente inovação social. Há também design de transição nos EUA, que começou há cinco ou seis anos, que tem uma visão sustentável de sociedade em curto e longo prazo. Em EDT, tentamos incorporar tudo isso, ter uma conexão profunda com ecologia e aprender com os ecossistemas. Nós não projetamos para ecossistemas. Ecossistemas não precisam do nosso design. A natureza tem um design perfeito. Mas nós podemos aprender com a natureza e fazer design para pessoas de uma forma que a natureza possa prosperar junto com os humanos. Ao invés de explorarmos o ambiente natural, nós podemos ter uma relação sinérgica com o ambiente natural e tanto a sociedade quanto os ecossistemas prosperam. Esta é a nossa missão em EDT. No passado, era sobre resolver problemas. Agora, design é sobre ver o potencial nos problemas e ver problemas não só como problemas, mas como oportunidades de fazer as coisas de forma melhor para as pessoas e o ambiente.

Cite alguns exemplos de EDT aplicados à realidade.
Mona Nasseri: Alguns dos nossos estudantes pós-graduados têm se envolvido com educação. Dois deles estão trabalhando em Woodstock School (uma escola internato), na Índia, onde estão construindo um centro para a imaginação, usando os princípios do EDT para educar jovens, instigando-os a usar a imaginação e a criatividade para liderar movimentos em prol de sociedades sustentáveis. Outro estudante trabalhou no governo de Mallorca (ou Majorca) para desenvolver uma nova logomarca para o Estado e o processo foi bem interessante. Um pensador de design ecológico sabe que tudo que ele cria ou produz, basicamente tudo que ele faz, gera uma mudança no sistema. O trabalho dele consistiu em restabelecer o que estava por trás daquela logo e criar um sistema a partir de um material real, como a cor que ele usou na logo, que foi natural. Outro exemplo com o qual me envolvi recentemente é a colaboração em pesquisa com a Universidade Plymouth no nordeste da Tanzânia para explorar a resiliência ecológica e social de uma área em particular naquela região. A ideia é ter cientistas sociais explorando o lado social de impactos ambientais, cientistas naturais explorando o aspecto natural e pensadores de design ecológico para criar pontes entre esses dois com o objetivo de usar a sabedoria local para resolver problemas locais.

Como podemos aplicar conceitos de EDT nas nossas vidas?
Seaton Baxter: Tudo que eu disse até agora implica que design tem a ver com como nós nos esforçamos em mudar o mundo lá fora. Esta é visão corriqueira do design, que se aplica ao mundo externo. Mas a chave, na minha visão, se as situações estão continuamente evoluindo, é mudar a si mesmo. Se conseguirmos mudar a nós mesmos, seremos capazes de sempre responder aos problemas. Acho que até agora em nosso curso nós temos sentido muita falta deste forte elemento. Em outras palavras, investimos muito tempo em dar conhecimento e habilidades aos estudantes em relação a como eles mudam o mundo lá fora. O que precisamos fazer é ter um esforço igual em termos de conhecimento e habilidade que você precisa para mudar a si mesmo. Porque, quando fizermos isto, quando estes pensadores saírem daqui, eles também vão tentar converter, não brutalmente, as comunidades com as quais vão trabalhar para mudarem internamente tanto quanto externamente. As ideias mais significativas começam com uma pessoa e esta pessoa precisa ter total comprometimento com o que vai fazer. Este comprometimento total vem de dentro. Como alguns dizem, “você é tolo ao achar que pode mudar o mundo, a única coisa que realmente pode mudar é a si mesmo”. É verdade, mas, ao mudar a si mesmo, você começa a influenciar outras pessoas. A chave para esta mudança interna para os pensadores de design ecológico é mudar a mentalidade, a maneira de ver o mundo. O lado bom disso é que você pode usar uma variedade de técnicas para mudar sua mentalidade, as quais você pode aplicar a um problema externo. Pense, por exemplo, em David Abram e sua abordagem fenomenológica das coisas. Então, se você muda sua mentalidade, não há mal algum em imaginar você como uma ave, pois isso te ajuda a mudar sua mentalidade. Apenas imaginar você como uma ave não necessariamente te ajuda a aplicar isso à solução de um problema no mundo. Mas se você mudou sua mentalidade, você já começou a mudar de posição em relação ao mundo. Portanto, algumas coisas vão mudar sua mentalidade e algumas destas podem ser altamente imaginativas e totalmente impraticáveis. Você não pode usá-las para resolver problemas do dia a dia, mas elas mudam a forma como você vê o mundo.

Mona Nasseri: EDT não é estranho às nossas existências. Design Thinking basicamente significa ter empatia para com os outros. Ecological Design Thinking significa ter empatia para com outros e os ecossistemas. É uma prática de estar constantemente consciente de outros seres, basicamente, e ter certeza que com cada ação nossa, não estamos comprometendo seu bem-estar. Parece abstrato, mas a realidade disso é que basta ver as conexões que temos, sentindo que somos parte deste grande sistema e que estamos conectados a tudo que acontece a nossa volta. Em termos de prática, eu diria que é muito importante fazer coisas [com as mãos], fabricar coisas, conectar-se com a terra, com o lugar onde estamos. Permacultura é uma parte importante disso. EDT não é só plantar e colher vegetais, é entender a sinergia entre seres vivos e sua conexão com a terra, com o solo. É um ecossistema perfeito e nós podemos utilizar princípios ecológicos ou da permacultura nas nossas rotinas. O mesmo se aplica aos nossos relacionamentos. Design Thinking é feito de uma série de processos interativos, que basicamente diz que a cada coisa que fazemos na vida, precisamos refletir sobre ela. Você não pode simplesmente fazer as coisas e passar reto. Não existe nada pronto, tudo está sempre evoluindo, é parte de um fluxo de evolução. Precisamos parar e refletir sobre tudo que fazemos na vida, aprender com isso e levar adiante.

Fale sobre sua transição profissional, quando você começou a aplicar EDT.
Seaton Baxter: Foi uma transição interessante, pois eu passei 15 anos trabalhando no setor agrícola com design de equipamentos e prédios e estudando comportamento animal na agricultura. Por um período, eu trabalhei principalmente com produção intensiva de gado, galinhas e porcos, onde eu desenvolvia soluções técnicas muito interessantes (porque as pessoas me diziam que eram). Então, finalmente me ocorreu que havia algo errado, eu tinha esquecido que era sobre os animais. Em outras palavras, eu era um verdadeiro designer técnico, que só via as mudanças técnicas. Então eu escrevi um livro sobre todo o trabalho que eu fiz de soluções técnicas e na parte dos reconhecimentos, no início do livro, eu escrevi “Eu gostaria de agradecer a todos os porcos com quem trabalhei. Deve haver um caminho melhor”. Este foi o ponto de virada para mim, que veio através dos animais. Voltei para a universidade e comecei a estudar ética e filosofia animal. Então, a minha transição foi de ser um tecnologista puro através de um lado muito técnico da agricultura para a ideia de animais, plantas, plantações em termos de posições éticas e morais no design. Isso me coloca numa posição interessante com os meus estudantes, aqui na Schumacher, porque eu levanto questões e mostro-lhes imagens de produção intensiva de animais e isso é quase banido aqui na escola, porque, você sabe, somos vegetarianos aqui. Mas vivemos num mundo real e precisamos confrontar alguns destes problemas tão difíceis. Podemos não gostar, mas está aí. Milhões de animais sofrem nesta indústria e precisamos tratar deste assunto. Não basta saber sobre isso, entrar em negação e só virar vegetariano. Precisamos ir além e encarar estas questões como bons pensadores de design ecológico.

Mas se tornar vegetariano e posteriormente vegano tem a ver com a mudança interna que você mencionou antes.
Exatamente, muito bem colocado, porque apesar de não ser estruturalmente uma mudança interna, é um passo para a mudança interna. Você acharia muito difícil fazer uma viagem interna profunda se ainda comesse carne. O fato de comer ou não carne não é a mudança interna, mas é o trampolim para a mudança interna e se você não fizer ambos, você está vivendo uma vida de dissonância, é incoerente. Você é confrontado com um conjunto de conflitos internos. “Por que eu tento acreditar nisto profundamente?” enquanto eu sento e como um bife. Não faz sentido. É difícil, a mudança interna é a mais difícil, porque é muito fácil quando você luta com uma mudança interna e depois desiste, pensando que ninguém vai notar.

A não ser a própria pessoa.
Exatamente, o que nos leva de volta à questão de que a única coisa que você pode mudar no mundo é você mesmo.

Nenhum comentário



Assuntos:
Categorias
Atitudes e práticas sustentáveis Consumo consciente Diário de bordo - Romênia Diário de bordo - Schumacher College Eventos sobre meio ambiente e sustentabilidade Juventude Lixo Zero Passeios na natureza Preservação ambiental Problemas ambientais Resenhas de livros e filmes Sem categoria